A obra de Milton Nascimento sempre foi sinônimo de potência e transformação, marcando gerações com sua música carregada de emoção e significado.
Meu primeiro contato com a obra de Milton Nascimento aconteceu quando eu ainda era criança, no colégio Marista da minha cidade. Foi em uma apresentação, em que todas as crianças cantaram “Maria, Maria” para os pais. Após semanas ensaiando, fazer parte de um coro de crianças cantando sobre uma mulher que é “uma força tão forte que nos alerta”, e sobre uma “gente que ri quando deve chorar”, me marcou sem que eu soubesse naquele momento. Hoje, fico muito feliz que essa seja uma das minhas primeiras memórias com música.
Crescer em Minas Gerais, tão próximo de Três Pontas, onde Milton cresceu e iniciou sua trajetória musical ao lado de Wagner Tiso, fez com que sua música fosse mais do que arte: ela era uma parte essencial do ar que respirávamos. Mesmo que eu tenha me aprofundado de fato na sua história, música e legado apenas um pouco mais velho, é inegável que sua voz e influência esteve presente ao longo de toda minha infância e adolescência, desde o coro de “Maria, Maria”, às recomendações de professores do Ensino Médio em cair de cabeça no Clube da Esquina, disco de importância incalculável para nossos corações mineiros.
Há tanto que gostaria falar sobre Milton. Escrever um artigo sem deixá-lo prolixo ou infinito pode ser um verdadeiro desafio. Por isso, deixo aqui o que encontrará nos parágrafos abaixo, a começar por um breve resumo de sua carreira e influência, seguindo por uma análise do disco “Clube da Esquina” e, por fim, a recomendação de três músicas de Milton para serem passadas em sala de aula, pensando nas diferentes fases da vida escolar.
De “Milton”, à “Bituca”, ao gigante da nossa música
Milton Nascimento, ou simplesmente Bituca, como foi carinhosamente apelidado, é um dos maiores nomes da música brasileira e mundial. O apelido surgiu na infância, pelo fato de que, quando contrariado, fazia uma “cara com bico”. Bituca nasceu no Rio, mas foi criado em uma família amorosa que o adotou ainda bebê e o levou para Minas Gerais.
Sua carreira teve início em pequenos palcos, mas rapidamente ganhou espaço pela singularidade de seu canto e pela profundidade de suas composições. No início dos anos 1970, consolidou-se no cenário musical brasileiro e mundial com o histórico álbum “Clube da Esquina”, produzido em parceria com Lô Borges e uma escalação de outros músicos assustadoramente talentosos. Essa obra não foi apenas um álbum, mas um movimento que redefiniu os limites da música brasileira, fundindo influências do jazz, rock, folk, bossa nova, música regional mineira, latina e clássica.

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A carreira de Milton como músico parte desde sua adolescência quando vivia no interior de Minas Gerais, mas foi apenas em Belo Horizonte, depois de assistir várias vezes a mesma sessão do filme Jules et Jim (1962, dir. François Truffaut) com Márcio Borges, que o músico passou também a compor. Mais tarde, nesse mesmo dia, junto à Lô, os três compuseram a música Clube Da Esquina, presente no disco Milton, lançado em 1970. O filme de Truffaut, além da forte relação com a amizade em sua trama, também muito levou o existencialismo da Nouvelle Vague francesa para os temas trabalhados nas músicas do Clube da Esquina.
Outra figura que muito ajudou a consolidar a carreira musical de Milton foi a cantora Elis Regina, que em 1966 grava a sua música Canção do Sal, lançada no álbum Elis, de 1966 e posteriormente no álbum de Milton, Travessia, de 1967. Além disso, a presença do músico nos Festivais de Música Popular Brasileira foi responsável por boa parte da visibilidade que conquistou na década de 1960.
Nessa mesma época, também se formou a banda de rock psicodélico e progressivo, Som Imaginário, da qual o seu amigo de infância Wagner Tiso fazia parte. A banda foi inicialmente feita para acompanhar Milton em seus shows ao vivo, mas não demorou para que construísse uma carreira à parte, mas sempre participando dos discos de Milton e vice-versa. A presença do Som Imaginário na carreira de Milton não apenas incorpora as características do rock progressivo e psicodélico na sua música, mas também para a experiência das apresentações ao vivo do cantor.

A música de Milton alcançou artistas de todo o mundo, atravessando gêneros e culturas. Sua voz, frequentemente comparada a um instrumento celestial, inspirou nomes como Björk, que declarou sua admiração por Milton em diversas entrevistas. A cantora Lianne La Havas e a baixista Esperanza Spalding também são exemplos de artistas internacionais que se renderam ao talento de Milton. Em 2024, Milton colaborou com Esperanza em um projeto emocionante, reafirmando sua relevância e capacidade de dialogar com novas gerações.
Clube da Esquina, o disco e o movimento que redefiniram nossa música
Um dos principais temas trabalhados em todo o movimento do Clube da Esquina e na obra de Milton como um todo, é a sua forte relação com a amizade, fator este também crucial para a concepção do disco de 1972. Desde suas parcerias com o pianista e compositor Wagner Tiso em Três Pontas à relação de quase irmãos que possuía com a família Borges (especialmente Lô e Márcio), é em cima da amizade entre todas as pessoas envolvidas em que o disco e o movimento se constroem.
Resultado das influências citadas anteriormente, da união de diversos músicos e da mudança dos irmãos Borges e Fernando Brant para morar com Milton no Rio de Janeiro, o disco Clube da Esquina foi gravado entre os anos de 1971 e 1972 na EMI-Odeon e lançado março de 1972. Incomum ao Brasil da época, Clube da Esquina foi o segundo disco duplo brasileiro lançado na história (o primeiro havia sido o LP duplo gravado ao vivo Fa – Tal – Gal a Todo Vapor, da cantora Gal Costa, lançado em 1971). Com 63 minutos e 13 segundos de duração, 19 das 21 canções presentes no disco eram originais e compostas pelos jovens compositores mineiros ainda desconhecidos.
O nome Clube da Esquina refere-se ao ponto de encontro dos jovens em Belo Horizonte, na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Teresa. Devido às limitações técnicas da época, o disco foi gravado por apenas dois canais, aproximando sua sonoridade ao de gravações ao vivo. O disco foi muito bem recebido pelo público e sua originalidade musical garantiu-o lugar de destaque na produção cultural do Brasil.
Enquanto Wagner Tiso era muito ligado à música clássica pelo histórico de sua mãe, por exemplo, os jovens Lô Borges e Beto Guedes eram aficionados pelos Beatles e pela música popular que era feita na época. Os músicos revezavam os instrumentos, garantido essa pluralidade também por meio das improvisações, dos arranjos inventivos, do intercâmbio entre os gêneros e da narrativa cinematográfica e riqueza poética que as letras carregam.
A icônica capa é assinada pelo fotógrafo Cafi, e muito se especulava que os dois meninos sentados na beira da estrada eram os próprios autores do álbum, Milton e Lô, quando depois revelou-se que as crianças eram, na verdade, Tonho e Cacau, dois garotos da zona rural do Rio de Janeiro. Uma das descrições mais comuns em relação à foto da capa a coloca como “a cara do Brasil”, ainda mais quando colocado diante do cenário do regime militar da época. As cores, a posição dos garotos, o monte de terra em que estão sentados, a vegetação ao fundo e o arame farpado em primeiro plano são os símbolos que metaforizam a foto da capa com o contexto sociopolítico do Brasil dos anos 1970.

As letras do disco, além da riqueza poética que apresentam, ainda são referidas como exemplo claro do discurso que precisava passar despercebidas pela censura da época. Como resultado, podemos observar detalhes e metáforas precisas sobre o contexto da época, o Brasil e a posição da música como instrumento de resistência. Entre todas as estradas e aventuras mencionadas nas letras, muito se revela sobre temas universais de esperança, amor, amizade e sonhos.
A música “Tudo O Que Você Podia Ser”, faixa que abre o disco, estabelece desde seu primeiro verso, uma relação dicotômica entre “sol e chuva”. O segundo verso indica um lapso de esperança vindo daquele que “queria ser o grande herói das estradas”. Posteriormente, a relação dicotômica entre “sol” e “chuva” mais uma vez é mencionada, seguida dos versos “mas não importa, não faz mal. Você ainda pensa e é melhor do que nada”, servindo como uma crítica direta à conformidade. Ademais, a relação entre “sol” e “chuva” pode ser lida como a relação contraposta entre utopia e distopia a qual muitas vezes serve para caracterizar nosso país.
Tal dicotomia é um tema recorrente ao longo da experiência, como na faixa mais “pesada” do disco, “Trem de Doido”. De todas, é a que mais explicitamente foi influenciada pelo rock n’ roll. Sua letra estabelece mais uma relação de contraparte, entre o “hotel muito além do céu”, onde não se tem “nada a temer, nada a conquistar” e das calçadas com seus “ratos mortos”. O sentimento de perigo da música é manipulado para que o ouvinte faça a associação com o próprio país, quando Lô canta “na praça”, “do mercado” e “sua casa”.
As vinhetas “Saídas e Bandeiras” apresentam referências diretas ao contexto da época, referido como “coisa que não dá mais pé” e “maré” a ser enfrentada e vencida. Além disso, trechos como “subir novas montanhas, diamantes procurar” estabelecem uma relação com a paisagem de Minas Gerais, reforçando os traços regionalistas do disco. Além disso, o verso também configura uma áurea aventuresca para a obra e as referências à estrada, à poeira, ao “rio com seus frutos” e ao “homem mais sólido que a maré” trazem cenários de medo e esperança para as transições entre faixas.
A faixa “San Vicente” cria um lugar fictício de mesmo nome para construir a sua letra, de modo que a música conseguisse passar despercebida pelos olhos da censura. A cidade fictícia estabelece um paralelo com o Brasil e toda a América Latina logo pelo seu primeiro verso e ao longo da letra, diversas menções à ditadura são feitas, sendo referida como “sonho estranho” e “um sabor de vidro e corte”. Além disso, mais uma vez a relação dicotômica pode ser observada, pelas palavras vida e morte e pelo contraste entre o símbolo do vidro e do chocolate.
“Paisagem da Janela” foi composta de modo muito sincero, a partir da vista que Lô contemplava no tempo em que o grupo morou em Divinópolis, em Minas Gerais. Na série documental Milton e o Clube da Esquina, lançada pelo Canal Brasil, o letrista Márcio Borges reafirma que as “cores mórbidas”, os “homens sórdidos” e o “temporal” são menções diretas ao contexto sociopolítico da época.
A penúltima faixa do disco, “Nada Será Como Antes” é uma clara mensagem aos amigos dos autores que se encontravam exilados pela ditadura militar, como pode ser observado por trechos como “qualquer dia a gente se vê” e “que notícia me dão dos amigos”. Ademais, fortes mensagens de esperança são transmitidas pela letra da música, metaforizada pela estrada e explicitada por trechos como “sei que nada será como antes” e “resistindo na boca da noite um gosto de sol”, o que também configuram o caráter antiautoritário e resistente do Clube da Esquina.
Ao observar o contexto no qual o disco fora produzido, os integrantes que participaram do processo de gravação e produção, e algumas das letras presentes na obra, podemos concluir que diversos elementos contribuem para a posição de destaque que o Clube da Esquina ocupa na história da produção cultural e artística brasileira. A começar, pelos aspectos técnicos, destaca-se à pluralidade musical envolvida, muito em função das diversas influências dos membros.
Além disso, destaca-se a utilização de metáforas para a construção do argumento do movimento. Diversas menções à estrada são feitas, fazendo com que a “estrada” represente, ao mesmo tempo, aquilo que nos une e a esperança de um amanhã melhor. A esperanças também é sempre muito colocada em oposição ao medo, relação contrastante reforçada pelas presenças do “sol” e “chuva” e “urbano” e “rural”. As relações de contraposições continuam a se apresentar na dicotomia existente entre a viola e a guitarra, entre o tradicional e o moderno e entre a carga pop e erudita que o disco carrega.
Por fim, o disco se posiciona de forma resistente pela maneira como assume construir a identidade cultural brasileira e mineira. Porém, suas palavras não se limitam ao país. O sucesso internacional do disco e de toda a obra de Milton reafirmam a universalidade dos temas e da sonoridade trabalhados pelo Clube da Esquina. No final, o disco refere-se à Minas Gerais, ao Brasil, à América Latina e ao mundo.
Três músicas de Milton para a sala de aula
Voltando ao autor, deixo aqui uma recomendação para os educadores (ou pais que desejam apresentar a obra de Milton para os filhos). Segue três canções de Milton para passar em sala de aula, pensando na idade e na fase da vida escolar.
Ensino Infantil – Canção da América
Uma música perfeita para crianças pequenas, com sua melodia suave e letra que exalta a amizade. É uma oportunidade para ensinar valores humanos universais e estimular a convivência harmoniosa. Os versos iniciais “Amigo é coisa pra se guardar / Debaixo de sete chaves” continuarão eternizados no coração de todo brasileiro.
Ensino Fundamental – Para Lennon e McCartney
A canção, que homenageia os Beatles, permite discussões sobre influências culturais e artísticas, além de estimular reflexões sobre criatividade. Da abertura “Por que vocês não sabem / Do lixo ocidental?” às referências a Minas Gerais, Milton canta pela América do Sul enquanto faz alusão a valorização da cultura latina.
Ensino Médio – Clube da Esquina nº 2
A “continuação” da música Clube da Esquina originalmente não possui as suas letras na versão original do disco. A letra foi posteriormente escrita por Márcio Borges e após o período de redemocratização nos anos 1980 foi incorporada nas apresentações ao vivo e outras versões de estúdio. A letra possui uma relação muito próxima com o contexto vivido na época, como pode ser observado pelos trechos que mencionam os “gases lacrimogênios” ou pela palavra passo, que se transforma, por meio do fonema em “aço”, também fazendo uma alusão aos avanços tecnológicos da vida moderna.
O legado de Milton e a Educação
Milton Nascimento não foi apenas um músico; ele foi um contador de histórias, um defensor da justiça e um embaixador da alma brasileira. Sua obra, marcada pela coragem de inovar e pela fidelidade às suas raízes, continua a inspirar gerações.
Na Educação, Milton é um exemplo de como a música pode ser uma poderosa ferramenta de transformação. Suas canções nos ensinam sobre amizade, resistência e a beleza da diversidade. Sua voz, que tantas vezes cantou sobre esperança e liberdade, segue reverberando em corações ao redor do mundo.
Bituca nos deixou um legado que transcendeu a música: ele nos deixou um exemplo de humanidade. Sua obra deve ser celebrada sempre, e suas canções, passadas de geração em geração.







