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Para além dos doramas e do k-pop: o que podemos aprender com a Coreia do Sul 

Por Maiara Lima

Estimativa de leitura: 5min 37seg

20 de novembro de 2023

Entenda como os investimentos em cultura e educação transformaram o país.

Este ano, a Academia Brasileira de Letras (ABL) incluiu a palavra “dorama” no dicionário da língua brasileira. O termo, que se refere às séries produzidas na Ásia, foi impulsionado pelos k-dramas (os dramas coreanos) que junto ao k-pop (o pop coreano) se transformaram em uma febre mundial.

Mas esse fenômeno não aconteceu por acaso, esse movimento faz parte da “Hallyu” ou onda coreana, que começou lá nos anos 90 e foi responsável por começar a disseminar as produções culturais do país, a fim de levar para fora o nome e o prestígio da Coreia do Sul e com isso atrair resultados econômicos.

Bong Joon-ho comemora o Oscar de melhor diretor, melhor filme e melhor filme estrangeiro com Parasita. | Foto: Danny Moloshok / Reuters

E os exemplos de sucesso que esse incentivo à cultura alcançou não são poucos! Em 2020, o grupo de k-pop BTS se tornou o “primeiro artista coreano” a alcançar o 1º lugar na Billboard, o topo da parada de músicas dos Estados Unidos. No mesmo ano, “Parasita” de Bong Joon-ho, fez história ao se tornar o primeiro filme em língua não inglesa a ganhar o Oscar de melhor filme e, em 2021, a série sul-coreana Round 6 (Squid Game), conquistou o título de mais assistida da história da Netflix.

Na trama, conhecemos Woo Young-woo, uma jovem autista brilhante contratada por um grande escritório de advocacia. | Reprodução: Netflix

A plataforma de streaming, inclusive, se baseou nesse resultado e de outros k-dramas com “Uma Advogada Extraordinária”, “Vicenzo”, “Pousando no amor”, “Tudo bem não ser normal”, entre outras e anunciou que vai investir 2,5 bilhões de dólares em entretenimento sul-coreano nos próximos quatro anos. A aposta foi noticiada depois que o presidente sul-coreano Yoon Suk Yeol conheceu o co-presidente da Netflix, Ted Sarandos, como parte de sua visita diplomática aos Estados Unidos.

Esse crescente interesse pela cultura pop da Coreia do Sul também teve um impacto direto na relevância do idioma e segundo o Duolingo Language Report de 2022 – um relatório anual sobre o aprendizado de idiomas no mundo – o coreano está no Top 10 de línguas mais estudadas, sendo listado em 7º lugar. Toda essa movimentação em torno da cultura sul-coreana também acaba se traduzindo em exportações como de roupas, cosméticos, eletrônicos e no aquecimento do turismo.

Estudante da língua coreana escrevendo “Olá” em caracteres coreanos. | Reprodução: Shutterstock

Ainda assim, essa não foi a única aposta do país em busca de ascensão global. Na década de 60, a Coreia do Sul tinha tudo para dar errado: devastada pela Guerra da Coreia, o país tinha inúmeros obstáculos para enfrentar e foi o investimento maciço em educação que deu uma guinada em sua trajetória, evidenciando a relação entre crescimento econômico e desenvolvimento humano.

Hoje, a Coreia do Sul faz parte dos Tigres Asiáticos – conjunto de territórios reconhecidos pelo seu rápido crescimento econômico – mostrando que conseguiu consolidar a sua economia aliando melhorias sociais, como o aumento da escolaridade e da renda.

Segundo o MOE – Ministry of Education (Ministério da Educação da Coreia do Sul), o governo coreano tem aumentado gradualmente os seus gastos com educação nos últimos 40 anos e, em 2020, o governo gastou 75,7 bilhões de won ou quatro vezes os 19,2 bilhões de won gastos em 2000. Durante estes 20 anos, a Coreia destinou anualmente 15-20% do seu orçamento total para a educação, o mais elevado entre os países da OCDE em relação ao seu PIB.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), foi justamente o rigor na formação e investimento em educação que deram a Coreia do Sul o título de potência global.

Por isso, apesar de existirem diversos fatores que podem influenciar o desenvolvimento de um país, existe um consenso entre especialistas de que como a Coreia do Sul definiu a educação como prioridade e traduziu essa mentalidade em tudo que era realizado no país, foi essencial para criar o cenário que vemos hoje.

Na Coreia do Sul, todas as escolas, públicas e privadas, são de tempo integral e por lá, os professores são vistos como essenciais para esse projeto nacional, e por serem valorizados socialmente, são igualmente valorizados financeiramente, sendo enaltecidos e vistos como figuras que ajudam no desenvolvimento do país.

Starfield Library – biblioteca pública em Seul. | Reprodução: Shutterstock

Segundo o Índice para uma Vida Melhor da OCDE, o país tem um desempenho acima da média nos quesitos: educação, saúde e engajamento cívico. Dentre a população sul-coreana, 88% dos adultos com idades entre 25 e 64 anos concluíram o ensino médio e os estudantes se destacam em leitura, matemática e ciências, com resultados acima da média da OCDE no PISA – Programa Internacional de Avaliação de Estudantes.

Neste TEDxTalks, Soleiman Dias, PhD em Relações Internacionais e Diretor de Admissões da Chadwick International em Songdo, na Coreia do Sul, comenta os percursos da educação na Coreia do Sul e lista alguns fatores que fizeram a educação sul-coreana dar certo, como, por exemplo:

>> Bom planejamento educacional
>> Atenção à educação de base, bem como ao Ensino Superior e à Pesquisa Científica
>> Suporte necessário para a remuneração dos educadores e melhoria do ensino
>> Forte participação familiar no processo educativo
>>Escolas de qualidade com estrutura e pessoal qualificado

Mas como nem tudo são flores, é preciso pontuar que essa febre educacional também trouxe diferentes desafios que a Coreia do Sul precisa enfrentar hoje, entre eles a cobrança excessiva em seus estudantes que, além da jornada de estudos formal das 8h às 16h30, continuam estudando nas bibliotecas ou em cursos particulares até tarde da noite, alimentados pela competição acirrada e pelas expectativas das famílias e do país que recaem sobre eles.

Contudo, como esse é um tema para outro artigo, fica aqui o exemplo da Coreia do Sul, para podermos, sem ser levianos, nos inspirar em resultados positivos e – tendo plena consciência das diferenças culturais, históricas, econômicas e políticas entre o Brasil e a Coreia – incorporar dentro da nossa realidade uma mentalidade que valoriza e enaltece a educação, assim como a cultura local, acreditando que, de fato, basta uma geração para promovermos uma mudança real na sociedade.

Maiara Lima
Há mais de 10 anos, atua como jornalista, produtora de conteúdo e entusiasta da Educação. Ama cultura pop e falar pelos cotovelos.
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