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Diversidade nos quadrinhos: por uma educação antirracista 

Por Angela Rama

Estimativa de leitura: 7min 16seg

27 de novembro de 2023

No Brasil, por um longo tempo, negros e negras foram excluídos como autores e personagens de quadrinhos. Esse cenário vem mudando e, hoje, educadores e famílias podem ter em mãos diversas publicações que contribuem para uma educação antirracista. 

“Numa sociedade racista, não basta não ser racista, é preciso ser antirracista”. Essa frase, da ativista e intelectual norte-americana Angela Davis, nos chama à ação para o combate ao racismo. 

Embora esse combate deva ocorrer em todos os meses do ano – e não apenas em novembro – aproveito a efeméride do mês da Consciência Negra para trazer histórias em quadrinhos voltadas a crianças e pré-adolescentes que podem contribuir para uma educação antirracista e o letramento racial

Inicialmente, proponho um exercício rápido sobre a turma mais famosa das histórias em quadrinhos infanto-juvenis no Brasil: qual personagem negro na Turma da Mônica vem à sua mente? Provavelmente você lembrou do Pelezinho, Ronaldinho Gaúcho — além de algum outro jogador famoso homenageado —e, talvez, do Jeremias. Ou pode ser que você conheça a Milena, recentemente criada pela Maurício de Souza Produções. Nenhum desses personagens, porém, faz parte do “elenco principal” dos moradores do Bairro do Limoeiro, ou seja, personagens negros são sempre secundários. 

A pequena participação, sub-representação e até ausência de personagens negros e negras, ao longo do tempo no Brasil, não é exclusividade da Turma da Mônica, nem do mercado editorial dos quadrinhos. Muitos outros gêneros literários e produções midiáticas representaram negros e negras de forma depreciativa e estereotipada. Como não lembrar das telenovelas, nas quais, até bem pouco tempo, cabia aos negros e negras apenas o lugar dos serviçais, com poucas exceções. Lembremos ainda da execrável prática do blackface (literalmente, rosto negro), na qual um ator branco era maquiado para representar um personagem negro, em contextos de ridicularização de pessoas negras. 

Embora estejamos muito distantes de uma sociedade justa na perspectiva da diversidade étnico-racial e do antirracismo, ao observarmos hoje a presença de personagens negros e negras em diferentes produções, constatamos avanços no sentido de uma valorização da diversidade étnico-racial.

No Brasil, o avanço na representatividade negra não se deu de forma natural, como se a sociedade caminhasse inevitavelmente rumo a uma democracia racial, mas sim, com a luta árdua de muitas pessoas e grupos que constituíram o Movimento Negro brasileiro

Voltando aos quadrinhos, há alguns anos vemos um grande aumento da produção de histórias com personagens principais e autores negros e negras. Muitas dessas produções estão na chamada “cena alternativa” e, graças em grande medida, à expansão do acesso à internet e às redes sociais, ganharam visibilidade. 

Entre tantos nomes e títulos – alternativos e do maisntream, e para diferentes grupos – nesse texto destaco algumas produções quadrinhísticas voltadas ao público infanto-juvenil, ainda que arrisque ser injusta com outros autores. 

Então, com vocês, nossos ilustres personagens Rê Tinta, Tayó e… Jeremias! 

Começamos pela alegre, graciosa e empoderada garota negra Rê Tinta. Seu criador, Estevão Ribeiro, traz em suas tirinhas discussões e reflexões sobre a temática étnico-racial, em especial a questão do racismo.  

Você ainda usa ou escuta a expressão “lápis cor da pele”? Mas, afinal, de que pele estamos falando? Podemos trazer a questão para nossas crianças e jovens a partir da tirinha ao lado. 

Outra incrível personagem negra, feminina e empoderada é Tayó, da autora Kiusam de Oliveira e ilustrações de Amora Moreira. A garota se apresenta na introdução do livro Tayó em quadrinhos

Em “Tayó em quadrinhos”, muitas questões étnico-raciais são levantadas, inclusive aquelas que se relacionam com a interseccionalidade, que é o cruzamento entre condições de opressão que certos grupos vivenciam. Esse conceito começou a ser usado para explicar as condições de mulheres negras que, além da condição de opressão por serem negras, têm a opressão por serem mulheres. E, hoje, o conceito engloba diversidade de gênero, de orientação sexual, de deficiência, entre outras. Olha só como a história traz isso: 

Nossa última indicação tem no título o personagem principal: Jeremias. O garoto negro foi uma das primeiras criações de Maurício de Souza e, ao longo do tempo, pouco participou do universo da Turma da Mônica. Ele voltou, no entanto, em grande estilo, pelas mãos de dois autores negros – Rafael Calça e Jefferson Costa, – que produziram três volumes: Jeremias: Pele, Jeremias: Alma e Jeremias: Estrela.  

A realização da leitura de cada volume seria ideal. Porém, se não for possível, sugiro alguns trechos, tomando-se os cuidados de, previamente, conhecer a história e os personagens, fazendo a devida contextualização junto ao grupo com o qual se vai trabalhar. O trecho abaixo, das páginas 38 e 39 do livro “Pele”, nos permite problematizar o racismo e questões de gênero, provocando reflexões sobre os estereótipos. 

Em Jeremias: Estrela, lançado em setembro deste ano, a história se inicia com o reconhecimento do Jeremias como escritor e vencedor de um prêmio infantil de literatura. Mas ele quer ir além e ajudar outras pessoas para contar e recontar histórias. 

No trecho abaixo, vejam os “velhos” moradores do Bairro do Limoeiro na fila para prestigiar Jeremias. Observe que o personagem faz menção aos griôs que eram, na África antiga, como guardiães e mensageiros de tradições e vivências dos povos. 

O trabalho com Rê Tinta, Tayó e Jeremias pode ser uma pequena contribuição para que famílias e educadores se inspirem na promoção de ações educativas que visem uma educação antirracista para crianças e jovens. 

Em tempo: nesse mês de novembro, com a professora Denise Pinesso, conversamos com Silvane Silva, uma das autoras do “Currículo da cidade: educação antirracista: orientações pedagógicas: povos afro-brasileiros”, do município de São Paulo. Ela nos falou sobre a luta antirracista, em especial na escola, reforçando que ser antirracista não é apenas inserir “tarjinhas” nos perfis das redes sociais. É preciso muito mais: agir no seu cotidiano, na sua vida, de maneira antirracista. Assista:

Como você, na sua escola, na sua família, com seus amigos e, inclusive, com desconhecidos, pode agir de maneira antirracista?  

Que tal levar para a sala de aula e para a leitura em família a turma da Rê Tinta, o Jeremias, a Tayó e tantos outros novos e antigos personagens negros e negras? 

Referências das leituras indicadas e outras mais 

>> BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria Especial de Políticas da Promoção da Igualdade Social. Diretrizes curriculares nacionais para a educação das relações étnico-raciais e para o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. Brasília: Ministério da Educação, 2004. Disponível em aqui.
>> CHINEN, Nobu. O negro nos quadrinhos do Brasil. São Paulo: Peirópolis, 2019. 
>> CALÇA, Rafael; COSTA, Jefferson. Jeremias: Pele. Barueri – SP: Panini Comics, 2018. 
>> CALÇA, Rafael; COSTA, Jefferson. Jeremias: Alma. Barueri – SP: Panini Comics, 2020. 
>> CALÇA, Rafael; COSTA, Jefferson. Jeremias: Estrela. Barueri – SP: Panini Comics, 2023. 
>> CARINE, Bárbara. Como ser um educador antirracista. São Paulo: Planeta do Brasil, 2023. | A autora fundou em Salvador (BA) a primeira escola afro-brasileira do Brasil, a Escola Maria Felipa. No livro ela compartilha reflexões e ações para uma educação antirracista. 
>> CARREIRA, Denise; SOUZA, Ana Lúcia Silva. Indicadores da qualidade na educação: relações raciais na escola. São Paulo: Ação Educativa, 2013. Disponível em aqui.
>> OLIVEIRA, Kiusam. Tayó em quadrinhos. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2021. 


Em homenagem à Flávia Natércia, que nos deixou em agosto de 2023, aos 50 anos. Aprovada aos 15 anos para o curso de Biologia da Unicamp, Flávia foi pesquisadora incansável, especializada em jornalismo científico. É coautora de “Racista, eu? Afrobrasilidades e a luta antirracista” (Editora do Brasil).  

Angela Rama
Sou autora de livros didáticos de Ciências Humanas e Geografia. Fui professora por mais de 20 anos e estou sempre em busca de uma educação e vida melhor para todos.
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