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alfabetização na EJA
Conteúdo formativo Educador

Alfabetização na EJA: como adaptar o planejamento às vivências dos estudantes 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 8min 20seg

11 de junho de 2026

Entenda como adaptar o planejamento pedagógico para tornar a aprendizagem na EJA mais significativa. 

A Educação de Jovens e Adultos (EJA) constitui uma modalidade educacional voltada à garantia do direito à escolarização de pessoas que não tiveram acesso ou continuidade nos estudos na idade considerada regular, muitas vezes em decorrência de desigualdades sociais, entrada precoce no mercado de trabalho, vulnerabilidades econômicas e trajetórias escolares interrompidas. Como defendem estudiosos como Gadotti (2003) e Haddad (2019), a EJA ocupa um papel fundamental na construção de uma Educação mais inclusiva e democrática. 

No Brasil, o desafio não está apenas em ampliar matrículas. É preciso garantir permanência, pertencimento e aprendizagem significativa. Nesse contexto, a alfabetização na EJA exige uma abordagem diferente daquela aplicada à alfabetização infantil. O planejamento pedagógico precisa dialogar com histórias de vida, repertórios culturais e necessidades concretas dos estudantes. 

Afinal, quem chega à sala de aula da EJA carrega experiências acumuladas ao longo de anos — e essas vivências precisam fazer parte do processo educativo. 

O que é EJA? 

Antes de discutir metodologias, é importante responder a uma pergunta frequente: O que é EJA? 

A Educação de Jovens e Adultos é uma modalidade da Educação Básica prevista na Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB – Lei nº 9.394/1996). Ela atende estudantes que não concluíram o Ensino Fundamental ou o Ensino Médio na idade prevista. 

O público da EJA é bastante diverso. Em uma mesma turma podem estar: 

  • trabalhadores que interromperam os estudos na infância; 
  • pessoas idosas em busca de realização pessoal; 
  • jovens em distorção idade-série; 
  • mães que precisaram abandonar a escola; 
  • pessoas em processo de reinserção social; 
  • estudantes que enfrentaram dificuldades de aprendizagem em experiências escolares anteriores. 

Essa pluralidade exige um olhar pedagógico cuidadoso. 

Alfabetizar na EJA não significa apenas ensinar o sistema de escrita. Significa criar oportunidades para que os estudantes ampliem autonomia, participação social e possibilidades profissionais. 

alfabetização na EJA

­

A alfabetização na EJA é diferente da alfabetização infantil 

Um erro comum é reproduzir, na EJA, práticas pensadas para crianças pequenas. 

Embora existam objetivos semelhantes — como desenvolver leitura e escrita — os caminhos pedagógicos precisam ser diferentes. 

Paulo Freire, referência fundamental na Educação brasileira, defendia que a alfabetização de jovens e adultos deveria partir da realidade concreta dos estudantes. A leitura da palavra precisa caminhar junto com a leitura do mundo. 

Isso significa considerar: 

  • experiências de trabalho; 
  • repertório cultural; 
  • conhecimentos construídos fora da escola; 
  • demandas cotidianas; 
  • interesses pessoais; 
  • projetos de vida. 

Um estudante que trabalha em construção civil, por exemplo, já lida diariamente com medidas, números, planejamento e interpretação de informações. Uma trabalhadora do comércio desenvolve competências de comunicação e cálculo. Essas experiências podem e devem ser incorporadas às propostas pedagógicas. 

Quando a escola ignora essas vivências, o ensino tende a parecer distante e artificial. 

Por que adaptar o planejamento pedagógico na EJA? 

Planejar na EJA exige compreender que os estudantes têm características específicas. 

Muitos conciliam estudo, trabalho e responsabilidades familiares. Outros chegam cansados após longas jornadas profissionais. Há ainda aqueles que carregam experiências anteriores de fracasso escolar e insegurança em relação à própria aprendizagem. 

Um planejamento rígido e descontextualizado pode ampliar a evasão. 

Por outro lado, quando o professor reconhece as trajetórias dos estudantes, aumenta a possibilidade de engajamento. 

Um bom plano de aula para EJA precisa considerar: 

1. Contexto social dos estudantes 

Conhecer quem são os estudantes é etapa essencial. 

Algumas perguntas podem orientar o planejamento: 

  • Quais são suas profissões? 
  • O que gostam de fazer? 
  • Quais desafios enfrentam no cotidiano? 
  • Como utilizam leitura e escrita fora da escola? 
  • Quais objetivos têm ao retornar aos estudos? 

Essas respostas ajudam a construir atividades mais conectadas à realidade. 

2. Flexibilidade pedagógica 

Turmas de EJA costumam apresentar diferentes níveis de aprendizagem. 

Em uma mesma sala, podem coexistir: 

  • estudantes em processo inicial de alfabetização; 
  • pessoas com domínio parcial da leitura; 
  • estudantes que escrevem com autonomia, mas apresentam dificuldades de interpretação. 

Por isso, estratégias diversificadas tornam-se fundamentais. 

3. Aprendizagem significativa 

A aprendizagem ganha sentido quando dialoga com situações reais. 

Textos sobre direitos trabalhistas, saúde pública, mobilidade urbana, Educação financeira, cultura local ou tecnologia podem aproximar o conteúdo da experiência cotidiana. 

Projeto EJA: construindo aprendizagem conectada à realidade 

O Projeto EJA pode funcionar como uma estratégia poderosa para tornar o ensino mais significativo. 

Projetos interdisciplinares favorecem protagonismo, colaboração e aplicação prática dos conhecimentos. 

Algumas possibilidades incluem: 

Projeto de Educação financeira 

Objetivos: 

  • desenvolver leitura de tabelas; 
  • interpretar contas e boletos; 
  • trabalhar operações matemáticas; 
  • estimular planejamento financeiro. 

Atividades possíveis: 

  • comparação de preços; 
  • elaboração de orçamento familiar; 
  • interpretação de faturas; 
  • construção de metas financeiras. 

Projeto memória e trajetória de vida 

Objetivos: 

  • fortalecer identidade; 
  • desenvolver escrita autobiográfica; 
  • estimular oralidade. 

Atividades: 

  • entrevistas entre colegas; 
  • produção de relatos de memória; 
  • criação de linha do tempo pessoal; 
  • construção de mural coletivo. 

Projeto leitura do território 

Objetivos: 

  • ampliar letramento social; 
  • desenvolver interpretação crítica. 

Atividades: 

  • leitura de placas e sinalizações; 
  • análise de notícias locais; 
  • mapeamento do bairro; 
  • produção de textos sobre problemas da comunidade. 

Essas estratégias ajudam a fortalecer pertencimento e engajamento. 

Atividades da EJA: como tornar o ensino mais significativo 

Escolher boas atividades da EJA significa pensar menos em repetição mecânica e mais em contextualização. 

Algumas possibilidades incluem: 

Produção de textos funcionais 

Os estudantes podem produzir: 

  • currículo profissional; 
  • carta de solicitação; 
  • lista de compras; 
  • formulário de cadastro; 
  • mensagem formal; 
  • e-mail profissional. 

São atividades diretamente ligadas à vida prática. 

Rodas de conversa 

Temas como trabalho, direitos sociais, tecnologia, saúde e cidadania favorecem oralidade e pensamento crítico. 

A conversa pode servir como ponto de partida para a leitura e a escrita. 

Leitura de gêneros reais 

Algumas possibilidades: 

  • notícias; 
  • receitas; 
  • anúncios; 
  • cartazes; 
  • contas (consumo); 
  • mensagens digitais; 
  • contratos simples. 

O objetivo é mostrar que a leitura está presente no cotidiano. 

Jogos pedagógicos 

Jogos ajudam a reduzir inseguranças e a tornar o ambiente mais acolhedor. 

Podem incluir: 

  • dominó de sílabas; 
  • caça-palavras contextualizados; 
  • jogos matemáticos; 
  • desafios de interpretação. 

Produção coletiva de textos 

Construir textos em grupo favorece participação e fortalece confiança. 

O professor pode atuar como mediador do processo. 

Plano de aula para EJA: como estruturar? 

Um bom plano de aula para EJA costuma partir de três pilares: 

1. Diagnóstico inicial 

Antes de ensinar, é importante identificar: 

  • conhecimentos prévios; 
  • repertório sociocultural; 
  • dificuldades específicas; 
  • interesses. 

Avaliações diagnósticas podem ocorrer por meio de conversas, leitura compartilhada e atividades simples. 

2. Objetivos claros 

Os objetivos precisam ser concretos. 

Exemplo: Em vez de: “Melhorar leitura.” 

Prefira: “Desenvolver capacidade de interpretar informações presentes em notícias jornalísticas.” 

3. Metodologias ativas 

Estratégias participativas costumam funcionar bem na EJA. 

Exemplos: 

  • educação baseada em projetos; 
  • estudo de casos; 
  • rodas de conversa; 
  • resolução de problemas reais; 
  • produção colaborativa. 

Como lidar com a insegurança dos estudantes na alfabetização? 

Muitos estudantes chegam à EJA acreditando que “não conseguem aprender”. 

Essa percepção costuma estar ligada a experiências anteriores de fracasso escolar. 

O acolhimento torna-se parte central do planejamento. 

Algumas estratégias ajudam a: 

  • valorizar pequenos avanços; 
  • evitar exposição constrangedora; 
  • oferecer devolutivas positivas; 
  • criar ambiente seguro para erros; 
  • reconhecer conhecimentos já construídos. 

A aprendizagem floresce quando existe confiança. 

Tecnologia também pode apoiar a alfabetização na EJA 

Os recursos digitais podem ampliar possibilidades pedagógicas. 

Aplicativos de leitura, vídeos, podcasts, ferramentas colaborativas e plataformas educacionais ajudam a tornar o ensino mais dinâmico. 

Mas existe um cuidado importante: tecnologia não substitui mediação pedagógica. 

Ela funciona melhor quando está a serviço da aprendizagem — e não o contrário. 

Alfabetizar na EJA é reconhecer histórias, não apenas conteúdos 

Pensar a alfabetização de jovens e adultos exige ultrapassar uma visão limitada da Educação. 

Quem retorna à escola carrega trajetórias, desafios, responsabilidades e sonhos. 

Adaptar o planejamento não significa reduzir exigências pedagógicas. Significa construir caminhos mais humanos e significativos. 

Ao considerar vivências, interesses e experiências concretas dos estudantes, a escola fortalece pertencimento, reduz evasão e amplia oportunidades de aprendizagem. 

Porque, na EJA, alfabetizar é também reconhecer dignidade, reconstruir trajetórias e ampliar horizontes. 

Referências: 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996. 

GADOTTI, Moacir. Educação de jovens e adultos: teoria, prática e proposta. São Paulo: Cortez/Instituto Paulo Freire, 2003. 

HADDAD, Sérgio. Direito à educação e EJA no Brasil. São Paulo: Ação Educativa, 2019. 

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