Folclore brasileiro: por que ele vai muito além das lendas e dos personagens
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Folclore brasileiro: por que ele vai muito além das lendas e dos personagens 

Por Loreny Mendes

Estimativa de leitura: 8min 22seg

17 de agosto de 2026

Quando pensamos em folclore brasileiro, é comum que personagens como Saci, Iara, Curupira, Boitatá e Cuca sejam os primeiros a surgir na memória. Presentes em livros, ilustrações e atividades escolares, eles se tornaram símbolos de uma tradição que atravessa gerações. No entanto, limitar o folclore às lendas significa deixar de lado uma das expressões mais ricas da cultura brasileira. 

Isso acontece porque o folclore é formado por histórias, músicas, festas, brincadeiras, receitas, crenças, expressões populares e saberes que circulam entre as pessoas e continuam sendo transmitidos ao longo do tempo. Mais do que preservar costumes do passado, essas manifestações revelam como diferentes comunidades constroem sua memória, fortalecem vínculos e compartilham formas de compreender o mundo. 

Nesse sentido, conhecer o folclore é também conhecer os processos que moldaram a identidade brasileira. Cada tradição preservada, adaptada ou recriada ajuda a contar a história de um país formado pelo encontro entre diferentes povos, experiências e modos de vida. 

O que é folclore brasileiro? 

O folclore brasileiro é o conjunto de manifestações culturais transmitidas coletivamente entre gerações. Ele reúne narrativas, celebrações, músicas, brincadeiras, culinária, expressões populares e conhecimentos construídos pela experiência cotidiana das comunidades. 

Ao contrário de uma obra criada por um único autor, o folclore nasce da convivência entre pessoas, atravessa o tempo por meio da oralidade e da prática social e permanece vivo porque continua sendo apropriado, reinterpretado e compartilhado por diferentes grupos. É justamente essa característica que faz dele um patrimônio cultural vivo, capaz de acompanhar as transformações da sociedade sem perder sua conexão com a memória coletiva. 

Essa compreensão aproxima o folclore da própria noção de cultura. Nas Ciências Sociais, cultura não corresponde apenas às produções artísticas ou aos conhecimentos registrados em livros. Ela também está presente nas maneiras de viver, celebrar, ensinar, cozinhar, brincar, falar e atribuir significado ao mundo. 

É justamente por fazer parte da vida cotidiana que o folclore acompanha a própria formação da sociedade brasileira. Ao analisar a construção do povo brasileiro, Darcy Ribeiro demonstra que nossa identidade cultural nasceu do encontro entre povos indígenas, africanos e europeus, em um processo permanente de criação. O folclore acompanha essa dinâmica: ele reúne influências diversas e revela como essas experiências foram sendo incorporadas ao cotidiano, produzindo manifestações culturais que continuam em transformação. 

O folclore preserva formas de conhecer o mundo 

Se o folclore é uma expressão da cultura, ele também funciona como uma forma de preservar conhecimentos construídos coletivamente ao longo do tempo. Antes da escrita tornar-se o principal meio de registrar experiências, diferentes sociedades transmitiam seus saberes por meio da oralidade. Histórias, cantigas, provérbios e narrativas populares ensinavam como interpretar a natureza, organizar a vida coletiva, compreender os ciclos do tempo e preservar experiências consideradas importantes. 

Por isso, o folclore não deve ser entendido apenas como entretenimento ou fantasia. Ele constitui uma forma de preservar conhecimentos produzidos pela experiência social e compartilhados entre gerações. Cada história contada, cada receita ensinada e cada brincadeira transmitida carregam modos particulares de compreender o mundo e de fortalecer os laços entre as pessoas. 

É justamente essa dimensão que explica por que tantas manifestações folclóricas continuam presentes mesmo em uma sociedade marcada pelas transformações tecnológicas. Elas permanecem vivas porque continuam sendo socialmente significativas para as comunidades que as preservam. 

As lendas são apenas uma parte do folclore brasileiro 

Entre as diversas manifestações que compõem esse patrimônio cultural, as lendas são, provavelmente, as mais conhecidas. Ainda assim, elas representam apenas uma parte do universo folclórico brasileiro e ganham novos significados quando observadas para além de seus elementos fantásticos. 

O Curupira, frequentemente associado à proteção das florestas, expressa a importância da natureza para diferentes povos e reforça a necessidade de respeitar os ambientes naturais. Da mesma forma, a Iara evidencia a relação simbólica entre comunidades e rios, enquanto o Boto integra o imaginário amazônico e revela aspectos das tradições locais. 

Curupira -ilustração Berje
Imagem retirada do livro Abecedário do Folclore. Autora: Januária Cristina Alves. Ilustração: Berje.

Já o Saci sintetiza um dos traços mais marcantes da formação cultural brasileira: o encontro entre matrizes indígenas, africanas e europeias. Sua própria trajetória demonstra como o folclore é resultado da circulação de histórias entre diferentes povos e da capacidade de criar novas narrativas a partir desses encontros. 

Saci pererê - abecedário do folclore
Imagem retirada do livro Abecedário do Folclore. Autora: Januária Cristina Alves. Ilustração: Berje.

Assim, mais do que personagens fantásticos, essas figuras revelam os valores, as experiências e as formas de organização das sociedades que as produziram. 

No entanto, limitar o folclore às narrativas seria ignorar outras manifestações igualmente importantes. Grande parte desse patrimônio cultural está presente em práticas cotidianas que, muitas vezes, passam despercebidas. 

Onde o folclore está presente no cotidiano? 

O folclore faz parte da vida cotidiana de maneiras muito mais amplas do que costumamos perceber. Ele se manifesta em práticas que continuam sendo compartilhadas entre gerações e que ajudam a preservar conhecimentos, valores e formas de convivência. 

Na linguagem, por exemplo, ele aparece em ditados populares, provérbios e expressões transmitidas oralmente. Nas brincadeiras, permanece vivo em práticas como amarelinha, passa-anel, cinco-marias, pular corda e cantigas de roda, ensinadas entre crianças sem depender de registros formais. 

Da mesma forma, a culinária preserva esse patrimônio por meio de receitas como tapioca, pamonha, bolo de milho, canjica ou pé de moleque, que carregam técnicas, ingredientes e modos de preparo construídos por diferentes povos ao longo da história brasileira. 

As festas populares também revelam essa riqueza cultural. Celebrações como o Bumba Meu Boi, o Maracatu, a Congada, o Círio de Nazaré e as festas juninas articulam música, dança, religiosidade, memória e pertencimento, demonstrando como a cultura continua sendo produzida coletivamente. 

Além dessas manifestações, o folclore também está presente nos saberes populares relacionados às plantas medicinais, às formas tradicionais de cultivo, ao artesanato e aos conhecimentos compartilhados entre gerações. Em comum, todas essas práticas permanecem vivas porque continuam sendo transmitidas e ressignificadas pelas comunidades. 

É justamente essa permanência que revela outra característica fundamental do folclore: sua capacidade de adaptação. 

O folclore continua mudando porque a cultura também muda 

É comum associar tradição à ideia de permanência absoluta. No entanto, uma das principais contribuições da antropologia foi demonstrar que toda cultura está em constante transformação. 

Por essa razão, preservar o folclore não significa impedir mudanças, mas compreender que elas fazem parte da própria continuidade das manifestações culturais. As festas populares incorporam novos elementos, as receitas recebem adaptações, as brincadeiras assumem diferentes formatos e as histórias ganham novas interpretações conforme circulam entre regiões e gerações. 

Essas mudanças não representam uma perda de autenticidade. Ao contrário, demonstram que as manifestações culturais permanecem relevantes porque continuam dialogando com a realidade e das pessoas que as vivenciam. 

Mais do que repetir o passado, preservar o folclore significa garantir que esses conhecimentos continuem sendo compartilhados, reinterpretados e transmitidos ao longo do tempo. 

Qual é a importância do folclore na Educação? 

Compreender essa dinâmica também transforma a maneira como o folclore pode ser trabalhado na escola. Em vez de apresentar apenas personagens e lendas, o tema pode ser abordado como uma oportunidade para discutir patrimônio cultural, memória coletiva, diversidade e identidade brasileira. 

Ao investigar histórias da comunidade, registrar receitas de família, conhecer festas populares da região, entrevistar pessoas mais velhas ou pesquisar brincadeiras tradicionais, crianças e jovens compreendem que fazem parte de uma rede de memórias e experiências construída coletivamente. 

Além de ampliar o repertório cultural dos estudantes, essa abordagem favorece o reconhecimento do patrimônio brasileiro e fortalece o respeito às diferentes formas de produzir, preservar e transmitir conhecimentos. 

Essa perspectiva também contribui para que o folclore deixe de ser percebido como um conteúdo restrito ao calendário escolar e passe a ser compreendido como uma expressão viva da cultura brasileira. 

Valorizar o folclore é reconhecer a cultura como um patrimônio vivo 

Mais do que um conjunto de personagens ou narrativas fantásticas, o folclore brasileiro representa uma das formas pelas quais a sociedade preserva sua memória coletiva e expressa sua diversidade cultural. Ele está presente nas práticas que atravessam gerações, nos conhecimentos compartilhados pelas comunidades e nas tradições que continuam sendo recriadas à medida que a cultura se transforma. 

Por isso, valorizar o folclore é reconhecer que a identidade brasileira não é um legado estático, mas uma construção coletiva, plural e dinâmica. Cada cantiga ensinada, cada festa celebrada, cada receita transmitida e cada história contada reafirmam que a cultura permanece viva porque continua sendo compartilhada. 

Assim, mais do que uma celebração do passado ou uma atividade relacionada ao Dia do Folclore, essas manifestações convidam educadores, estudantes e famílias a olhar para o cotidiano e perceber que o patrimônio cultural brasileiro continua sendo construído todos os dias, nas experiências, nos saberes e nas memórias que atravessam gerações. 

Baixe o material interativo e descubra atividades para estimular o pensamento crítico, a criatividade e a imaginação dos estudantes, em ambientes presenciais ou virtuais.

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