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os desafios da interpretação de texto na era das IAs.
Conteúdo formativo Educador

Os desafios da interpretação de texto na era digital 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 15min 51seg

16 de setembro de 2026

Por que falar sobre interpretação de texto na era digital? 

Vivemos em um mundo hiperconectado, com excesso de informações, vídeos curtos e conversas cada vez mais rápidas. Nesse cenário, uma das habilidades mais importantes é a capacidade de escutar com atenção e compreender de fato os conteúdos que consumimos. 

A interpretação de texto não diz respeito apenas àquilo que lemos. Ela envolve também vídeos, podcasts, conversas, notícias, contratos, memes, postagens em redes sociais e diferentes formas de linguagem presentes no cotidiano. Por isso, compreender como construímos sentidos tornou-se uma questão importante não apenas para crianças e adolescentes, mas também para adultos. 

A entrevista a seguir é uma transcrição adaptada da conversa com Carol Jaspér no Podcast Conteúdo Aberto. Para tornar a leitura mais fluida, foram retiradas repetições e marcas próprias da oralidade e realizados pequenos ajustes de edição, sem alterar o sentido das falas da convidada. 

Aproveite e escute o podcast completo aqui: 

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O que é o projeto Português é Legal? 

O Português é Legal surgiu em 2012, em um momento em que grande parte dos conteúdos sobre Língua Portuguesa disponíveis na internet estava concentrada em regras gramaticais. 

A proposta foi ampliar esse olhar, trazendo temas como preconceito linguístico, variação linguística e diferentes formas de uso da língua, sem abandonar o conhecimento da norma-padrão. A ideia central é compreender que as regras têm importância em determinados contextos, mas a língua é muito mais ampla do que um conjunto de normas. 

Nos últimos anos, o projeto também passou a trabalhar de maneira mais intensa com interpretação de texto, especialmente a partir de situações da vida cotidiana: notícias, contratos, conteúdos que circulam na internet e casos em que diferentes pessoas interpretam uma mesma mensagem de formas distintas. 

­

Pensar que português se resume à gramática pode afastar as pessoas da língua? 

Sim. Existe uma tradição escolar muito pautada no ensino de regras que fez com que muitas pessoas construíssem a percepção de que não sabem português ou de que falam tudo errado. 

Essa visão pode gerar insegurança e até a sensação de que a pessoa não tem legitimidade para se expressar porque pode cometer algum desvio da norma-padrão. 

As regras são importantes como ferramentas de padronização e cumprem funções específicas, especialmente em contextos formais. No entanto, elas devem estar a serviço da comunicação, ajudando as pessoas a escrever e se expressar com mais clareza, e não funcionando como mecanismo de silenciamento. 

Quando o domínio da língua é reduzido apenas à capacidade de seguir um conjunto de recomendações gramaticais, cria-se uma relação bastante limitada com a linguagem e, em alguns casos, até um afastamento da leitura. 

­

A interpretação de texto acontece apenas quando lemos? 

Não. Existe um equívoco comum de associar os erros de interpretação exclusivamente à leitura de textos escritos. 

Na realidade, as dificuldades de interpretação também aparecem em vídeos, falas, conversas e outros conteúdos transmitidos pela oralidade. Isso acontece porque a linguagem não é totalmente transparente. Ela pode conter ambiguidades, duplos sentidos e informações implícitas. 

Além disso, nem sempre o problema está no domínio da língua. A interpretação também depende do repertório, das crenças, das experiências e até das emoções de quem recebe a mensagem. 

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Qual é o papel do conhecimento de mundo na interpretação? 

Ele é fundamental. Nem toda a informação necessária para compreender uma mensagem está explicitamente presente no texto. Nós combinamos aquilo que está escrito ou dito com nosso repertório e nosso conhecimento de mundo. 

Um exemplo são placas que ainda indicam o uso obrigatório de máscara em determinados estabelecimentos. Mesmo que a mensagem continue escrita ali, sabemos, pelo contexto atual, que aquela orientação já não possui necessariamente a mesma validade. Ao lado dela, uma placa de “proibido fumar” continua sendo interpretada como válida, ou seja, o sentido não está exclusivamente no texto. Ele também depende do leitor ou do ouvinte e dos conhecimentos que essa pessoa mobiliza durante a interpretação. 

­

Como o professor pode tornar conteúdos complexos mais compreensíveis? 

Um dos grandes desafios do professor é aproximar os conteúdos da vida dos estudantes sem reduzir sua complexidade. 

Isso envolve um movimento duplo: partir do universo que o estudante já conhece e, ao mesmo tempo, ampliar esse universo. 

Em uma aula de Língua Portuguesa, por exemplo, é possível trabalhar com memes, publicações em redes sociais, podcasts, letras de rap ou funk e, paralelamente, apresentar Camões, José de Alencar ou outros autores da tradição literária. 

Essas experiências não são excludentes, pelo contrário: podem coexistir justamente para ampliar o repertório do estudante. 

O professor transita por diferentes linguagens, gêneros e níveis de dificuldade. Em alguns momentos, precisa facilitar a compreensão; em outros, precisa desafiar o estudante apresentando um vocabulário ou uma forma de expressão que ele ainda não conhece. 

­

Simplificar a linguagem significa empobrecê-la? 

Não necessariamente. É importante observar se a simplificação altera um conceito ou elimina aspectos essenciais da complexidade de determinado assunto, mas adequar a linguagem ao estágio de desenvolvimento do estudante faz parte do trabalho pedagógico. 

Não faria sentido, por exemplo, apresentar a uma criança de 12 anos uma linguagem acadêmica para a qual ela ainda não possui repertório suficiente. 

Ao longo da escolarização, os estudantes ampliam progressivamente seu vocabulário e suas habilidades. Há momentos em que é necessário tornar uma explicação mais acessível e outros em que é importante elevar o nível de complexidade para que eles avancem. 

­

A Língua Portuguesa está ficando mais pobre? 

Não. As línguas vivas passam constantemente por transformações. Algumas palavras deixam de ser usadas, outras surgem, expressões mudam e determinadas construções tornam-se mais ou menos frequentes. 

Estrangeirismos, neologismos e mudanças no vocabulário fazem parte desse processo. 

Algumas transformações acabam se consolidando e passam a integrar a língua ao longo do tempo. Outras são passageiras. Isso sempre aconteceu e não é uma característica exclusiva do português brasileiro. 

Além disso, países territorialmente extensos, como o Brasil, tendem a apresentar uma grande variedade linguística, justamente porque diferentes regiões são influenciadas por contextos distintos. 

­

Por que o preconceito linguístico é tão problemático na escola? 

Porque a língua está profundamente ligada à identidade. 

O estudante aprende a falar em contato com sua família, sua comunidade e sua região. Seu sotaque e seu vocabulário carregam marcas de pertencimento. 

Quando ele entra na escola e recebe a mensagem de que aquilo que fala não serve ou deveria ser abandonado, não é apenas uma forma linguística que está sendo desvalorizada, parte da própria identidade desse estudante também está sendo rejeitada. 

O objetivo da escola não deveria ser apagar um repertório para substituí-lo por outro, mas ampliar a capacidade do estudante de circular por diferentes contextos. 

Ele pode conhecer formas mais formais e mais informais de comunicação, utilizar expressões próprias de sua região e, ao mesmo tempo, aprender recursos que lhe permitam comunicar-se com pessoas que possuem outros repertórios. 

Trata-se de ampliar possibilidades, e não de reduzir. 

­

Qual é a função da norma-padrão nesse processo? 

A norma-padrão funciona como uma referência importante, especialmente em determinados contextos sociais e formais. 

Mas ela não corresponde à totalidade da língua. 

A língua surge primeiro entre seus falantes. A escrita, as gramáticas e os processos de sistematização aparecem posteriormente. A gramática é, portanto, uma ferramenta de consulta e referência, mas não determina sozinha tudo aquilo que uma língua é. 

Por isso, reconhecer as variações linguísticas não significa “nivelar por baixo”, significa compreender linguisticamente que diferentes manifestações fazem parte de uma língua viva. 

­

A maneira como alguém fala determina a qualidade do que essa pessoa sabe? 

Não. Esse é outro preconceito bastante presente na sociedade. Muitas vezes, associamos o domínio da norma-padrão à capacidade intelectual ou profissional de uma pessoa. 

Mas alguém pode não seguir todas as convenções formais da língua e possuir conhecimentos muito sofisticados em determinada área. 

Pessoas que vivem em áreas rurais, por exemplo, podem não dominar certas normas gramaticais e, ao mesmo tempo, possuir amplo conhecimento sobre natureza, cultivo e meio ambiente. 

Da mesma forma, um profissional pode cometer erros ortográficos em mensagens e continuar sendo excelente em sua área de atuação. 

O domínio das normas formais da língua não deve funcionar como um validador automático de outros conhecimentos. 

­

Se existem tantas variações linguísticas, ainda é importante ensinar a norma-padrão? 

Sim. Reconhecer e valorizar as variações linguísticas não significa impedir que os estudantes tenham acesso à norma-padrão. 

Aprender diferentes recursos da língua permite escrever com mais clareza, organizar melhor as ideias e produzir os efeitos comunicativos desejados em cada situação. 

Quanto maior o vocabulário e o domínio dos diferentes usos da língua, maior a capacidade de expressão. 

Esse conhecimento é um direito dos estudantes. 

­

O que se espera de um bom leitor hoje? 

Espera-se que ele consiga identificar as ideias principais de um texto, compreender informações implícitas, fazer inferências, perceber ironias, reconhecer mecanismos de humor e identificar indícios de que uma informação pode ser questionável. 

Na era digital, isso inclui também verificar fontes, comparar diferentes informações e avaliar sua credibilidade. 

Por isso, os estudantes não precisam aprender apenas a interpretar obras literárias. Também precisam compreender memes, notícias, vídeos, postagens e outros gêneros que fazem parte de sua vida cotidiana. 

Um meme, por exemplo, pode exigir que o leitor reconheça uma referência, identifique um recurso de humor e perceba que determinada informação não deve ser interpretada literalmente. 

­

Por que um mesmo gênero textual aparece em diferentes etapas escolares? 

Porque o nível de interpretação exigido muda. 

Uma tirinha trabalhada no 6º ano pode apresentar um jogo simples de palavras ou um duplo sentido relativamente evidente. 

Já no Ensino Médio, outra tirinha pode depender do conhecimento de um acontecimento social ou de uma informação implícita muito mais sofisticada. 

O gênero pode ser o mesmo, mas as habilidades mobilizadas são diferentes. Existe uma progressão da complexidade interpretativa ao longo da escolarização. 

­

Qual é a importância da leitura para o desenvolvimento da linguagem? 

A leitura possui muitas funções. A leitura literária permite que o estudante entre em contato com diferentes estilos, vocabulários e maneiras de dizer. Ler autores distintos mostra que uma mesma ideia pode ser expressa de várias formas e que nem tudo precisa ser dito explicitamente. 

Ironia, linguagem simbólica, subentendidos e outros recursos ajudam o leitor a perceber a riqueza da linguagem. 

A leitura também pode proporcionar entretenimento e prazer, mas para que o jovem descubra aquilo de que gosta, precisa ter contato com uma diversidade de gêneros e estilos. 

Um estudante pode gostar de ficção científica, outro de romance, outro de poesia e outro ainda de histórias de horror. Quanto maior a variedade oferecida, maiores as possibilidades de formação de leitores. 

Além disso, a leitura pode gerar vínculos sociais, ampliar o vocabulário e favorecer diferentes dimensões do desenvolvimento. 

­

A internet dificulta a construção do pensamento crítico? 

O ambiente digital impõe um ritmo muito rápido de reação, engajamento e consumo de informação. 

Isso pode dificultar o pensamento crítico porque refletir exige tempo. 

É necessário processar aquilo que foi lido ou assistido, relacionar a informação ao próprio repertório, confrontar crenças e conhecer outras perspectivas. 

Em muitos casos, assistimos a um vídeo e imediatamente procuramos os comentários para descobrir o que outras pessoas pensaram antes mesmo de formular nossa própria opinião. 

A leitura realizada com atenção oferece uma experiência diferente: podemos interromper, retornar a um parágrafo, reler e refletir no nosso próprio ritmo. 

Pensamento crítico não se constrói de maneira instantânea. 

­

Qual deve ser o papel da escola na formação do pensamento crítico? 

A escola deve oferecer condições para que os estudantes construam pensamentos próprios com base em informações de qualidade. 

Isso é diferente de entregar uma opinião pronta. 

O objetivo é ensinar o estudante a avaliar informações, analisar a credibilidade das fontes, construir argumentos e desenvolver autonomia. 

Diante da quantidade de conteúdos existentes atualmente, a escola não consegue abordar todos os assuntos que o estudante encontrará ao longo da vida. 

Por isso, mais importante do que tentar prever todos os conteúdos possíveis é desenvolver habilidades. 

Um estudante com repertório, criatividade e pensamento crítico pode lidar com diferentes temas porque aprendeu a pensar, e não apenas a repetir respostas previamente decoradas. 

­

Quais habilidades são fundamentais para desenvolver o pensamento crítico? 

Uma das principais é a atenção. 

Não é possível ler bem ou se apropriar profundamente de uma informação sem prestar atenção. 

A dispersão constante e o uso simultâneo de diferentes telas podem dificultar o aprofundamento porque fragmentam a atenção. 

Outra habilidade importante é desenvolver uma postura questionadora. 

Isso não significa desconfiar automaticamente de tudo. Significa perguntar: de onde veio esse dado? Qual é a fonte? Essa conclusão está baseada em alguma informação concreta? 

O pensamento crítico também precisa envolver autocrítica. É importante questionar não apenas as informações que recebemos, mas as próprias opiniões: aquilo que penso está baseado em evidências ou estou apenas reproduzindo um discurso cuja origem desconheço? 

Atenção e questionamento formam uma base importante para essa construção. 

­

Como trabalhar Educação midiática e checagem de informações? 

Uma das estratégias mais importantes é comparar fontes. 

Existem sites, organizações e ferramentas de checagem, mas os estudantes também podem aprender a observar características do próprio conteúdo. 

Uma manchete extremamente sensacionalista ou um texto construído para provocar uma reação emocional intensa pode ser um sinal de que vale buscar confirmação em outras fontes. 

Outro critério é identificar a origem da informação. 

Quando há divergência entre diferentes pessoas, recorrer a instituições, documentos de referência e fontes especializadas pode ajudar a verificar qual informação possui maior sustentação. 

O mais importante é desenvolver o hábito de perguntar: quem produziu essa informação? De onde ela veio? Existem outras fontes que a confirmam? 

­

A inteligência artificial pode ser usada como fonte? 

Pode ser utilizada como ponto de partida, mas suas respostas precisam ser verificadas. 

Ferramentas de inteligência artificial trabalham com grandes volumes de informação e podem produzir respostas corretas em muitas situações, porém, também podem apresentar erros de maneira bastante convincente. 

Isso é especialmente importante quando a tarefa exige análise ou interpretação. 

Por isso, uma resposta produzida por IA não deve ser automaticamente considerada suficiente. Quando a precisão é importante, é necessário comparar informações e recorrer a outras fontes. 

A própria utilização da IA pode se transformar em oportunidade para ensinar os estudantes a checar, comparar e avaliar informações.

­ 

Qual é hoje um dos maiores desafios em relação à informação? 

Durante muito tempo, um grande problema era a falta de acesso à informação. Muitas pessoas não tinham livros, internet, jornais ou outros meios de obter conhecimento. 

Hoje, além das desigualdades de acesso que ainda existem, enfrentamos outro problema: a desinformação. 

Uma pessoa pode consumir muitos conteúdos e acreditar que está estudando bastante, mas utilizar predominantemente fontes de baixa qualidade. 

Por isso, quantidade de informação não significa necessariamente qualidade de conhecimento. 

­

Famílias deveriam evitar que crianças e adolescentes tenham contato com temas polêmicos? 

Nem sempre. O contato com diferentes perspectivas pode ser justamente uma oportunidade para desenvolver pensamento crítico. 

Ao evitar completamente determinados assuntos, podemos também impedir que crianças e adolescentes aprendam a perceber que existem discursos diferentes em circulação, com argumentos e interesses que precisam ser analisados. 

O mais importante é desenvolver critérios para que eles saibam avaliar esses discursos, em vez de simplesmente aderir a um deles sem reflexão. 

Famílias e professores podem atuar juntos nesse processo, sem medo da diversidade de pensamento e reconhecendo que temas complexos também fazem parte da formação crítica. 

Por que a interpretação de texto é uma habilidade para toda a vida? 

Porque continuamos interpretando mesmo depois de sair da escola. 

Interpretamos notícias, contratos, conversas, livros, vídeos, redes sociais e inúmeras outras informações diariamente. 

E todos estamos sujeitos a erros de interpretação, inclusive pessoas que estudam linguagem profissionalmente. 

Por isso, interpretar bem não significa nunca errar. Significa desenvolver estratégias para perceber ambiguidades, rever entendimentos, buscar outras informações e reconhecer que a construção de sentido exige atenção, repertório e reflexão. 

Na era digital, talvez esse seja um dos maiores desafios: aprender não apenas a acessar informações, mas a compreendê-las, questioná-las e construir pensamentos próprios a partir delas. 

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