A felicidade impossível na era da alta performance existencial
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A felicidade impossível na era da alta performance existencial 

Por Ailton Dias

Estimativa de leitura: 5min 52seg

1 de julho de 2025

Ser feliz, hoje, não é mais uma busca ou um direito: é um dever — e dos mais cobrados. Como bons gestores de nós mesmos, devemos acordar motivados, regular as emoções com eficiência e exibir plenitude como quem cumpre metas inadiáveis. A tristeza? Só com justificativa. A vulnerabilidade? Melhor disfarçar. Nesta era de alta performance existencial, a felicidade virou um boletim emocional onde não se pode tirar nota baixa. Mas será que a vida, com toda a sua complexidade, cabe nesse modelo de excelência afetiva? Ou estamos apenas encenando uma alegria que, no fundo, já não nos pertence? 

Vivemos um tempo em que a promessa de felicidade se transformou em um imperativo de performance. A busca por bem-estar, plenitude e equilíbrio emocional tornou-se, paradoxalmente, mais uma cobrança, mais uma tarefa a ser executada com excelência. Mas, o que acontece quando ser feliz se torna uma obrigação? Quando a vida precisa ser gerida com os mesmos parâmetros de uma empresa, e o sujeito é convocado a se tornar um projeto de si mesmo, sempre em atualização, otimização e reinvenção? 

Segundo Byung-Chul Han, a sociedade contemporânea, impulsionada pelo neoliberalismo e pela lógica do desempenho, promove uma hiperindividualização que dissolve os laços comunitários e compromete a capacidade de empatia. O ideal de liberdade foi capturado pela lógica da autogestão, mas não aquela que emancipa e sim aquela que aprisiona. 

No modelo atual de sociedade, cada sujeito é levado a enxergar a si mesmo como único responsável pelo próprio sucesso ou fracasso. Isso gera uma atomização social, um isolamento emocional e uma competitividade constante. A exigência de produtividade permanente transforma a vida em maratona e o fracasso em culpa pessoal. Nessa lógica, a felicidade deixa de ser um estado possível para se tornar um produto inalcançável e, portanto, frustrante. 

O discurso da autogestão, por exemplo, carrega uma ambiguidade cruel. Se, por um lado, evoca autonomia e liberdade, por outro, impõe um ideal de eficiência absoluta: é preciso planejar, monitorar, avaliar e corrigir a si mesmo o tempo todo. A pessoa torna-se uma “empresa de si mesma”, como aponta Han, aprisionada pela ideia de que deve estar em constante estado de melhoria. A liberdade, então, transforma-se em autocobrança; a autonomia, em vigilância de si; e a felicidade, em desempenho. 

Essa psicopolítica, conceito usado por Byung-Chul Han, adoece silenciosamente. O sujeito contemporâneo se torna explorador e explorado de si mesmo, sem sequer ter “permissão para sentir”. Nesse cenário, o sofrimento não é mais um grito coletivo por mudança, mas um sussurro individual abafado pela produtividade. A vulnerabilidade, ao invés de ser acolhida como parte da experiência humana, é percebida como fraqueza. E é aí que começa o colapso.  

Psicopolítica, é uma forma sutil de poder em que o controle não se exerce mais por coerção externa, mas por meio da interiorização das normas e exigências sociais. O indivíduo, acreditando agir em nome da liberdade, vigia a si mesmo, cobra-se constantemente e sente-se culpado por não alcançar os ideais de sucesso e bem-estar. Nesse regime de autocontrole permanente, a liberdade se converte em autocobrança e o sujeito torna-se ao mesmo tempo gestor e explorador de si. 

Como lembra Agnes Heller, ao refletir sobre o cotidiano, a história e os dramas da vida comum, estamos cada vez mais distantes da experiência autêntica de viver anestesiados pela normalização da produtividade e pela invisibilização do sofrimento ordinário. A fórmula é simples e devastadora: falta de alfabetização emocional + necessidade constante de performance = sofrimento e adoecimento. Essa é a equação que rege a subjetividade contemporânea, especialmente nos contextos profissionais, escolares e familiares. Como lembra a psicanalista Vera Iaconelli, viver não é “performar plenitude” é aprender a abraçar a vulnerabilidade. 

“Viver não é performar plenitude, mas abraçar a vulnerabilidade como parte da experiência humana. A felicidade é íntima, rara, espontânea e na maioria das vezes, acessível apenas nos detalhes.” Vera Iaconelli, psicanalista, escritora, autora do livro: Felicidade Ordinária 

Sem alfabetização emocional, tornamo-nos reféns do que sentimos. Incapazes de nomear, compreender e cuidar das nossas emoções, nos perdemos na tentativa de silenciá-las com mais esforço, mais metas, mais controle. A tristeza, o medo e a ansiedade, que poderiam ser compreendidos como sinais, tornam-se ameaças a serem eliminadas. O resultado? Exaustão, adoecimento, solidão. 

Viver sob o imperativo de estar sempre “bem, forte e eficiente” mina a espontaneidade e nos afasta daquilo que há de mais genuíno: a felicidade nos pequenos gestos. Uma conversa verdadeira, uma pausa silenciosa, o reconhecimento dos próprios limites, tudo isso se torna um ato de resistência. Ser inteiro, e não perfeito, talvez seja a maior performance da vida.

Nesse contexto, a autoescuta ganha papel central. Marc Brackett, no livro Permissão para Sentir, ressalta que reconhecer, compreender e regular as emoções é uma habilidade fundamental da vida, especialmente negligenciada na vida adulta. Antes de escutarmos o outro, precisamos reaprender a escutar a nós mesmos. A autoescuta é o primeiro passo na alfabetização emocional da vida adulta. E ela não se resume a técnicas ou teorias: é um movimento íntimo de reconexão com a própria paisagem interior. 

Em meio à correria e às exigências cotidianas, muitos adultos se afastaram de si mesmos. Não sabem mais nomear o que sentem, ignoram os sinais do corpo, perdem contato com seus desejos mais profundos. Alfabetizar-se emocionalmente, então, é voltar a uma escola íntima, onde os sentimentos deixam de ser ruídos e passam a ser compreendidos como mensagens. 

Escutar-se é reconhecer a dor antes que ela grite, é acolher a alegria antes que ela passe, é criar espaço interno para o cuidado. Mais do que autoconhecimento, a autoescuta é um ato de coragem e ternura. É também o alicerce de relações mais saudáveis, decisões mais conscientes e uma vida mais alinhada com o que realmente nos toca. 

Investir em alfabetização emocional não é luxo. É cuidado. É humanidade. É urgência. Precisamos criar espaços nas escolas, nas famílias, nas empresas onde seja possível sentir sem culpa e viver sem máscaras. Porque, no fim, talvez o maior desempenho da vida seja esse: viver com inteireza, e não com perfeição. 

Referências 

  • BRACKETT, Marc. Permissão para sentir: Como compreender nossas emoções e usá-las com sabedoria para viver com equilíbrio e bem-estar. Tradução de Livia de Almeida. Rio de Janeiro: Sextante, 2021. 
  • HAN, Byung-Chul. A agonia de Eros. Petrópolis: Vozes, 2017. 
  • HELLER, Agnes. O cotidiano e a história. Tradução de Carlos Nelson Coutinho e Leandro Konder. 12. ed. Rio de Janeiro; São Paulo: Paz e Terra, 2021. 
  • IACONELLI, Vera. Felicidade Ordinária. Rio de Janeiro: Zahar, 2024. 
professor Ailton Dias
Professor, estudante, filósofo, psicólogo, ator, dançarino e brincante de rua… Pessoa com sede de pessoas numa busca constante do entendimento do maior mistério da existência: o fenômeno da formação humana.  leia também Conteúdo formativo Para o professor Boas Práticas nas Aulas Virtuais: Um guia de como melhorar sua performance on-line Conteúdo formativo Entre razão e […]
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