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A dublagem como ferramenta de democratização da comunicação 

Por Bárbara Barbero

Estimativa de leitura: 11min 56seg

31 de janeiro de 2025

A história da dublagem une culturas e torna a comunicação mais acessível entre diferentes nacionalidades, permitindo uma conexão mais profunda por meio da arte. 

A história da dublagem começa através do cinema e da televisão, que são muito influentes na nossa sociedade, tendo um papel importantíssimo na nossa comunicação e educação. É pelo consumo de filmes, por exemplo, que temos conhecimento sobre costumes, crenças e realidades presentes em outras culturas. 

Neste campo, a dublagem surge como uma solução para a apreciação de entretenimento e arte de outros países, sem a necessidade de o espectador conhecer o idioma original, se tornando uma ferramenta de democratização da comunicação.  

O primeiro filme dublado no Brasil foi “Branca de Neve e os Sete Anões”, da Disney, em 1938, pelos cantores Dalva de Oliveira e Carlos Galhardo. Antes disso, os filmes eram legendados, possibilitando que apenas pessoas alfabetizadas pudessem assisti-los. Quebrar essa barreira linguística foi um grande avanço para a nossa comunicação, deixando a cena audiovisual e artística mais inclusiva e acessível. 

Na história da dublagem, a técnica brasileira é muito reconhecida e valorizada por sua qualidade. No Brasil, para ser dublador é preciso ser também ator, pois a dublagem é uma forma de atuação que utiliza apenas a voz. É necessário ter entonação, emoção e uma boa dicção para transmitir a mensagem de forma correta.  

Democratizando a comunicação por meio da dublagem, rompendo com a barreira linguística  

Ao assistir a filmes e séries dublados, conseguimos nos identificar mais facilmente com personagens e histórias, independentemente de sua origem cultural. A dublagem cria uma ponte emocional, permitindo que as diferentes nacionalidades se conectem a mensagens universais e valores compartilhados. Além disso, ela pode ser uma ferramenta educacional poderosa, especialmente para crianças no aprendizado de idiomas. Assistir a conteúdos dublados pode facilitar o processo de familiarização com diferentes línguas, tornando o aprendizado mais divertido e acessível.  

No ambiente escolar, a dublagem é uma ferramenta poderosa para a promoção do aprendizado intercultural e para o acesso a informações valiosas, como documentários e conteúdos educativos. Ao traduzir e adaptar o áudio original para diferentes idiomas, a dublagem torna possível que estudantes ao redor do mundo consumam desde documentários sobre Ciências e História até programas educativos.  

Isso também facilita o ensino para os educadores, que podem utilizar conteúdos audiovisuais atemporais, oferecendo uma abordagem diferente e compartilhando seus conhecimentos de forma lúdica. Quantos de nós não adorávamos a sala de TV? Eu amava! Inclusive, muitos dos filmes que gosto hoje conheci durante o Ensino Fundamental e Médio, por exemplo. A dublagem torna o processo de aprendizado mais envolvente, interativo e culturalmente enriquecedor. 

O reconhecimento dos dubladores na maior convenção geek do mundo 

Encontro de dubladores no Palco Creator na CCXP 23 – Foto: Bárbara Barbero

Estive na Comic Con Experience (CCXP) dia 30/11, no primeiro dia da convenção, e tive o privilégio de assistir a alguns dubladores contando um pouco da sua carreira no encontrinho de dubladores que aconteceu no Palco Creators. O encontro recebeu a dubladora Bianca Alencar que também é influenciadora digital e ganhou espaço na internet mostrando sua rotina como dubladora e atriz. 

Dentre seus trabalhos estão Lola Soner, do desenho infantil Charlie e Lola; Mabel Pines de Gravity Falls; Twilight Sparkle de My Little Poney e muitos outros que você pode conferir aqui. 

Apesar de breve, Bianca falou um pouco sobre como seus conteúdos na internet possibilitaram que mais pessoas conhecessem o seu trabalho e também a carreira na dublagem, despertando interesse em jovens que sequer sabiam que a dublagem no Brasil é uma carreira sólida e reconhecida. Depois de conversar um pouco sobre seu trabalho, ela demonstrou algumas das vozes que faz, e acredite, com certeza você já ouviu a voz dela por aí! Eu mesma assistia muito Charlie e Lola, e é muito nostálgico ouvir a voz da personagem novamente, principalmente vindo de quem a faz! 

Mais do que uma paixão, uma carreira sólida! 

Antes de se solidificar como uma carreira, a dublagem emerge como uma paixão. Muitos dubladores, inclusive, se divertem nas imitações brincando com diferentes tons de voz, até perceberem que esse hobby pode se tornar uma carreira sólida e seu sustento. 

Conversei com alguns dubladores sobre essa paixão e sobre as dificuldades dessa carreira, e você pode conferir um pouco dessa conversa abaixo: 

“Na minha juventude, eu recebia elogios por conta da minha voz grave, todos diziam que eu poderia ser locutor. Então comecei a pesquisar profissões relacionadas com a voz e eu me identifiquei com a dublagem. Nessa pesquisa, descobri que pra ser dublador é obrigatório ser ator profissional, ou seja, eu estudaria pra ter duas profissões, a de ator e a de dublador. 

Hoje, eu trabalho com essas duas profissões, mas a dublagem é a principal.”, disse o Alê Imperador, que é ator e dublador, e tem no seu portfólio artístico animes como “Hunter X Hunter”, disponível na Netflix.  

Alê conta que 2023 foi um ano difícil para a dublagem, porque os trabalhos diminuíram bastante, e como agravante, a greve dos roteiristas dificultou ainda mais. Questionei sobre as dificuldades da carreira, e ele conta sobre o receio que os profissionais vêm tendo com os avanços das IAs. 

“O ano de 2023 foi um dos piores anos pra dublagem, se não foi o pior. Todos os profissionais da dublagem – dubladores, diretores e os técnicos de gravação – trabalharam muito pouco em comparação com os anos anteriores. Diminuíram demais as horas de trabalho. Neste ano, teve a greve dos roteiristas de Hollywood, teve também a preocupação dos profissionais de acabar perdendo trabalho pra inteligência artificial, teve as vendas de algumas grandes empresas de televisão e streaming, e por conta disso muitas produções foram canceladas do nada. Foi um ano complicado pra dublagem e ninguém sabe ao certo o motivo de ter diminuído tanto o trabalho pra todo mundo, e acho que a chegada da inteligência artificial pode vir a se tornar uma dificuldade real se não criarem alguma lei para proteger o trabalho realizado pelos dubladores.” 

A Raíssa Bueno, 26 anos, é atriz, dubladora, cantora, educadora e pesquisadora. No seu mestrado em Artes Cênicas, a Raíssa escreve sobre como a dublagem é uma derivação dos estudos da cena.  

Comecei a minha carreira na dublagem em 2014, então estou indo para 10 anos na área. É engraçado porque eu nunca quis ser dubladora, eu sempre sonhei em ser atriz, desde criancinha. Minha mãe que ficou sabendo de um curso de dublagem em Campinas, e eu fui fazer sem saber, por insistência dela, e me apaixonei. Comecei a dublar poucas coisas em Campinas, e fui crescendo conforme o mercado também ia crescendo. Demorei para ter contato com o mercado de trabalho em São Paulo, que aconteceu só em 2018, quando a minha carreira mudou bastante. Por trabalhar com atores já formados, pude aprender e trocar bastante com esses artistas que foram muito queridos para mim numa fase que eu era muito jovem e estava muito aberta, porque quando comecei a dublar, ainda estava no Ensino Médio.

“O que me faz gostar muito de dublar é estar no estúdio e perceber que eu mobilizo as mesmas coisas: imaginário, jogo, presença. Eu uso as mesmas coisas que uso na cena, só que para me relacionar com aquela personagem que está na tela, e eu acho isso mágico. E também o quanto aquela linguagem audiovisual me ensina. O quanto eu posso olhar para a minha voz de uma forma diferente, o quanto eu posso trabalhar sobre o texto, a palavra, a ação, de um jeito diferente, por estar em relação com uma obra que já foi finalizada, tem estéticas específicas, outros jeitos de atuar. Eu vejo a dublagem como um laboratório também.” 

Perguntei para a Raíssa como ela acredita que a dublagem impacta na nossa sociedade na construção de uma comunicação mais acessível entre as culturas. 

“Antes da dublagem, teve legendagem e o livro com tradução que era distribuído nos cinemas, mas que não foram muito comprados, principalmente porque na época muitas pessoas eram analfabetas. Hoje, a dublagem ainda é uma ferramenta de acessibilidade do audiovisual muito importante. Ter contato com obras de outras culturas é muito legal, e ao mesmo tempo aumenta a monetização sobre essas obras. Antes tínhamos mais contato com obras em inglês, por exemplo, e hoje isso já mudou bastante, e isso também reflete os países que produzem mais e querem monetizar mais suas obras. Inclusive, na minha banca de qualificação, a minha professora comentou que ela descobriu que tem uma novela brasileira, “Escrava Isaura”, que foi dublada em chinês e foi uma sensação, então isso acontece com a gente também, não é só a gente que recebe e dubla.”, complementa Raíssa, que escreveu sobre esse assunto no artigo “Voz, Identidade e Acessibilidade: repensando caminhos de acesso e democratização do audiovisual através da dublagem” para a sua pesquisa de mestrado. 

Quando perguntei para Raíssa qual dica ela daria para quem quer ingressar na carreira, ela disse que o primeiro passo é estudar teatro, se observar, estar aberto aos aprendizados, e estudar sempre, porque a dublagem é uma derivação das artes do palco. 

“Não é só preencher aquela boca, é dar vida aquele corpo, e pra gente fazer isso a gente precisa viver aquela vida por um segundo. Eu acredito que uma boa dubladora é fundamentalmente uma boa atriz. E além de estudar teatro, estudar tudo o que te faça ter mais possibilidades de trabalhar sua voz, como o canto, pra você poder brincar e se divertir melhorando sua atuação.” 

Teco Cheganças, 28, ator e dublador, também compartilhou um pouco da sua trajetória na dublagem, falando dos desafios que encontrou e ainda encontra nesses 4 anos de carreira

“Eu conheci a dublagem por meio da imitação. Ali por volta dos 12 anos de idade mais ou menos eu comecei a brincar um pouco com minha voz, e descobri que eu tinha facilidade para modular a voz. Essa facilidade me levou a imitar vozes de personagens de desenhos animados, como Mickey, Scooby Doo, Frajola, e isso me levou a pesquisar quem eram essas pessoas, foi onde descobri a profissão de dublador e me encantei.” 

Teco compartilha que ainda nesse mesmo período também começou a estudar teatro na escola, que era algo que ele era apaixonado também por influência de sua mãe, que sempre o levava para assistir peças infantis no SESC. Quando ele soube que ser ator era uma profissão, então ele soube o que ele queria ser profissionalmente. 

“Para entender como a dublagem funciona hoje, é preciso entender vários contextos históricos e conhecer a história da dublagem. Ela nasceu da radionovela, e os polos de radionovelas na época eram São Paulo e Rio, e por isso os grandes polos de dublagem hoje são essas cidades. Todo mundo fala que a dublagem é um mercado muito fechado, e eu concordo, mas acredito que isso mudou muito já, comparado ao passado. É um mercado muito difícil de se entrar, porque custa caro. Se não é, depois da TV, a arte-cênica que melhor paga, é uma das que melhor paga o profissional. A dublagem requer um tempo que nem todo mundo tem, e ela pede muita dedicação, principalmente no começo, porque a estabilidade na dublagem acontece muito devagar.” 

Perguntei ao Teco qual personagem ele mais se orgulha de ter feito, e ele conta que foi seu primeiro personagem de mais destaque, do Donghua (animação chinesa) “The Defective”, chamado White. Teco conta que esse personagem é muito especial por ter sido seu primeiro trabalho grande na dublagem, embora a animação não seja tão conhecida. 

Para finalizar, pedi ao Teco um conselho para quem desejar ingressar na carreira, e assim como a Raíssa, ele reforça a importância de estudar teatro. 

“Seja ator, estude a arte da atuação, faça teatro, consuma teatro, assista teatro e crie bagagem. Nem todo bom ator é um bom dublador, mas todo bom dublador é um bom ator. Tem que ser ator/atriz, não tem jeito, então procure um bom curso de teatro e depois disso vá se especializar em dublagem. Tenha paciência que as coisas vão acontecendo, a dublagem ainda é um mercado difícil de se estabilizar, então tem que ralar muito para ser conhecido, por isso tenha bastante perseverança e dedicação.” 

A importância da dublagem vai além do entretenimento. Ela é uma ferramenta versátil que contribui para a construção de sociedades mais inclusivas, informadas e conectadas, e por meio dela podemos promover uma educação mais rica e uma comunicação global mais acessível, estreitando os laços entre pessoas de diferentes partes do mundo.  

Para finalizar, deixo aqui uma frase do Alê Imperador sobre como a dublagem é importante para a sociedade: 

“A dublagem é essencial na sociedade. Ela democratiza a cultura, a informação e o divertimento. Dublagem é acessibilidade para todos: para os que gostam de consumir produções dubladas, para as crianças que ainda não acompanham as legendas, para os analfabetos, para os deficientes visuais, para os idosos. A dublagem é acesso e compreensão de outras culturas.” 

Caso queira conhecer um pouco mais da carreira do Alê, da Ra e do Teco, os acompanhe no Instagram pelo user @aleimperador, @buenora e @tecomaatheus.  

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