Mais que um criador de personagens, Ziraldo foi um visionário que encantou gerações com sua arte e seu comprometimento com a infância e a cultura brasileira.
No dia 6 de abril, o Brasil se comoveu com uma notícia: o escritor e desenhista, Ziraldo Alves Pinto veio a falecer aos 91 anos.
Em meio ao sentimento de saudade que um autor tão importante deixou, suas obras e o icônico personagem “Menino Maluquinho” também foram exaltados por todo país. Afinal, é raro encontrar um brasileiro que não tenha tido contato, ou ao menos não saiba quem é, o trapalhão garoto com uma panela na cabeça.
No meu caso, especialmente crescendo em Minas Gerais, o contato com os desenhos de Ziraldo era diário. Nas bibliotecas, seus livros enchiam as estantes. Nos livros didáticos, era muito comum se deparar com questões que usassem suas histórias como exemplo.
E o fenômeno cultural foi ainda maior quando a adaptação para os cinemas foi lançada, em 1995. Com o sucesso, uma sequência foi garantida em 1998 e a série “Um Menino muito Maluquinho”, de 2006. Quem foi criança no final dos anos 1990, começo dos anos 2000 provavelmente assistiu algum desses filmes na escola.
Figura incontornável na cultura brasileira, Ziraldo ficou conhecido também como um prolífico e multifacetado artista, escritor, cartunista e ativista cultural, dentre as outras várias atividades que exerceu.
Sua vida e obra são marcadas por uma trajetória singular, permeada por criatividade, humor e um compromisso inabalável com a valorização da infância e da arte.
Nascido em Caratinga, Minas Gerais, em 24 de outubro de 1932, Ziraldo desde cedo demonstrou sua inclinação para o desenho e a escrita. Graduou-se em Direito, mas foi na arte que encontrou sua verdadeira paixão e vocação.
Foi também um defensor incansável dos direitos humanos das crianças. Ele reconhecia a importância crucial de garantir um ambiente seguro e acolhedor para o desenvolvimento saudável e feliz das crianças em nossa sociedade.
Destacou-se como um fervoroso defensor do livro infantil e da literatura como ferramentas essenciais para a formação das crianças.
Em uma era em que tablets, celulares e computadores capturam a atenção dos jovens desde cedo, Ziraldo insistia na importância de apresentar as crianças ao mundo mágico dos livros antes de mergulharem no universo digital.
Para Ziraldo, a leitura não era apenas uma atividade educacional, mas sim uma porta de entrada para a imaginação, a criatividade e a empatia. Ele acreditava que os livros ofereciam às crianças a oportunidade de explorar mundos desconhecidos, conhecer personagens cativantes e vivenciar histórias emocionantes, enriquecendo assim sua compreensão do mundo e de si mesmas.
“Ainda estamos lendo por dever – as crianças – e não por prazer. Temos de avisar aos professores: ninguém tem de tirar nota boa porque lê, ninguém tem de ser premiado porque lê. Ler já é o prêmio. Gostar de ler, a distinção” – Ziraldo (2012), em entrevista ao Estadão.
Ziraldo e o Jornalismo
Sua carreira decolou nos anos 1950, quando começou a publicar seus primeiros desenhos e charges em jornais e revistas, destacando-se pela irreverência e pela crítica social perspicaz.
No entanto, foi nos anos 1960 e 1970 que Ziraldo se consagrou como um dos grandes nomes da cultura brasileira. Ele foi um dos fundadores do movimento O Pasquim, uma publicação que se tornou símbolo da resistência e da contestação política durante os anos de ditadura militar no Brasil.
Sua capacidade de mesclar humor e crítica social fez dele uma voz influente na cena cultural da época, e suas charges e seus cartuns tornaram-se icônicos para gerações de brasileiros.

Ziraldo e a Literatura
Foi também nesse período que Ziraldo deu vida a uma de suas criações mais famosas e queridas: o “Menino Maluquinho”. Lançado em 1980, o livro O Menino Maluquinho encantou crianças e adultos com sua história leve, divertida e repleta de imaginação.
O personagem, inspirado na infância do próprio Ziraldo, tornou-se um fenômeno editorial, conquistando leitores de todas as idades e sendo adaptado para o cinema, para o teatro e para a televisão.
Turma do Pererê
Foi com A Turma do Pererê que Ziraldo publicou a primeira revista em quadrinhos com um só autor no Brasil, em 1960. As histórias eram inspiradas em personagens do folclore brasileiro, como o Saci Pererê, e foram publicadas até 1964, até ser suspensa por ser considerada “subversiva” pelos militares.

Flicts
Seu primeiro livro infantil, Flicts (1969), conta a história de uma cor que não se encaixa no arco-íris, chamada “flicts”. A obra traz reflexões para as crianças sobre aceitar as diferenças e promover a igualdade.

O Bichinho da Maçã (1982)
Outra obra significativa é O Bichinho da Maçã (1982), que narra a história de um bichinho que morava dentro de uma maçã e contava histórias incríveis, que faziam os animais se reunirem debaixo da macieira só para ouvir.

Entre outras obras notáveis de Ziraldo estão Uma Professora Muito Maluquinha (1995), adaptado para o cinema e estrelado por Paolla de Oliveira, e O Joelho Juvenal (1983), que apresenta Juvenal, o joelho de um menino que adorava brincar.
Meninas
Meninas é uma obra na qual Ziraldo se inspirou em Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, para retratar as meninas como seres encantados que duram apenas dos 7 aos 11 anos, mas ao invés de sumir dão origem às mulheres.

O menino marrom
Por fim, O Menino Marrom (1986) conta a história de um menino marrom e de seu amigo, um menino cor-de-rosa, que juntos descobrem o mistério das cores, aprendendo sobre diversidade, respeito e amizade entre pessoas diferentes.

Ziraldo e o Cinema
Além disso, na década de 1960 e 1970, Ziraldo foi um grande colaborador para o cinema nacional, tendo ilustrado diversos pôsteres icônicos, como o dos filmes “Os Fuzis”, “Toda Donzela tem um pai que é uma Fera”, “As Cariocas”, “O Homem que Comprou o Mundo”, e muito mais. Mais recentemente, desenhou o cartaz da 45ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em 2021.



Ziraldo e o Futebol
Outra faceta importante de Ziraldo foi sua contribuição para o futebol brasileiro. Ele recriou mascotes icônicos que perduram até hoje, deixando sua marca no imaginário coletivo dos torcedores brasileiros.
Segundo a revista Placar, Ziraldo recebeu um convite do Clube dos 13, uma organização brasileira composta de 13 clubes brasileiros, para redesenhar as mascotes das equipes que disputavam o mais alto escalão do futebol nacional.
A iniciativa tinha como objetivo não apenas revitalizar a identidade visual dos clubes, mas também atrair a atenção do público jovem. Neste sentido, Ziraldo menciona que algumas representações, como a do Almirante, mascote do Vasco, anteriormente retratado como um homem de idade com um grande bigode, foram substituídas por uma imagem mais jovial, como a de um menino.

Ziraldo deixou sua marca não apenas na literatura infantil, mas também no cinema, nos quadrinhos, no futebol e em diversos outros campos, deixando um legado que continua a inspirar e encantar pessoas de todas as idades.
Assim como para outros grandes artistas que nos deixara, nos resta a responsabilidade de manter essas obras vivas e na memória coletiva do povo brasileiro.








