Família

É nosso dever mantermos a esperança na paz de ser humano 

Por Leo Fraiman

Estimativa de leitura: 4min 53seg

8 de março de 2024

Não é preciso muito mais do que uma semana de hospitalização para percebermos a decrepitude acentuada de nossos músculos. A partir da segunda semana, em especial na terceira, transformamos em nada uma musculatura treinada por anos a fio nas academias, nas aulas de crossfit ou onde quer que cuidemos de nosso corpo.  

O mesmo processo acontece no sentido inverso, só que de forma um pouco mais lenta. Quando nos dedicamos com tenacidade, consistência e boa orientação, nosso corpo físico se torna fortalecido, flexível, ágil, vitalizado. O interessante é lembrarmos de que da mesma forma como podemos (e devemos) fortalecer nossa musculatura física, também precisamos exercitar a musculatura cognitiva. Sim, afinal de contas, a mente humana é muito poderosa e não podemos bobear com ela. É preciso educar nossos pensamentos e a nossa atitude diante da vida para que não percamos aquilo que há de mais precioso em nós, a nossa humanidade.  

Livro de Rutger Bregman | Reprodução: Enjoei

Rutger Bregman, na obra Humanidade: uma história otimista do homem, chega a nos fazer um alerta bastante provocador neste sentido, quando diz que o cinismo é uma forma de preguiça. O historiador explica que, o cinismo, a ideia de achar que a vida está posta, que não há nada a ser feito, que o mundo tal como está com seus problemas, dificuldades e conflitos não tem nada de mutável e que estamos apenas indo diretamente para o abismo, para o cataclisma, para o apocalipse, para o fim dos tempos, ao acreditarmos em tudo isso encontramos uma forma de lavarmos as mãos, de nos desresponsabilizarmos por criar e cultivar aquilo que queremos tanto: um mundo bom para se viver. 

Muitas vezes observamos pessoas falando sobre guerras do outro lado do mundo, em outro continente, mas esquecendo que acordam e logo cedo já pensam: vai ser um dia terrível, entrando em guerra contra si mesmo, roubando de si a paz e a serenidade. Muitas vezes nem lembramos que os mesmos que bradam nas redes sociais, com opiniões prontas sobre esse ou aquele conflito, esquecem de dar boa noite para o próprio filho, para a esposa, o marido, para o aluno logo pela manhã, na sala de aula. 

Podemos tratar bem ou maltratar aqueles com quem convivemos, e o interessante é notar que em um mundo em que se fala tanto sobre conflitos, talvez o gesto mais ousado que possamos fazer é semear, cultivar e colher esperança. Sim, esse é o raio de ação de um educador. Nós não somos responsáveis por tratados de paz, não podemos definir os rumos macroeconômicos ou geopolíticos das nações, porém, não podemos esquecer que elas, as nações, são feitas por pessoas, e de alguma forma, cada aula nossa, cada inspiração, cada momento em que damos atenção à formação e ao aprofundamento de valores humanos, estamos, sim, formando a nova geração. 

Quem disse que não será a partir das nossas aulas que surgirão os diplomatas, os políticos, os juristas, os educadores, os pensadores, os escritores, os cientistas que poderão, no futuro, inspirados por nós, construir esse mundo melhor que queremos? 

Os estudos sobre felicidade nos apontam que devemos sair da miopia da felicidade “se” ou “quando”. Isso é um alento para nós educadores que trabalhamos com o longo prazo. Pensar “só vou ser feliz se o mundo for desse jeito”, “só vou ser feliz quando os meus alunos se comportarem daquela forma” é uma miopia. O educador é aquele que tem a esperança e que entende que assim como o bambu leva 25 anos para se tornar pleno, o cérebro humano também, aproximadamente isso. É preciso 25 anos de cultivo do cérebro para termos uma mente e uma consciência fortalecida.  

Antes de finalizar, gosto de lembrar de uma metáfora interessante. Era uma vez um pai, que era também professor, que passeava com seu filho em um parque. Em certo momento, ele senta-se debaixo de uma árvore frutífera com seu filho e ali, feliz, descascando e sentindo o cheiro, o gosto e salivando com vontade de comer o fruto, comenta com seu pai: “Papai, olha que gostoso, que delícia”. O pai diz: “Sim, filho, amanhã podemos plantar mais uma naquele outro canto”, apontando para um local onde estava descampado. O menino então fala: “Mas pai, vai demorar muito, nem estaremos aqui quando a árvore der frutos. Se plantarmos hoje demorará muito tempo para dar frutos gostosos como este”. 

O pai então diz com muito carinho, colocando a mão no ombro do filho: “Se nós estamos hoje comendo esses frutos, foi porque alguém, um dia, os plantou para nós. Amanhã será a nossa vez de plantar para os que virão depois de nós”. O menino sorriu e emocionado falou: “Papai, quanta sabedoria. Quer mais um gomo?”. E assim seguiram pela tarde deliciosa, pai e filho, trocando experiências, ideias e vivendo momentos de alimentar não apenas o paladar, mas a alma, na troca, na humanidade, na afetividade e na paz que se obtém quando estamos conectados com nosso propósito. 

E você educador, o que pode plantar no coração de seus alunos, de seus filhos? O que pode cultivar dentro de si mesmo para fazer parte daqueles que realmente dizem um “sim” à vida e mantém a partir de cada aula, de cada interação, de cada encontro com seus alunos a oportunidade de se manter como guardião da certeza de que a vida vale a pena? Plantemos e cultivemos para podermos colher com orgulho aquele que é nosso grande propósito: a participação ativa e proativa, a atitude empreendedora diante de um mundo melhor.  

Psicoterapeuta, palestrante, autor de mais de 20 livros, criador da Metodologia OPEE, presente em mais de 1.500 escolas pelo Brasil.
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