Entrevistando

Entrevista com o poeta Edimilson de Almeida Pereira    

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 8min 55seg

24 de fevereiro de 2023

“A poesia é esse fazer que se desfaz e se refaz pelas mãos de alguém que toca, incertamente, o interior e o exterior das coisas.”

Edimilson 

Foto: Prisca Agustoni

Um dos mais respeitados poetas contemporâneos, Edimilson de Almeida Pereira não escreve apenas poesia, mas também atua como ficcionista, ensaísta, professor e pesquisador da cultura afro-brasileira.   

Com 17 obras publicadas, começou a escrever com vinte e poucos anos e hoje coleciona prêmios e reconhecimento, seja escrevendo para o público infantojuvenil ou adulto. 

Neste bate-papo, ele conta mais sobre a sua trajetória, suas inspirações e o seu lançamento conosco, uma coletânea de 25 minipoemas no livro infantil Cada bicho um seu canto

Edimilson, você fez a sua estreia na literatura com 22 anos e desde então não parou mais. A partir de que momento você percebeu que queria seguir por esse caminho, escrevendo e criando poemas?   

Estreei em 1985 com o livro de poemas Dormundo, editado com o apoio de amigos do grupo Abre Alas, de Juiz de Fora. Na adolescência, escrevia em cadernos que, com o tempo, se perderam. Essa prática foi essencial para a formação de uma vontade pessoal que, mais tarde, já na Faculdade de Letras, amadureceu com a consciência crítica do papel da escrita. Ou seja, ser escritor passou, pouco a pouco, de uma escolha pessoal para uma compreensão da importância histórica e social que essa atividade representa.  

E hoje, você é um dos mais respeitados poetas contemporâneos e já surge como uma das principais vozes quando se trata de literatura infantojuvenil negra. Como foi conquistar esse espaço e trazer visibilidade para esse público?  

Na minha percepção, escrita literária é, ao mesmo tempo, vivência pessoal e transfiguração dessa experiência em hipóteses de relações sociais. Isso só é possível mediante um trabalho intenso com as formas das diferentes linguagens. O que me interessa no literário é a captura de alguma experiência que, por meio do trabalho com a linguagem, se transmuta em objeto de interesse coletivo e atemporal. Para desenhar o espaço de recepção dessa perspectiva que inclui, dentre outros temas, a literatura infantojuvenil, me empenho, desde sempre, no trabalho silencioso e contínuo, e no diálogo com educadora(e)s e leitora(e)s em diferentes situações. E a partir desse diálogo que os textos passam a existir como uma teia de significados.  

Como é para você a experiência de trabalhar em parceria com a FTD Educação?   

A experiência com a FTD tem sido gratificante sob todos os aspectos. A conversa sincera, a partilha de ideias, o entusiasmo nos encontros e a liberdade no debate sobre temas e formas dos livros são pontos que, alimentados pelo pessoal da editora, me deixam à vontade para apresentar os projetos que desenvolvemos.    

Seu novo livro conosco é intitulado Cada bicho um seu canto, porque a escolha desse nome?   

Um dos traços marcantes da linguagem poética é o deslocamento das estruturas comuns da comunicação com o intuito de provocar novas sensações e estimular a construção de significados novos. O título previsível seria “Cada bicho no seu canto”, ou seja, cada bicho no seu devido lugar já conhecido por nós. No entanto, em “Cada bicho um seu canto”, além de mantermos a perspectiva do senso comum, abrimos a possibilidade para a expressão de cada bicho em sua linguagem própria ou em seu canto. Hoje, estamos mais atentos às formas de linguagem não-humanas: plantas e animais têm os seus códigos de comunicação. Aprendê-los é uma exigência para termos acesso a outras informações e, sobretudo, para entendermos e respeitarmos as muitas modalidades de vida com quem partilhamos nosso habitat.   

E em seu livro, os versos cantam o reino animal e suas pequenas grandezas. Como foi o trabalho de linguagem para fazer as crianças verem os bichos sob uma perspectiva diferente da qual estão acostumadas?   

Na verdade, me baseei no fato de que as crianças já possuem um olhar poético e inclusivo sobre o reino animal. Antes mesmo de se conectarem a esse reino por meio das fábulas – que os aproximam do mundo humano, conferindo-lhe traços antropomórficos – as crianças têm com os animais e plantas uma relação vital. Ou seja, tudo à sua volta respira e se move, fala e emite sinais de comunicação, às vezes isentos dos limites que o olhar adulto e objetivo lhes confere. Por isso, as sinestesias, as metáforas e elipses atravessam os poemas de Cada bicho um seu canto. São recursos da linguagem poética que as crianças utilizam para apreenderem a cosmogonia presente nos pequenos movimentos da natureza: onde o besouro pousa pode-se ver, por exemplo, um cenário onde luzes, cores, sons, conflitos e interações estão se desenvolvendo. Nesse microcosmo é possível vislumbrar – e as crianças o fazem com frequência, com encantamento – a eclosão de mundos inteiros.  

Você tem muitas frentes de atuação, mas como escritor e professor consegue potencializar e fomentar a especialização nessa área da literatura infantil. Por que é importante estimularmos esse tipo de formação?   

A criação literária e a formação de leitora(e)s são atividades entrelaçadas. No caso da literatura infantil, entram em cena os jovens leitores e leitoras que, mantendo-se atuantes, adensarão o valor cultural da educação e da criação artística. As políticas públicas de inclusão, desenvolvimento e manutenção dos estudantes, bem como as políticas públicas de aquisição e distribuição de obras literárias são essenciais para a existência de um público leitor atento às questões sociais e interessado pelas experiências estéticas suscitadas pela literatura.  

Quais são as suas principais influências?    

Não tenho uma ou outra influência principal no meu percurso de escrita. Sempre me interessei pela miríade de expressões estéticas que me levam, de uma maneira ou outra, a escrever os textos literários. Assim, dos cantos e narrativas orais; de autores como García Lorca, Edward Lear, Cecília Meireles; de artistas plásticos como Di Cavalcanti, Djanira e Heitor dos Prazeres; de escultores como Lira Marques e Maurino Araújo, enfim, daquela miríade estética a que me referi, e que sempre se amplia, procuro apreender formas e sentidos que se transfiguram em textos de poesia e prosa infantil e infantojuvenil.  

“O mundo à minha volta, as pessoas e suas reações, a natureza e suas linguagens, os livros e as canções, tudo, enfim, me atrai pelo seu magnetismo e pode, por isso, entrar ou sair dos textos que escrevo.”

De onde vem a sua inspiração? Do seu dia a dia, de suas leituras, das suas viagens, dos seus estudantes?  

Em geral, por conta do trabalho e das ocupações com a família, não disponho daquele “tempo para escrever”. Escrevo aos poucos, textos variados de prosa, poesia e ensaio. Estou sempre tecendo algo como um manto que nunca está concluído. O mundo à minha volta, as pessoas e suas reações, a natureza e suas linguagens, os livros e as canções, tudo, enfim, me atrai pelo seu magnetismo e pode, por isso, entrar ou sair dos textos que escrevo.  

Edimilson, muito se fala que para escrever poesia é preciso ter alma de poeta, para você o que é ser poeta?   

Cada um de nós, quando abraçamos uma atividade, criamos para ela uma espécie de mitologia. Os poetas não são diferentes, há sempre o que dizer sobre o que somos ou pretendemos ser, através da poesia. Ter uma alma de poeta é uma bela metáfora dessa mitologia. Eu, particularmente, aprecio a ideia do ofício, do ser que se entrega a um fazer. A poesia é esse fazer que se desfaz e se refaz pelas mãos de alguém que toca, incertamente, o interior e o exterior das coisas.   

Além dos poemas e dos ensaios como pesquisador, você também foi muito aclamado com as suas obras de prosa ficcional para o público adulto. Como foi ser reconhecido com o prêmio internacional Oceanos e o Prêmio São Paulo de Literatura?  

É gratificante ter leitores e leitoras para o que escrevemos. Na verdade, é essa partilha que impede o definhamento daquilo que se escreve. No caso dos certames literários, essa partilha revela leitores especializados numa condição tensionada por desejos e disputas. A travessia desse momento me devolve à cena incerta de ser encontrado ou não por um eventual leitor. Vejo em ambas as circunstâncias um reconhecimento que, afetiva e objetivamente, me dá alento para a escrita.  

Em seus ensaios como pesquisador, você aborda a análise e a compreensão da diversificada produção cultural oriunda da diáspora africana no Brasil. Por que é importante colocarmos mais luz nessa temática?   

Por mais que tenhamos falado dessa questão, ainda é pouco em face da exclusão que atinge as populações negras no Brasil e no mundo. A violência decorrente da escravização e do racismo nublaram realidades socioculturais que fundamentam parte significativa da sociedade em que vivemos. Quanto mais esse processo se arrasta, mais ele retira de nós a possibilidade de sermos pessoas plenas. A compreensão das matrizes culturais afrodiaspóricas – bem como de outras matrizes culturais – é um procedimento inerente à minha escrita, seja para o público adulto ou infantojuvenil. Ela tenta ser uma contribuição para um outro processo, amplo e democrático, de convivência entre pessoas com diferentes identidades culturais.  

Você tem algum projeto diferenciado chegando em breve?   

Tenho sim, é um projeto de poesia para crianças. É um objeto livro desdobrável na forma física do papel e um exercício de deslizamento de palavras e imagens no texto. As ilustrações são fragmentárias e, à sua maneira, pedem aos leitores e leitoras que remontem visualmente as imagens. Algo que, no tempo, fazem os textos desse objeto-livro.  

Saiba mais sobre esse e outros obras literárias da FTD Educação

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