No coração do mundo cristão, educadores, estudantes e instituições se reuniram em torno de uma convocação rara e luminosa: o Jubileu do Mundo Educativo. Uma peregrinação que ultrapassou os limites da fé institucional para tocar o território mais humano da Educação, o do sentido.
A FTD Educação esteve presente entre as delegações que representaram o Brasil na constelação de escolas, universidades, congregações religiosas e leigos educadores. O Dicastério para a Cultura e a Educação escolheu chamar o evento de uma grande “constelação do mundo educativo”, expressão que traduz de forma poética e simbólica o espírito que animou o Jubileu.
Em vez de um encontro centralizado, o que se viu em Roma foi uma constelação de redes, instituições, escolas e educadores que, como estrelas distintas, brilham em direções diferentes, mas formam um mesmo desenho no céu da esperança. A metáfora indica que educar é um ato de interligação, uma arte de construir sentido coletivo em meio à diversidade, onde cada experiência se torna luz que orienta outras. Nesse firmamento, o Jubileu reafirmou a missão comum de todos os que, em diferentes países e contextos, fazem da Educação um gesto de comunhão e de fé no futuro.
Durante dias intensos, Roma, a cidade eterna, se transformou em uma sala de aula viva: aulas de fé, de escuta, de humanidade e de esperança. Do encontro com o Papa Leão XIV à travessia das Portas Santas, passando pela presença ativa na Vila Educativa, onde experiências educacionais do mundo inteiro se encontraram, cada gesto compôs um mosaico de fraternidade e compromisso. Mas o Jubileu foi mais do que um evento. Foi um sopro espiritual e intelectual sobre o papel da Educação no tempo presente.
A Educação como peregrinação
O Papa Leão XIV recordou que educar é uma forma de peregrinar, um caminhar conjunto em busca do humano num tempo que muitas vezes o dispersa. Nas homilias e audiências, ressoou uma convicção que parece simples, mas é profundamente revolucionária: “A Educação é uma obra de esperança, e o educador é aquele que desenha novas rotas para o humano quando os mapas antigos já não servem”.
A metáfora do mapa, que dá nome à Carta Apostólica Desenhar novos mapas de esperança, tornou-se o símbolo central do Jubileu. Publicada em 28 de outubro, por ocasião do 60º aniversário da Declaração Conciliar Gravissimum Educationis, a carta propõe uma releitura e interpreta o documento do Concílio Vaticano II à luz dos desafios contemporâneos.
Leão XIV reitera a necessidade de uma formação integral da pessoa, irredutível a qualquer algoritmo, e destaca a família como o principal lugar da Educação. O texto também incentiva o trabalho em rede, a cooperação entre escolas, comunidades e culturas, reforçando que educar é um ato coletivo e sinodal.
O chamado a desenhar novas cartografias
A Carta Apostólica propõe um olhar que combina fé e imaginação pedagógica. Diante de um mundo fragmentado, Leão XIV convida a reconhecer que os velhos mapas das certezas rígidas, das fronteiras inflexíveis e das pedagogias fechadas já não bastam para orientar o presente.
O Papa escreve: “Desenhar novos mapas de esperança não significa abandonar as raízes, mas deixá-las respirar sob ventos novos.” Essa imagem poderia ter saído de uma aula de Edgar Morin ao falar do pensamento complexo. Morin também nos advertiu que o conhecimento precisa ser tecido, não empilhado.
E a Educação, para ser fiel à sua missão, deve lidar com a incerteza, a interdependência e a incompletude, não como obstáculos, mas como dimensões constitutivas da vida humana. É por isso que o Papa convoca professores e formadores a serem cartógrafos do invisível, capazes de desenhar os territórios onde o saber se encontra com o amor, a ciência se abre à ética e a técnica se dobra ao serviço da vida.
Uma constelação chamada esperança
O Dicastério para a Cultura e a Educação nomeou o evento como uma “constelação do mundo educativo”. A palavra não poderia ser mais precisa.
Porque educar, hoje, é exatamente isso: acender pequenas luzes que se unem na imensidão escura do nosso tempo. Entre as atividades jubilares, a presença da FTD Educação na Vila Educativa expressou esse espírito. As escolas católicas brasileiras, ao lado de tantas outras, mostraram ao mundo que a Educação é um campo de testemunho, onde fé e cultura se encontram para formar pessoas inteiras: mente, coração e propósito.
O Papa lembrou que educar é fazer o céu e a terra se tocarem, e essa é talvez a mais bela síntese de uma pedagogia que não teme a transcendência. Uma pedagogia que acredita que a escola é também um lugar teológico, onde o mistério da vida se traduz em perguntas, projetos e convivência.
A teologia do encontro e a espiritualidade do educador
Entre as muitas falas de Leão XIV, uma se destacou aos ouvidos de quem vive o chão da escola: “O educador é um construtor de comunhão. Ensina não apenas com palavras, mas com a arte de escutar.” Essa espiritualidade da escuta atravessa toda a mensagem do Jubileu. Numa sociedade marcada pela aceleração e pelo ruído, o Papa pede que recuperemos o silêncio fecundo, o tempo da escuta e a ternura do diálogo.
Byung-Chul Han chamaria isso de resgate da “crise da narração”: a capacidade de contar e escutar histórias, de criar ressonância entre pessoas e gerações. Talvez por isso, o Jubileu tenha sido também uma pedagogia da lentidão. Caminhar pelas ruas de Roma, atravessar a Porta Santa, olhar o outro nos olhos, tudo isso ensinou muito.
Além disso, vale lembrar que, ao encerrar o Jubileu do Mundo Educativo, o Papa Leão XIV recordou uma bela imagem de Santo Agostinho: todos nós somos companheiros de estudo com um único Mestre, cuja escola se encontra na terra, mas cuja cátedra está no céu. Essa visão agostiniana restitui à Educação sua dimensão espiritual e comunitária.
Somos aprendizes da vida, unidos pela mesma busca, guiados por um Mestre que ensina com ternura e verdade. Na escola do mundo, estudamos o amor, a justiça, a beleza e o mistério da existência; e cada gesto de ensinar e aprender se torna uma forma de oração. O Jubileu nos lembrou que educar é partilhar essa caminhada, conscientes de que a luz que nos orienta vem do alto, mas se acende, humildemente, nas mãos de quem educa com fé e esperança.
FTD Educação: presença e missão
Estar no Jubileu foi, para a FTD Educação, um gesto de fidelidade à sua própria vocação: ser ponte entre a tradição e o futuro, entre a fé e o conhecimento, entre o Brasil e o mundo. Ao lado de Irmãos Maristas, congregações, professores e estudantes, a FTD reafirmou que a Educação é o seu modo de evangelizar, não por doutrinação, mas por presença, diálogo e construção de sentido. Essa presença em Roma não termina com o fim do Jubileu. Ela se prolonga nas escolas, nos projetos, nas formações e nos sonhos que continuam sendo desenhados, novos mapas para um mundo em metamorfose.
O Jubileu continua em nós e através de nós
Talvez o maior ensinamento desses dias seja este: o Jubileu não é um ponto de chegada, mas um ponto de partida. Leão XIV recorda que a Educação é a estrada por onde o Evangelho continua a caminhar. E isso significa que cada sala de aula, cada gesto de cuidado e cada estudante que descobre o seu próprio caminho é também uma celebração jubilar. Porque o Jubileu do Mundo Educativo não termina em Roma. Ele recomeça todos os dias, em cada escola onde o amor ainda se faz método e a esperança ainda se faz currículo.
Referências
- LEÃO XIV. Desenhar novos mapas de esperança: Carta Apostólica sobre a educação e a cultura. Vaticano, 28 out. 2025.
- MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. Cortez, 2011.
- HAN, Byung-Chul. A crise da narração. Lisboa: Relógio D’Água, 2022.
- ABRANCHES, Sérgio. A era do imprevisto: a grande transição do século XXI. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.








