Quando pensamos nos grandes desafios do século XXI, geralmente nos vêm à mente as guerras, as mudanças climáticas, a inteligência artificial ou as crises econômicas. Raramente pensamos na falta de professores.
No entanto, talvez uma das crises mais profundas do nosso tempo esteja acontecendo silenciosamente dentro das salas de aula.
Segundo o Relatório Global sobre Professores da UNESCO, o mundo precisará de 44 milhões de novos professores até 2030 para garantir Educação Básica de qualidade para todas as crianças e adolescentes. Ao mesmo tempo, milhares de educadores abandonam a profissão todos os anos, enquanto uma parcela significativa dos que permanecem se aproxima da aposentadoria. A escassez já afeta países ricos e pobres, comprometendo o futuro de milhões de estudantes.
Mas o que isso tem a ver com a Igreja?
À primeira vista, pode parecer uma questão restrita aos governos, universidades e sistemas educacionais. Contudo, quando olhamos mais profundamente, percebemos que estamos diante de algo muito maior do que um problema de gestão pública. Trata-se de uma crise de vocação, de propósito e, em certo sentido, de uma crise espiritual.
Uma crise que vai além da Educação
Os professores não apenas transmitem conhecimento.
Eles formam pessoas.
Ajudam crianças a interpretar o mundo.
Encorajam adolescentes em momentos decisivos.
Cultivam valores, despertam talentos e influenciam gerações inteiras.
Por isso, quando faltam professores, não estamos falando apenas de vagas não preenchidas. Estamos falando de vidas que deixam de ser acompanhadas, inspiradas e formadas.
A UNESCO alerta que a escassez de docentes se tornou um fenômeno global. Além da necessidade de 44 milhões de novos profissionais, a taxa mundial de abandono da profissão praticamente dobrou, passando de 4,6% em 2015 para 9% em 2022.
Por trás desses números existem histórias reais.
Professores emocionalmente esgotados.
Educadores que trabalham além da jornada contratada.
Profissionais que perderam a esperança de serem valorizados.
Pessoas que um dia enxergaram o ensino como um chamado e hoje lutam apenas para sobreviver.
O envelhecimento dos professores e o vazio que se aproxima
A situação se torna ainda mais preocupante quando observamos outro fenômeno: o envelhecimento da força de trabalho docente.
Nos sistemas educacionais da OCDE, cerca de 34% dos professores da Educação Secundária possuem mais de 50 anos. Considerando que a idade média de aposentadoria gira em torno de 64 anos, estima-se que pelo menos um terço da força docente precisará ser substituída nos próximos quinze anos.
Em países como Bulgária, Estônia, Letônia, Lituânia e Geórgia, mais da metade dos professores já ultrapassou os 50 anos.
O Brasil segue a mesma tendência. Entre 2009 e 2021, o número de professores com menos de 24 anos caiu 42%, enquanto a proporção de docentes com mais de 50 anos cresceu 109%.
O problema não é que os professores estejam envelhecendo. O problema é que cada vez menos jovens desejam ocupar seu lugar.
A aposentadoria torna-se uma crise quando não há uma nova geração disposta a assumir a missão.
E isso nos obriga a fazer uma pergunta desconfortável: Por que uma profissão tão essencial deixou de ser desejada?
A crise dos professores é também uma crise dos nossos amores
Para compreender a escassez de professores apenas por fatores econômicos seria olhar apenas para a superfície do problema. Os salários importam. As condições de trabalho importam. As políticas públicas importam. Mas talvez exista uma camada mais profunda da crise.
Aqui vale recorrer à reflexão do filósofo e teólogo James K. A. Smith. Em sua obra Desejando o Reino, Smith questiona uma das grandes ideias da modernidade: a de que os seres humanos são definidos principalmente pelo que pensam. Para ele, somos muito mais do que “cérebros que processam informações”. Somos seres que desejam, amam e orientam a própria vida em direção àquilo que consideram digno de devoção.
Em uma frase que se tornou central em sua obra, Smith afirma: “você é aquilo que ama”. Isso significa que nossas escolhas profissionais, nossos projetos de vida e até nossa compreensão de sucesso não nascem apenas de decisões racionais. Elas são moldadas por hábitos, narrativas e práticas que formam nossos afetos diariamente.
É aí que surge o conceito de liturgias culturais. Assim como as liturgias da Igreja moldam o coração dos cristãos por meio da repetição de práticas, símbolos e narrativas, a cultura também possui suas próprias liturgias. Elas não acontecem apenas nos templos, mas nos shopping centers, nas universidades, nas plataformas digitais, nos ambientes corporativos e nas redes sociais.
Essas liturgias nos ensinam silenciosamente o que admirar.
O que perseguir.
O que invejar.
O que considerar uma vida bem-sucedida.
Na análise de Smith, o shopping center funciona como uma espécie de catedral secular que nos catequiza no consumismo. Hoje, talvez possamos dizer que os algoritmos das redes sociais assumiram parte dessa função. Todos os dias somos formados por métricas, rankings, curtidas, compartilhamentos e indicadores de desempenho que nos ensinam a desejar visibilidade, influência e reconhecimento imediato.
Sem perceber, passamos a acreditar que uma vida bem-sucedida é aquela que gera alcance.
Que uma carreira valiosa é aquela que produz status.
Que uma profissão desejável é aquela que oferece retorno rápido e reconhecimento constante.
Nesse contexto, a docência se torna quase um ato de resistência cultural.
O professor trabalha segundo uma lógica completamente diferente daquela promovida pelas liturgias digitais do nosso tempo.
Ele investe em processos lentos.
Forma pessoas cujos frutos talvez jamais veja.
Dedica anos a alunos que, muitas vezes, sequer se lembrarão de seu nome.
Seu trabalho não gera viralização.
Não produz fama.
Não oferece recompensas instantâneas.
Mez seja justamente aqui que a crise dos professores revele algo sobre toda a sociedade.
Nãas produz algo muito mais valioso: formação humana.
Enquanto a cultura do espetáculo pergunta “quantas pessoas estão olhando para você?”, o professor dedica sua vida a olhar para os outros.
Enquanto os algoritmos recompensam quem chama atenção para si mesmo, a vocação docente exige atenção constante ao desenvolvimento do próximo.
Talvo estamos apenas diante de uma crise de contratação.
Estamos diante de uma crise de imaginação moral.
Nossas liturgias culturais estão formando jovens para desejar profissões associadas a poder, visibilidade e retorno imediato, enquanto vocações ligadas ao cuidado, à formação e ao serviço perdem espaço em nosso imaginário coletivo.
Por isso, a falta de professores não é apenas uma questão educacional. Ela revela quais amores estão governando nossa cultura.
E talvez a resposta cristã para essa crise não comece apenas com melhores políticas públicas — embora elas sejam necessárias. Talvez ela comece com uma recuperação daquilo que Smith chama de reorientação dos desejos.
Porque quando o Evangelho forma nossos afetos, passamos a enxergar beleza onde o mundo vê insignificância.
Passamos a valorizar o serviço acima da autopromoção.
A fidelidade acima da visibilidade.
E a formação de pessoas acima da construção de marcas pessoais.
Nesse sentido, recuperar o valor da docência é também recuperar uma visão cristã do que significa uma vida bem vivida.
Quando os chamados se cansam
Ao ler os dados do relatório da UNESCO, é impossível não pensar em quantos professores começaram sua trajetória movidos por um genuíno senso de propósito e hoje se encontram exaustos. A escassez de docentes não é resultado apenas de aposentadorias ou da falta de novos profissionais. Em muitos casos, ela é consequência de pessoas que perderam as forças no meio do caminho.
Essa realidade me faz lembrar do profeta Elias.
Pouco antes do episódio narrado em 1 Reis 19, Elias havia experimentado uma das maiores vitórias espirituais das Escrituras. No Monte Carmelo, Deus respondeu com fogo diante de todo o povo, demonstrando seu poder sobre os falsos deuses. Seria natural imaginar que, após um momento tão extraordinário, o profeta estivesse cheio de entusiasmo e confiança.
Mas não foi isso que aconteceu.
Depois da vitória veio o esgotamento.
Diante das ameaças de Jezabel, Elias fugiu para o deserto, sentou-se debaixo de um zimbro e fez uma oração surpreendente:
“Basta; toma agora, ó Senhor, a minha vida” (1 Reis 19:4).
O relato bíblico nos lembra de uma verdade importante: grandes chamados não tornam ninguém imune ao cansaço. Até mesmo aqueles que foram usados poderosamente por Deus podem chegar ao limite de suas forças físicas, emocionais e espirituais.
Talvez muitos professores se reconheçam nessa história.
Entraram na profissão acreditando no poder transformador da educação. Sonharam em formar pessoas, abrir horizontes, despertar talentos e contribuir para um futuro melhor. No entanto, ao longo dos anos, encontraram salas superlotadas, excesso de demandas burocráticas, pressão por resultados, baixa valorização social e, muitas vezes, uma sensação crescente de solidão.
O que começou como vocação pode acabar se transformando em sobrevivência.
E, assim como Elias, muitos chegam ao ponto de perguntar se vale a pena continuar.
A beleza do texto bíblico está no fato de que Deus não responde ao esgotamento de Elias com cobrança. Antes de renovar sua missão, o Senhor cuida do homem cansado. Deus envia alimento, oferece descanso, permite que ele recupere as forças e, sobretudo, o lembra de que não está sozinho.
Há uma lição profunda para a Igreja e para a sociedade nessa passagem.
Quando olhamos para a crise global dos professores, nossa primeira reação costuma ser buscar soluções estruturais — e elas são necessárias. Precisamos de melhores condições de trabalho, políticas públicas consistentes e valorização profissional. Mas também precisamos reconhecer que por trás das estatísticas existem pessoas. Homens e mulheres que carregam diariamente a responsabilidade de formar as próximas gerações.
A história de Elias nos lembra que chamados não fracassam apenas por falta de competência. Muitas vezes, eles se enfraquecem por falta de cuidado.
Talvez uma das tarefas da Igreja neste tempo seja justamente esta: encorajar aqueles que estão cansados, honrar aqueles que dedicam suas vidas ao ensino e lembrar que o Deus que chama também sustenta. Porque a esperança cristã não ignora a exaustão humana; ela afirma que, mesmo quando nossas forças acabam, a graça de Deus continua suficiente para nos manter caminhando.
O problema não é apenas financeiro
Os salários importam, e muito. A UNESCO mostra que, em metade dos países analisados, os professores recebem menos do que outros profissionais com qualificação semelhante. Em diversas regiões, a remuneração sequer é suficiente para garantir adequadamente o sustento familiar.
Mas a crise é maior do que isso. Ela envolve dignidade, reconhecimento e significado.
Vivemos em uma sociedade que sabe calcular o valor de mercado de quase tudo, mas tem dificuldade de reconhecer o valor de quem forma seres humanos.
O resultado é uma cultura que consome os educadores enquanto depende deles para sobreviver.
O que a Igreja pode aprender com isso?
Desde o início, a fé cristã é uma fé de formação. Deus ordena ao seu povo: “E estas palavras, que hoje te ordeno, estarão no teu coração; E as ensinarás a teus filhos e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e deitando-te e levantando-te” (Deuteronômio 6.6-7).
O discipulado cristão sempre envolveu ensino.
Sempre envolveu transmissão de sabedoria e formação de pessoas.
Não por acaso, um dos títulos mais frequentes atribuídos a Jesus é simplesmente este: Mestre.
Cristo não apenas salvava.
Cristo ensinava.
Formava discípulos.
Transformava imaginários.
Redirecionava desejos.
Mostrava um novo modo de viver.
Talvez seja justamente isso que James K. A. Smith tenta nos lembrar: o Evangelho também é uma disputa de liturgias.
Todos os dias somos formados por alguma narrativa.
Todos os dias aprendemos a amar alguma coisa.
Todos os dias estamos sendo discipulados por alguém.
A pergunta é: quem está moldando nossos desejos?

Precisamos recuperar uma teologia da vocação
Durante muito tempo, os cristãos compreenderam que servir a Deus não acontecia apenas no púlpito.
Acontecia na oficina.
Na lavoura.
No consultório.
Na universidade.
E também na sala de aula.
A docência não é apenas uma carreira.
É uma forma de amar o próximo.
É uma expressão concreta do mandato cultural.
É uma maneira de participar da obra de Deus no mundo.
Quando um professor ensina uma criança a ler, ele abre portas para o conhecimento.
Quando ensina um jovem a pensar criticamente, ele fortalece a cidadania.
Quando forma seres humanos, ele contribui para a preservação da imagem de Deus na cultura.
Por isso, a Igreja precisa recuperar a beleza da vocação docente.
Precisamos honrar os professores.
Orar por eles.
Incentivar jovens cristãos a considerar a Educação como um chamado legítimo de Deus.
Precisamos lembrar que formar pessoas é uma das tarefas mais nobres que existem.
Há esperança
Os números da UNESCO são preocupantes. A escassez é real.
O envelhecimento da profissão é real.
O abandono docente é real.
Mas o Evangelho nos ensina que a esperança nunca nasce das estatísticas.
Ela nasce da fidelidade de Deus.
O mesmo Senhor que chamou Moisés para ensinar um povo.
Que levantou profetas para instruir Israel.
Que enviou Cristo como Mestre.
Que capacitou a Igreja para fazer discípulos.
Continua levantando homens e mulheres para ensinar.
Continua sustentando aqueles que servem.
Continua formando pessoas em um mundo marcado pela distração, pelo imediatismo e pela superficialidade.
Talvez a falta de 44 milhões de professores tenha tudo a ver com a Igreja, porque revela uma pergunta essencial para o nosso tempo: que tipo de pessoas estamos aprendendo a desejar ser?
Se as liturgias do mundo nos ensinam a buscar fama, poder e reconhecimento, Cristo nos convida a outro caminho.
O caminho do serviço.
Da formação.
Da fidelidade.
Do cuidado.
E talvez seja justamente desse tipo de mestre que o mundo mais precisa hoje.
“E não nos cansemos de fazer bem, porque a seu tempo ceifaremos, se não houvermos desfalecido” (Gálatas 6.9).








