Em tempos de pressa, quem forma o coração? O desafio de educar na era das liturgias digitais
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Em tempos de pressa, quem forma o coração? O desafio de educar na era das liturgias digitais 

Por Graziele Oliveira

Estimativa de leitura: 8min 40seg

30 de abril de 2026

Entre algoritmos, excesso de estímulos e cultura da performance, educar hoje exige mais do que ensinar conteúdos – exige disputar afetos, atenção e sentido. 

Vivemos aquilo que muitos já chamam de “era da exaustão”. A aceleração não é apenas uma característica do nosso tempo, ela é sua lógica estruturante. Tudo precisa ser rápido, eficiente, mensurável. A escola, inevitavelmente, foi capturada por essa dinâmica. 

A instituição escolar está no centro de um turbilhão de demandas: resultados acadêmicos, saúde emocional, formação ética, inovação tecnológica…  

Mas há uma camada ainda mais profunda, e talvez mais invisível, desse cenário: não estamos apenas lidando com pressa: estamos lidando com formação de desejos

E isso muda tudo! 

A disputa não é por conteúdo. É por atenção. 

Para o filósofo Byung-Chul Han, vivemos em uma sociedade marcada pelo excesso de estímulos, onde a atenção se fragmenta e o sujeito se torna incapaz de permanecer. A consequência não é apenas distração, é perda de profundidade. 

No ambiente escolar, isso se traduz em algo muito concreto: estudantes que conseguem consumir conteúdos, mas têm dificuldade de sustentar processos. Professores que ensinam, mas competem com um ecossistema digital que forma hábitos todos os dias. 

E aqui entra uma provocação essencial: a escola ainda acredita que educa apenas quando ensina conteúdos. 

Mas nunca foi assim. 

Liturgias digitais: a formação invisível do cotidiano 

Para compreender o impacto das tecnologias na Educação, é preciso ir além da ideia de “uso de ferramentas” e entrar no campo da formação humana. O teólogo James K. A. Smith propõe que somos moldados não apenas por aquilo que pensamos, mas, sobretudo, por aquilo que praticamos repetidamente. A essas práticas que orientam nossos desejos, afetos e hábitos, ele dá o nome de liturgias

Tradicionalmente, pensamos em liturgia como algo ligado ao religioso — rituais, gestos, repetições que formam a fé. Mas Smith amplia esse conceito: toda prática repetida, carregada de sentido, tem poder formativo. 

É exatamente aqui que entram as chamadas liturgias digitais

As redes sociais, os aplicativos, as plataformas e os ambientes on-line não são apenas espaços de interação ou informação. Eles operam como ambientes formativos contínuos, que ensinam (muitas vezes sem que percebamos) o que valorizar, o que desejar e como nos posicionar no mundo. 

Pense nas micropráticas cotidianas: 

  • desbloquear o celular dezenas de vezes ao dia;  
  • rolar o feed sem fim;  
  • buscar validação em curtidas e comentários;  
  • consumir conteúdos curtos em sequência acelerada;  
  • reagir rapidamente a estímulos visuais e emocionais.  

Essas ações, aparentemente banais, constituem uma pedagogia silenciosa. Elas treinam a mente e o coração. Formam hábitos de atenção, moldam expectativas e reconfiguram nossa relação com o tempo, com o outro e com o conhecimento. 

Em tempos de pressa, quem forma o coração? O desafio de educar na era das liturgias digitais

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O ponto central é este: essas liturgias não pedem permissão para formar. Elas simplesmente acontecem todos os dias, o tempo todo. 

Por isso, a questão educacional se torna mais profunda do que parece. Não se trata apenas de decidir se usamos ou não tecnologia em sala de aula, mas de reconhecer que os alunos já estão sendo formados por essas dinâmicas antes mesmo de qualquer intervenção pedagógica. 

Diante disso, uma pergunta se impõe aos gestores e educadores: Quais liturgias estão moldando nossos alunos quando a escola não está olhando?

Porque, se a escola não assume conscientemente seu papel formativo — criando suas próprias práticas, seus próprios ritmos, suas próprias “liturgias” —, ela acaba cedendo espaço para que outras forças ocupem esse lugar. 

E essas forças já estão em pleno funcionamento. 

A pedagogia da velocidade versus a pedagogia da presença 

Há algo ainda mais profundo em jogo quando falamos de uma cultura acelerada: não se trata apenas de ritmo, mas de formação espiritual e perceptiva. Como bem aponta Tony Reinke, vivemos em uma disputa contínua pelo que ele chama de atenção adoradora. Aquilo que captura nossa atenção, no fim, molda aquilo que amamos. 

Nesse sentido, a cultura digital não apenas informa — ela reorganiza o coração. 

A velocidade não é neutra. Ela educa. 

Ela nos ensina a desejar o imediato, a rejeitar o esforço, a preferir o impacto ao processo. E, pouco a pouco, forma em nós uma incapacidade de permanecer — permanecer em um texto, em uma ideia, em uma relação, em um caminho de aprendizagem. 

Reinke descreve esse cenário como uma verdadeira “guerra de espetáculos”: múltiplas narrativas visuais, emocionais e sensoriais competindo pela nossa atenção a todo instante. E o problema não é apenas a existência desses espetáculos, mas o fato de que eles são projetados para vencer. 

Eles são: 

  • rápidos; 
  • envolventes; 
  • emocionalmente estimulantes; 
  • infinitamente renováveis. 

Diante disso, a escola corre o risco de cair em uma armadilha perigosa: tentar competir com o espetáculo usando mais espetáculo. 

A aula precisa ser mais “dinâmica”. 

O conteúdo precisa ser mais “atraente”. 

O ensino precisa “prender atenção” a qualquer custo. 

Mas aqui está o ponto crítico: quando a Educação adota a lógica do entretenimento como eixo, ela pode até conquistar atenção momentânea — mas perde formação duradoura. 

Porque aquilo que forma não é o que impressiona, mas o que permanece. 

A pedagogia da velocidade, portanto, produz um tipo específico de sujeito: 

  • impaciente; 
  • disperso; 
  • dependente de estímulos constantes; 
  • avesso ao esforço profundo. 

Já a pedagogia da presença (essa que precisa ser resgatada) forma outro tipo de pessoa: 

  • capaz de sustentar atenção; 
  • aberta ao processo; 
  • habituada ao silêncio; 
  • disposta ao amadurecimento. 

E isso nos leva a uma tensão inevitável: educar, hoje, tornou-se um ato contracultural. 

Enquanto o mundo diz “consuma rápido”, a escola precisa dizer “permaneça”. 

Enquanto as telas dizem “role mais”, a Educação precisa dizer “aprofundar-se”. 

Enquanto o algoritmo recompensa o imediato, o aprendizado verdadeiro exige demora. 

Nesse sentido, desacelerar não é retroceder. É resistir. 

Mas não se trata de uma desaceleração ingênua ou romântica. Trata-se de uma desaceleração intencional, estruturada, pedagógica. 

Isso implica decisões concretas: 

  • criar espaços reais de leitura profunda, sem interrupções; 
  • valorizar processos mais do que entregas rápidas; 
  • ensinar os alunos a lidar com o tédio como parte do aprendizado; 
  • recuperar o valor do silêncio como condição de pensamento; 
  • propor experiências que não sejam imediatamente gratificantes, mas formativas. 

Porque, no fim, a grande pergunta não é se a escola consegue competir com o espetáculo. 

A pergunta é: Ela ainda sabe formar sem ele?

E talvez aqui esteja uma das tarefas mais urgentes para gestores e educadores: reconstruir ambientes onde a presença, e não a performance, seja o eixo da formação. 

Ambientes em que aprender não seja apenas reagir a estímulos, mas habitar um processo. 

Porque, em um mundo viciado em velocidade, formar presença é, talvez, um dos atos mais revolucionários da Educação contemporânea. 

O papel da gestão escolar: formar cultura, não apenas rotina 

Aqui está um ponto crucial para gestores escolares: não basta implementar projetos, tecnologias ou metodologias ativas se a cultura da escola continua sendo regida pela lógica da pressa. 

A liderança educacional precisa assumir um papel formativo, não apenas organizacional. 

Isso significa, na prática: 

1. Reorganizar o tempo pedagógico 

Menos sobrecarga, mais profundidade. Nem tudo precisa ser urgente. 

2. Valorizar práticas que formam atenção 

Leitura prolongada, escrita reflexiva, escuta ativa. 

3. Criar ambientes de presença real 

Momentos sem mediação digital, com interação genuína. 

4. Formar professores para discernimento cultural 

Não basta usar tecnologia. É preciso compreendê-la criticamente. 

5. Cultivar uma pedagogia do sentido 

Aprender não pode ser apenas cumprir tarefas, precisa responder à pergunta “Por quê?”. 

Educar é formar amores 

No fundo, a questão não é técnica. É antropológica. 

Educar, como nos lembra James K. A. Smith, é formar amores. É orientar o coração. 

E isso exige coragem. 

Coragem para ir contra a lógica da produtividade vazia. 

Coragem para sustentar processos em um mundo que valoriza resultados instantâneos. 

Coragem para afirmar que nem tudo que é rápido forma, e nem tudo que forma é rápido. 

Em tempos de pressa, educar é resistir 

Educar hoje não é apenas preparar para o futuro. 

É resistir a um presente que desumaniza. 

É ensinar a prestar atenção em um mundo que dispersa. 

É formar profundidade em uma cultura superficial. 

É cultivar sentido em meio ao ruído. 

Talvez, no fim, educar em tempos de pressa seja isso: reaprender a formar pessoas inteiras em um mundo que insiste em fragmentá-las. 

E essa não é apenas uma tarefa pedagógica. 

É, sobretudo, uma missão ética e, profundamente, espiritual. 

Referências 

Reinke, Tony (2019). A guerra dos espetáculos: o cristão na era da mídia. Editora Fiel, São Paulo. 

Smith, James K. (2018). A. Desejando o reino: culto, cosmovisão e formação cultural. São Paulo: Vida Nova.  

Smith, James. K. (2017). Você é aquilo que ama: o poder espiritual do hábito. São Paulo: Vida Nova. 

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colunista Graziele Oliveira
Graziele Oliveira é cristã e comunicóloga. Possui bacharelado em Jornalismo (Centro Universitário Izabela Hendrix), Bacharelado em Letras e Edição (CEFET-MG), MBA em Trade Marketing (Faculdade Arnaldo Jansen), Formação Pedagógica em Docência (CEFET-MG),  e é pós-graduanda em Neurociências na UFMG.
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