poder da familia
Família

O Poder da Família 

Por Tatiane Zan

Estimativa de leitura: 7min 0seg

28 de maio de 2025

No dia 15 de maio, comemoramos o Dia Internacional da Família. No entanto, percebemos que essa data não mobiliza a sociedade como outras comemorações, como o Dia das Mães, Dia dos Pais ou Dia das Crianças. Sabemos que todas essas datas possuem valor simbólico, mas também são intensamente exploradas pelo comércio. Por que, então, a celebração da Família passa quase despercebida, como se fosse inexistente? 

Neste ano, essa constatação me deixou reflexiva e quis compartilhar com vocês a inquietação que venho sentindo sobre o tema. 

Gostaria de começar contextualizando o conceito de família: 

Família é um grupo de pessoas que compartilham laços de parentesco, seja por sangue, casamento ou adoção. É um espaço permeado por afeto, onde os membros se apoiam emocionalmente, se protegem e cuidam uns dos outros. Além disso, desempenha funções importantes como a transmissão de valores culturais e o apoio econômico. Hoje, compreendemos a diversidade dos arranjos familiares, indo além da tradicional formação composta por homem, mulher e filhos. O significado maior da família reside no papel que ela exerce na sociedade, pois é a base sobre a qual as sociedades se constroem. É nela que se aprendem os comportamentos, as relações sociais e os valores fundamentais. 

Tendo contextualizado o significado de família, volto à minha inquietação: se é a partir da família que a sociedade se estrutura, por que seu valor parece ser tão negligenciado? Por que, nem mesmo em uma data dedicada à sua celebração, ela é amplamente mencionada? Tenho certeza de que muitos de vocês nem sequer sabiam da existência dessa comemoração. Aliás, temos duas datas: o dia 15 de maio, como o Dia Internacional da Família, e o dia 8 de dezembro, como o Dia Nacional da Família

Nas escolas, até vemos algumas iniciativas relacionadas a essas datas, como apresentações das crianças para suas famílias. No entanto, a meu ver, essas ações acabam se configurando mais como eventos de encerramento do ano letivo do que como uma verdadeira valorização e celebração da importância da família na sociedade. 

Por que esse tema me inquietou? Gostaria, agora, de poder conversar pessoalmente com vocês para ouvir a resposta à seguinte pergunta: 

Como vocês têm percebido nossa sociedade: estruturada ou desestruturada? 

“A família é a base da sociedade.” “A família é o primeiro modelo de sociedade política.” — Jean-Jacques Rousseau 

Em que estamos errando? 

Talvez alguns de vocês achem que estou exagerando, que não está assim tão ruim e que a sociedade vai bem. Como não terei como saber se alguém discorda do meu ponto de vista, seguirei expondo minha percepção. 

Acredito que um dos principais erros está na perda de funções bem definidas dentro da família. Assim como em qualquer campo social, saber quem se é e o que se espera de cada um são aspectos fundamentais para o estabelecimento de relações saudáveis. Quero deixar claro que não se trata de atribuir peso ou culpa a ninguém, mas de lançar luz sobre algumas mudanças comportamentais que ocorreram ao longo do tempo e que impactam diretamente o cenário atual. 

Se pensarmos na história das famílias e da sociedade, veremos que, anteriormente, havia um perfil mais cristalizado de papéis: o pai, tradicionalmente, saía para trabalhar, enquanto a mãe cuidava da casa e dos filhos. Os papéis eram rígidos: o pai sustentava financeiramente; a mãe educava. Longe de mim afirmar que esse modelo era o ideal e que a sociedade não enfrentava problemas. Apenas proponho uma reflexão sobre as transformações culturais que vivenciamos. 

Com a modernidade, muitos pais e mães passaram a trabalhar fora, enquanto os filhos são acompanhados por outros familiares, escolas ou babás. As referências multiplicaram-se e, paradoxalmente, essa multiplicidade pode gerar confusão, até nulidade. Conhecem aquela máxima: “quem tem muitos, não tem nenhum”? A criança, diante de diversas referências, pode não saber a quem imitar. “Muito chefe pra pouco cacique.” 

Hierarquia 

Na família, a hierarquia é fundamental para organizar a estrutura e manter o bom funcionamento das relações. Ela promove senso de pertencimento, responsabilidade, segurança, respeito, disciplina, ordem e estabilidade. 

No entanto, temos observado a perda dessa hierarquia parental, principalmente pelas mudanças no contexto familiar e por uma cultura enviesada de positivismo, que defende que os filhos devem ser tratados como iguais, não devendo ser contrariados, frustrados ou punidos, e que devem ter ampla autonomia para fazer suas escolhas. 

Como reflexo, vemos crianças e adolescentes ansiosos, com dificuldades de formar sua identidade, de respeitar regras e hierarquias, com baixa tolerância à frustração e pouca persistência para alcançar objetivos. 

Socialização 

A família é o nosso primeiro espaço de socialização. É nela que aprendemos sobre afeto, confiança, amizade, carinho, partilha e comunicação — padrões relacionais que tendemos a repetir ao longo da vida em sociedade. 

Mas como estão os relacionamentos familiares hoje? Quantas famílias ainda conseguem fazer, ao menos, uma refeição por dia à mesa, sem celulares, compartilhando as vivências do dia a dia? Pelos relatos que ouço nos meus atendimentos, posso contar nos dedos as que conseguem. 

Hoje, filhos permanecem longos períodos em seus quartos, conectados às redes sociais, enquanto os pais, quando não estão ocupados com as tarefas domésticas, também descansam frente às telas. Falta o olho no olho, falta contato, falta convivência. Cada membro assiste aos seus programas preferidos em telas individuais, criando pessoas com crescente dificuldade de socialização. 

Como consequência, percebemos o aumento de adoecimentos psíquicos, pessoas com sentimentos de inadequação, solidão e dificuldade para compartilhar questões comuns, o que amplia a angústia e o sofrimento. 

“O homem é um ser social.” — Aristóteles 
E, segundo ele, a felicidade só se encontra na convivência humana. 

Identidade 

É na família que recebemos a primeira marca de nossa identidade: nosso nome. Mas não para por aí. Nossa visão sobre quem somos se forma, principalmente, a partir do olhar dos nossos cuidadores. Valores, crenças, comportamentos e educação são transmitidos, inicialmente, pela família. O reconhecimento das nossas potencialidades e fraquezas, assim como o modo como aprendemos a lidar com elas, também vêm desse núcleo. 

E então, como provocação: como vocês têm percebido esse aspecto em nossa sociedade? Notam o quanto nossas crianças e adolescentes estão perdidos? Se não se reconhecem, andam à deriva, sem saber quem são, o que podem ou para onde vão. 

Como consequência, vemos personalidades deturpadas, sofridas, angustiadas, vazias, sem direção, muitas vezes adoecidas e desperdiçadas. Pessoas adultas que ainda não descobriram quem são e que, por isso, permanecem emocional e financeiramente dependentes dos pais. Jovens que entram e saem de cursos sem concluir nenhum, por não possuírem uma identidade sadia. Pessoas que se envolvem em relacionamentos tóxicos e abusivos, sem conseguirem sair deles, revelando lacunas profundas na sua formação identitária. 

Poderia abordar muitas outras funções da família, mas quis focar nestes três pontos centrais. Se soubermos trabalhá-los bem em nossas famílias, poderemos construir núcleos mais saudáveis e, como consequência, transformar positivamente nossa sociedade. 

Se você, assim como eu, deseja uma sociedade melhor, invista no cuidado da sua família. Se você é pai ou mãe, invista no seu papel, sendo o melhor exemplo para seus filhos. Trate bem as pessoas ao seu redor, cumpra seus combinados, não jogue lixo na rua, cuide da natureza, respeite o espaço do outro e lembre-se: ele também tem uma família e, assim como a sua, passa por dias difíceis. 

Se cada um cuidar do seu próprio jardim, juntos poderemos formar uma floresta encantadora. 

Acompanhe mais sobre essa temática nas redes sociais do portal Conteúdo Aberto.

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Tatiane Zan
Psicóloga, terapeuta sistêmica familiar. Amo a vida e o conhecimento! Adoro ajudar as pessoas e tornar a vida mais leve! leia também Família Conexões que curam: o poder do diálogo sobre saúde mental entre a família e os jovens  Educador Parceria Família-Escola: momentos delicados pedem atitudes dedicadas  Parceria Família-Escola: momentos delicados pedem atitudes dedicadas  Família […]
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