pedagogia
Educador

Pedagogia: O saber que estrutura, sustenta e move a Escola 

Por Ailton Dias

Estimativa de leitura: 8min 40seg

4 de abril de 2025

Entre saberes e disputas, a pedagogia se firma como o fio condutor da Educação. Ela é a bússola que orienta, o alicerce que sustenta e a ponte que conecta diferentes áreas do saber.  

Neste texto, exploramos como a pedagogia, ao articular ciência, cultura e crítica, preserva sua identidade em meio às influências externas e reafirma sua centralidade na formação integral de sujeitos autônomos e transformadores. 

A pedagogia não apenas ocupa um lugar central na escola, mas deve ser compreendida como a espinha dorsal do processo educativo. Como ciência, possui um objeto de estudo próprio – a Educação – e fundamenta-se em conceitos que integram teoria e prática para orientar os processos formativos. Como prática pedagógica se manifesta na organização do currículo, na mediação didática, na construção do conhecimento e na formação integral do estudante. Seu papel é essencial na articulação dos diferentes saberes que contribuem para a Educação, garantindo que o processo pedagógico esteja sempre alinhado a uma visão ampla e humanizadora do aprendizado. 

Na escola a pedagogia dialoga com áreas como a psicologia, a neurociência e as ciências biomédicas, incluindo neurologia e psiquiatria que oferecem contribuições relevantes para o entendimento dos processos de ensino e aprendizagem.

No entanto, é fundamental que esse diálogo se mantenha equilibrado, evitando que o saber pedagógico seja reduzido a uma abordagem exclusivamente biológica ou psicológica. A escola é território de cultura e desenvolvimento social, onde a pedagogia assume a função estruturante e integradora desses saberes. 

Um centro sem margens 

Historicamente, a pedagogia consolidou-se como um campo de estudo autônomo, diferenciando-se da filosofia, da psicologia e de outras ciências humanas. No Brasil, autores como Dermeval Saviani (2008) e José Carlos Libâneo (2010) reforçam que a pedagogia deve ser entendida como ciência da Educação, responsável por investigar e estruturar os processos de ensino e aprendizagem. No entanto, essa centralidade não implica exclusividade, mas sim uma posição de articulação entre diferentes saberes. 

Numa perspectiva escolar, a pedagogia pode ser compreendida como um “centro sem margem”, que não se impõe como única forma legítima de conhecimento, mas como um eixo estruturante capaz de integrar diferentes campos do saber sem perder sua especificidade. Como mediadora, gestora da interdisciplinaridade dos saberes que podem colaborar com a escola, a pedagogia também produz saberes específicos sobre formação, desenvolvimento humano e processos de aprendizagem, sempre em uma perspectiva integral. 

Na tecitura da escola, a psicologia, a neurociência e as ciências biomédicas, como a pediatria, a neurologia e a psiquiatria, oferecem contribuições valiosas, mas devem atuar em sintonia com a pedagogia, respeitando seu conhecimento especializado e sua capacidade de articular os diferentes campos do saber, garantindo um olhar amplo e contextualizado sobre a Educação.

Esse equilíbrio assegura que as práticas pedagógicas tenham múltiplas perspectivas, sem que a pedagogia perca sua função essencial de compreender, desenvolver e transformar os processos educativos com base em suas próprias referências científicas e metodológicas. 

Ainda assim, no cenário brasileiro, se multiplicam nas escolas os cenários de disputa epistemológica sobre a natureza científica da pedagogia, ressaltando sua necessidade de não só produzir um conhecimento próprio e sistematizado, mas se posicionar no diálogo com outras áreas sem perder sua identidade.

Para Saviani (2008), a pedagogia é uma ciência normativa que organiza os saberes sobre a Educação, fundamentando-se na história, na sociologia e na filosofia da Educação, criando uma base sólida para a formação humana. Libâneo (2010) complementa essa visão ao enfatizar que a pedagogia não apenas normatiza, mas também interpreta e transforma a prática educativa, garantindo que ensino e aprendizagem estejam fundamentados em princípios científicos e metodológicos rigorosos.

Portanto, a pedagogia não deve ser vista apenas como um meio de aplicação de conhecimentos externos, mas como um campo que investiga os processos formativos em suas dimensões cognitivas, sociais e culturais, articulando-os a práticas que promovam uma Educação integral. 

O currículo e a própria escola como territórios de disputa 

A escola é um campo de disputa de interesses científicos, políticos, econômicos e ideológicos. Veiga-Neto (2007), influenciado por Foucault, discute como as práticas pedagógicas e curriculares funcionam como dispositivos de controle e disciplinamento, evidenciando que a escola não é um espaço neutro, mas um local onde se travam disputas por significados e pelo poder sobre o conhecimento. Para ele, a pedagogia tem um papel fundamental na desconstrução de discursos hegemônicos e na promoção de uma escola democrática, onde a reflexão crítica seja a base do aprendizado. 

Marluce Paraíso (2016) aprofunda essa análise ao examinar como o currículo escolar pode reforçar desigualdades estruturais, ao selecionar e validar determinados saberes em detrimento de outros. Ela argumenta que a pedagogia precisa atuar de forma ativa na revisão curricular, incorporando epistemologias plurais que valorizem a diversidade cultural e promovam um ensino mais equitativo. 

Assim, tanto Veiga-Neto quanto Paraíso enfatizam que a pedagogia não pode se furtar ao debate sobre os processos de poder que estruturam a escola. Pelo contrário, cabe a ela assumir um papel ativo na mediação dessas disputas, garantindo que a Educação cumpra sua função emancipadora, formando sujeitos críticos e capazes de intervir na realidade de forma reflexiva e autônoma. 

Podemos problematizar a influência da neurociência na Educação, por exemplo, levantando discussões sobre o uso indiscriminado de conceitos como “neuroaprendizagem” e “neuroeducação”, que frequentemente podem ser abordados de modo que desconsideram a complexidade da mediação pedagógica.

A neurociência, consolidada como ciência autônoma no final da década de 1970 e originada do campo médico, ao buscar uma interface com a Educação Escolar, deve estabelecer um diálogo respeitoso com a pedagogia, ciência do ensino e da aprendizagem que a precede historicamente. Esse diálogo não pode se basear em uma relação de subordinação, mas sim de complementaridade, reconhecendo o legado teórico e prático da pedagogia na construção do conhecimento educacional e evitando reducionismos.  

Da mesma forma, as ciências médicas e psicológicas, ao produzirem diagnósticos relacionados a dificuldades de aprendizagem, precisam evitar análises descontextualizadas que resultem em prescrições automáticas e desvinculadas da realidade escolar.

A aprendizagem é um fenômeno complexo, influenciado não apenas por fatores biológicos, mas também por aspectos sociais, culturais e pedagógicos. Portanto, qualquer avaliação ou intervenção deve considerar a mediação do professor, a dinâmica da sala de aula e os princípios da Pedagogia, que historicamente construiu saberes fundamentais sobre o ensino e a aprendizagem.

Apenas um diálogo genuíno entre essas áreas pode garantir abordagens mais eficazes e humanizadas, que respeitem a diversidade dos processos educativos e evitem a medicalização excessiva dos desafios escolares. 

É preciso considerar o risco da instrumentalização da Educação por saberes que não compreendem sua dimensão territorial, social, histórica e cultural das escolas. A disseminação irresponsável de conceitos neurocientíficos, médicos e psicológicos no campo da Educação pode levar a uma simplificação inadequada dos processos de aprendizagem, negligenciando as influências que os constituem. Isso pode reduzir a complexidade do processo educativo, transformando-o em um conjunto de prescrições baseadas em evidências biomédicas. 

Intelectual e também especialista…  

Para reafirmar a centralidade da pedagogia, é essencial que o/a profissional da área seja reconhecido como intelectual e especialista em seu campo. Delfim Santos (1946) argumenta que o/a pedagogo/a não pode ser visto apenas como um executor de metodologias pré-determinadas, mas sim como alguém que elabora e estrutura criticamente os processos educativos. 

Maria Helena Souza Patto (1990) destaca que a desvalorização do/a pedagogo/a e a falta de reconhecimento da pedagogia como ciência autônoma contribuem para o fracasso escolar, na medida em que retiram da escola sua função essencial de formar sujeitos críticos. 

Portanto, para que a pedagogia reassuma seu papel central, é necessário um esforço coletivo para reafirmar seu estatuto científico e sua relevância social. Isso implica garantir que o/a pedagogo/a seja reconhecido como um agente transformador, um intelectual que reflete criticamente sobre a prática educativa e contribui ativamente para sua evolução. 

A pedagogia é um campo de conhecimento que não pode ser reduzido a uma prática instrumental ou subordinado a outras áreas do saber. Seu papel é articular diferentes perspectivas e garantir que a escola permaneça um espaço de formação crítica e emancipadora. O desafio, portanto, não é apenas reafirmar sua centralidade, mas assegurar que essa centralidade se traduza em reconhecimento e respeito por sua contribuição única para o desenvolvimento humano. Precisamos reafirmar o papel da pedagogia como guardiã das funções genuínas da escola, garantindo que os processos educativos sejam voltados à formação integral e crítica dos estudantes, e não reduzidos a interesses externos que instrumentalizam a Educação. 

Referências 

  • DA SILVA MOREIRA, J.; FRANCO, M. A. do S. Da Pedagogia como ciência à Pedagogia como docência: concepções em disputa no cenário brasileiro.Revista Internacional de Formação de Professores, Itapetininga, p. e024002, 2024. Disponível em: https://periodicoscientificos.itp.ifsp.edu.br/index.php/rifp/article/view/1459.  Acesso em: 19 fev. 2025. 
  • LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia e pedagogos, para quê? São Paulo: Cortez, 2010. 
  • PARAÍSO, Marluce Alves. Currículo e Relações de Gênero: entre o que se ensina e o que se pode aprender. Belo Horizonte: Autêntica, 2016. 
  • PATTO, Maria Helena Souza. A produção do fracasso escolar. São Paulo: T.A. Queiroz, 1990. 
  • SANTOS, Delfim. Fundamentação existencial da pedagogia. Lisboa: Livraria Sá da Costa, 1946. 
  • SAVIANI, Dermeval. Pedagogia e pedagogos, para quê? Campinas: Autores Associados, 2008. 
  • VEIGA-NETO, Alfredo. Foucault & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. 
professor Ailton Dias
Professor, estudante, filósofo, psicólogo, ator, dançarino e brincante de rua… Pessoa com sede de pessoas numa busca constante do entendimento do maior mistério da existência: o fenômeno da formação humana.  leia também Educador A Educação que se move para o futuro Conteúdo para Aulas Move your body Move your body Conteúdo formativo Pedagogia do afeto: […]
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