Descubra o potencial pedagógico das histórias em quadrinhos.
Em 30 de janeiro de 1869, o cartunista ítalo-brasileiro Ângelo Agostini publicou As Aventuras de Nhô Quim ou Impressões de Uma Viagem à Corte, uma história que retratava os costumes e as transformações da sociedade brasileira, trazendo críticas sociais de forma simples e divertida. As Aventuras de Nhô Quim é tida como a primeira HQ brasileira e é por isso que nesta data é comemorado o Dia do Quadrinho Nacional.

De lá para cá, esse gênero literário que combina elementos textuais e visuais passou por diversas fases, conquistando diferentes públicos e chegando até mesmo à sala de aula como uma forma de incentivar a leitura e estimular debates por abordar desde temas simples do cotidiano a assuntos complexos ou delicados.
E para celebrar a data, eu aproveitei a visita ao coração da CCXP (Comic Con Experience), o Artists’ Alley – repleto de quadrinistas, ilustradores, coloristas, roteiristas e artistas – para fazer uma lista de quadrinhos nacionais que podem ser usados em sala de aula.
Mas antes vamos conhecer o potencial pedagógico das histórias em quadrinhos.
Por que usar quadrinhos em sala de aula?
Mais do que apenas imagens com balões de fala, os quadrinhos são uma ferramenta de comunicação com um enorme potencial pedagógico permitindo transformar a experiência de aprendizado dos estudantes.
Conheça alguns benefícios de usar os quadrinhos como ferramenta de ensino:
- Incentiva a leitura
A linguagem visual dos quadrinhos atrai a atenção dos estudantes, tornando a leitura mais prazerosa e acessível. Os quadrinhos, inclusive, costumam ser uma porta de entrada para o mundo da leitura, especialmente para crianças e jovens leitores por meio dos gibis.
- Desperta a curiosidade
Por conseguir abordar temas diversos como história, ciência ou cultura e sociedade, de forma lúdica e evolvente, os quadrinhos motivam os estudantes a aprender mais sobre o mundo ao seu redor, despertando o seu interesse por diferentes áreas do conhecimento.
- Estimula o pensamento crítico
As histórias em quadrinhos podem ser usadas como ponto de partida para iniciar debates ou discussões sobe determinados assuntos, estimulando o pensamento crítico e a troca de ideias.
- Trabalha a interpretação
Ler uma história em quadrinhos exige que o leitor aprenda a identificar os elementos visuais e textuais que compõem a narrativa, desenvolvendo suas habilidades de interpretação de maneira mais abrangente.
- Facilita a compreensão de conceitos complexos
As imagens e a linguagem visual dos quadrinhos ajudam na compreensão de diferentes informações e conceitos, facilitando o aprendizado e atendendo estudantes com diferentes estilos de aprendizagem.

Esse é o caso do rapper e empresário Emicida, que já compartilhou em entrevistas que não gostava de ir à escola, por conta dos ataques racistas que sofria e foi sua professora Rita de Cássia – ao descobrir sua paixão por HQs e transformar seu conteúdo passando a dar todas as matérias para ele dessa forma – que conseguiu resgatar sua curiosidade e interesse em aprender e fez com que pudesse se tornar quem é hoje.
Os quadrinhos também ajudam na construção do letramento racial e na promoção de uma educação antirracista. Leia mais sobre assunto no artigo Diversidade nos quadrinhos: por uma educação antirracista.
Como usar quadrinhos em sala de aula?
O uso dos quadrinhos como ferramenta de ensino enriquece o repertório cultural dos estudantes e permite dinamizar o processo de ensino e aprendizagem.
Seu potencial pedagógico está incluso na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) onde os quadrinhos são mencionados como exemplos no uso das práticas de linguagem que envolvem leitura, escrita, análise linguística e semiótica. Além disso, as histórias em quadrinhos também são aliadas valiosas quando falamos de interdisciplinaridade.

5 formas de incluir quadrinhos no seu plano de aula
- Para introduzir um tema: A história em quadrinhos pode ser usada para apresentar um novo tema de forma envolvente e contextualizada.
- Para complementar um conteúdo: Use os quadrinhos para aprofundar um assunto já trabalhado em sala de aula, oferecendo uma perspectiva diferente.
- Para desenvolver a análise de texto: A história em quadrinhos é um recurso para trabalhar a leitura e a interpretação de textos, peça que seus estudantes analisem tanto a linguagem verbal quanto a não verbal.
- Para desenvolver a produção textual: Convide os estudantes a criar as suas próprias HQs, desenvolvendo suas habilidades de escrita e comunicação.
- Para desenvolver projetos interdisciplinares: Integre os quadrinhos a outras áreas do conhecimento, como História, Geografia, Ciências, Arte ou Língua Inglesa.
Quadrinhos nacionais para usar em sala de aula
As HQs brasileiras são um reflexo da nossa cultura, retratando a nossa história, nossos costumes, nossas lutas e nossas inspirações, o que permite que possamos compreender melhor a nós mesmos e a nossa sociedade.
E como estamos em um país multicultural e miscigenado, os quadrinhos nacionais refletem essa diversidade, abordando diferentes assuntos que vão desde a cultura ancestral dos povos originários a temas do cotidiano, por meio de diferentes estilos artísticos.
Confira uma lista de quadrinhos para conhecer e explorar em sala de aula!
1.Amantikur

Temas: Povos originários, cultura ancestral, natureza e meio ambiente
A cultura pop está repleta de conteúdos sobre mitos gregos, nórdicos e com inspirações celtas, mas você já consumiu algum conteúdo que abordasse os mitos dos nossos povos originários?
Baseado em saberes ancestrais do povo tupi, Amantikir (A Serra que chora) conta a trágica história de amor entre uma bela kunhã (mulher) e Kurasi, o poderoso Deus Sol.

Para os autores Lillo Parra e Jeferson Costa, Amantinkir usa a arte como uma ferramenta para resgatar a mitologia dos povos originários, convidando-nos a refletir sobre o apagamento de sua identidade e contribuindo para que a voz dos habitantes originais de nossa terra não seja silenciada.
A HQ traz ainda um glossário com as palavras indígenas escritas em Nheengatu, idioma de origem tupi que até hoje é adotado em muitas regiões da Floresta Amazônica e indica os animais nativos da Serra da Mantiqueira que aparecem na história.
2.A Coleta

Temas: Sustentabilidade, meio ambiente, preconceito
A Coleta nos apresenta a dura realidade de três catadores de material reciclável da cidade de São Paulo; Bispo, Litz e Maura. Por meio de entrevistas e recortes de uma rotina intensa de trabalho, acompanhamos suas vivências sobre uma sustentabilidade que vai além do discurso e atua na prática, expondo o sonho de um futuro possível.
A HQ é um retrato de uma sociedade desigual, que ignora as questões ambientais, abordando a luta pela sobrevivência e pela valorização de uma profissão discriminada, repleta de estigmas e envolta no racismo estrutural, mas que é fundamental nos dias de hoje, afinal grande parte da reciclagem no Brasil é feita por catadores.
Durante a CCXP – Comic Con Experience pude conversar com o artista visual e designer gráfico Pedro Vó, autor de A Coleta. No vídeo abaixo ele conta como está sendo a repercussão da obra e como os professores podem trabalhar a HQ em sala de aula.
3.Cumbe

Temas: História do Brasil, escravidão, colonialismo
Aclamadíssima dentro e fora do país, a HQ Cumbe, de Marcelo D’Salete, conquistou o Prêmio Eisner – o Oscar dos quadrinhos – levando para o mundo a história da escravidão no Brasil pelos olhos dos oprimidos.
A HQ amplia as possibilidades de leitura sobre o passado, com uma narrativa pouco explorada que segue histórias de fuga e resistência. Para construir a obra e conseguir o resultado desejado, o ilustrador, quadrinista e professor, Marcelo D’Salete fez uma intensa pesquisa para documentar a história do Brasil com o tráfico de escravos africanos.
Em entrevista sobre os 10 anos da obra para a editora de quadrinhos Veneta, o autor comenta sobre o sucesso de Cumbe e sua repercussão nas escolas, já que a HQ fez parte do PNLD literário de 2019 para o Ensino Médio:
“… Fico feliz que outras pessoas, professores e alunos, tenham visto o seu potencial para Cumbe ser trabalhado dentro de sala de aula. E mostra como nós temos uma certa carência de falar sobre esse assunto com diferentes públicos e utilizando diferentes linguagens, né? Acho importantíssimo que quando a gente vai pensar em sala de aula, em oficinas ou, enfim, diferentes espaços, o professor, o educador, tenha à sua disposição diferentes estratégias, diferentes tipos de referências, para dialogar com o público. Nesse caso, com os alunos, os quadrinhos, a fotografia, o desenho, a pintura, o filme, a música… tudo isso entra como parte de um grande mosaico, onde a gente tenta falar de determinadas experiências sociais, históricas ou mesmo estéticas e artísticas. O quadrinho é um componente essencial dentro dessa diversidade de linguagens possíveis a serem tratadas e discutidas.”
4.Tina

Temas: Assédio, feminismo, direito das mulheres
Em Tina – Respeito, a autora Fefê Torquato usa a clássica personagem de Mauricio de Sousa para expor um problema que mulheres enfrentam dia a dia, e precisa acabar: o assédio.
A história acompanha Tina, uma jornalista recém-formada, que realiza o sonho de começar a trabalhar em uma redação, mas precisa enfrentar um desafio bem maior que o profissional. Uma história que lamentavelmente, eu, como jornalista, também já vivenciei dentro e fora de redações.

A leveza das cores da aquarela contrasta com o peso do tema abordado, expondo a aura de medo que envolve a existência da mulher; como sempre temos que pensar em nossa própria segurança em diferentes situações e o sentimento constante que nos acompanha de que algo pode acontecer a qualquer momento.
O quadrinho abre espaço para o debate de questões importantes em relação à nossa sociedade e aos direitos das mulheres, educando jovens para que tenham força e coragem e aprendam a impor limites sempre que necessário.
5.Quadrinhos dos anos 20

Temas: cultura digital, desinformação, consumismo
Em Quadrinhos dos anos 20, André Dahmer faz uma crítica ao papel da tecnologia em nossa sociedade de forma genial: ele dá vida ao temido algoritmo, essa figura onipresente que cada vez mais molda nossa mente e o mundo ao nosso redor.
Embebido no humor e no sarcasmo, a obra apresenta nosso vilão com um traje que lembra aqueles feitos para lidar com materiais tóxicos, enquanto dissemina desinformação, estimula comportamentos extremistas, corrói nossa concentração e faz com que sejamos o mais consumistas possível.

A obra nos faz rir ao mesmo tempo em que nos convida a refletir sobre o impacto que as redes sociais e a cultura do like têm em nosso comportamento.
6.Bertha Lutz e a carta da ONU

Temas: Ativismo, pioneirismo, igualdade de gênero
Cientista, feminista, política, militante sufragista, Bertha Lutz foi a maior líder na luta pelos direitos políticos das mulheres brasileiras e uma das poucas mulheres a participar da elaboração da Carta da ONU – documento criado em 1945 por representantes de 50 países com o objetivo de selar um pacto de paz global e promover a cooperação internacional, após um período de duas guerras mundiais.
Em Bertha Lutz e a Carta da ONU, as autoras Angélica Kalil e Mariamma Fonseca usam as memórias da ativista brasileira para contar, em quadrinhos, a saga de Bertha durante a Conferência de São Francisco, onde a carta foi criada. Bertha não se intimidou com a resistência e garantiu que o documento citasse explicitamente “a igualdade de direitos de homens e mulheres”, entre outras questões.

Gostou dessas sugestões? Então aproveite para conhecer os Livros em quadrinhos para trabalhar em sala de aula da FTD Educação que fazem parte do universo dos quadrinhos.
E se você, educador, quiser se aprofundar nessa temática, eu recomendo a leitura da obra Como usar as histórias em quadrinhos na sala de aula, da nossa autora e colunista Ângela Rama.
Aproveite e conheça mais histórias em quadrinhos no Lumisfera.








