Neste mês das crianças e dos professores, este é um convite para tornar o dinheiro visível, desenvolver escolhas responsáveis e descobrir que quem ensina também aprende e ganha muito com isso!
Você já reparou como o contato com o dinheiro está ficando cada dia menor? Não porque deixou de existir, mas porque a tecnologia está mudando a maneira como lidamos com ele.
Pagamos com Pix, aproximamos o cartão, compramos com um clique, assinamos serviços que são cobrados automaticamente. Tudo acontece de maneira tão rápida e prática que, muitas vezes, nem percebemos o dinheiro saindo.
Agora, imagine essa realidade pelos olhos de uma criança. Ela acompanha os pais no supermercado, vê os produtos sendo colocados no carrinho e, no caixa, alguém aproxima um celular da maquininha. Pronto! Tudo está pago.
Mas será que ela compreendeu o que aconteceu? De onde veio aquele dinheiro? Quanto custaram as compras? Quanto ainda resta para as outras necessidades da família?
O dinheiro ficou invisível, mas as consequências de como administramos o fluxo financeiro continuam muito reais. Em setembro de 2026, no Brasil, segundo a CNC — Confederação Nacional do Comércio, 81,7% das famílias estavam endividadas.
E é justamente aí que surge uma oportunidade para famílias e professores, porque, quando pagar fica fácil, perceber o gasto pode ficar mais difícil e as consequências podem ser muito pesadas.
Quando pagar fica fácil, perceber o gasto pode ficar mais difícil
Durante muito tempo, tínhamos contato com o dinheiro por meio de experiências concretas: contando cédulas, recebendo troco, separando moedas, guardando dinheiro em potes ou envelopes para usar no futuro.
Hoje, a mesma compra pode acontecer em segundos, sem que nada visível mude de lugar. As tecnologias financeiras trouxeram inúmeras vantagens. O Pix facilitou as transferências, os aplicativos ampliaram o acesso a serviços e os pagamentos digitais simplificaram o cotidiano.
O desafio não está na tecnologia, mas na nossa capacidade de continuar percebendo o fluxo do dinheiro.
Pesquisas sobre comportamento de consumo apontam que os meios de pagamento sem dinheiro físico podem favorecer gastos maiores, em média, quando comparados ao pagamento em espécie. Esse fenômeno é conhecido como efeito cashless.
E pense nas crianças que estão crescendo nesse ambiente. Se até os adultos podem perder o controle, imagine quem ainda está construindo a compreensão de que o dinheiro é um recurso limitado!
Em nosso Método dos 6Gs, trabalhamos uma ideia fundamental: o dinheiro é como a água em um reservatório. Ele entra, sai, circula, pode ser desperdiçado ou guardado e pode ser direcionado para gerar mais dinheiro. E, independentemente da quantidade, pode acabar.
Essa é a lógica da Engenhoca , nossa ferramenta pedagógica que representa o fluxo financeiro utilizando água, reservatórios, torneiras e baldes. Quando abrimos uma torneira, a água sai do reservatório. E aquela mesma água não estará mais disponível para outra finalidade. Com o dinheiro acontece exatamente a mesma coisa, seja o pagamento realizado com cédulas, cartão ou celular.
Três atividades para tornar o dinheiro visível
Separei três sugestões de atividades para tornar o dinheiro visível. A boa notícia é que, com criatividade, objetos simples e boas perguntas, podemos transformar situações cotidianas em experiências de Educação Financeira Comportamental.
1. Transforme o Pix em dinheiro que possa ser visto
Separe 100 unidades de algum material — tampinhas, feijões ou fichas — e explique que representam R$ 100 disponíveis.
Agora, proponha algumas compras fictícias: R$ 20 em um lanche, R$ 15 em um deslocamento e R$ 25 em um brinquedo.
A cada pagamento simulado por Pix, retire a quantidade correspondente de material.
No final, pergunte: quanto ainda temos? O que aconteceria se quiséssemos comprar algo de R$ 50? Precisaríamos fazer outra escolha?
Essa experiência é poderosa porque mostra que o Pix não cria dinheiro. Ele apenas movimenta um recurso que já existia.
2. Construa um mapa do caminho do dinheiro
Em uma folha, desenhe um caminho com quatro etapas:
Entrou → Foi usado → Foi guardado → Restou
Imagine que a criança recebeu R$ 50. Ela decidiu gastar R$ 10 em um lanche, guardar R$ 15 para um objetivo futuro e compartilhar R$ 5 para ajudar alguém. Restaram R$ 20 disponíveis.
Com essa atividade, podemos conversar sobre opções ao usar o dinheiro, pois, mais importante do que fazer contas é perceber que toda escolha tem consequências. Quando usamos dinheiro para uma finalidade, deixamos de utilizá-lo em outra.
3. Faça a experiência do reservatório de água
Separe uma jarra transparente com água e alguns copos vazios. Explique que a água representa o dinheiro disponível.
Cada copo representa uma finalidade: alimentação, moradia, diversão, projetos futuros e ajuda ao próximo.
Convide as crianças a distribuírem a água conforme as necessidades e os desejos de uma família fictícia.
Depois, proponha novos desafios: surgiu um gasto inesperado! Queremos realizar uma viagem! Podemos aumentar os gastos com diversão?
O que acontece quando a jarra começa a ficar vazia?
Essa dinâmica, inspirada na Engenhoca , mostra de maneira concreta que não basta olhar quanto dinheiro entra. Precisamos aprender a cuidar de todo o fluxo.
Quem ensina também aprende e ganha
Essas atividades ajudam a desenvolver planejamento, responsabilidade e perspectiva de futuro, além de ajudarem a perceber que guardar dinheiro também é uma escolha fundamental, pois viabiliza o futuro.
Todos podem se beneficiar ao abrir espaço para aprender sobre melhores formas de usar o dinheiro, rever hábitos, ampliar perspectivas, refletir sobre o uso responsável dos recursos, a importância de evitar desperdícios, a cooperação e o valor das escolhas.
Quando o professor ou a família ensina uma criança a pensar antes de gastar, os adultos também são convidados a observar suas próprias decisões. Podem descobrir novas maneiras de organizar seus recursos, identificar pequenos desperdícios, rever prioridades e fortalecer hábitos importantes para sua própria sustentabilidade financeira. Quem ensina também ganha repertório, consciência, criatividade e possibilidades de escolha.
Não é necessário expor a criança a preocupações financeiras dos adultos. O importante é incluí-la, de maneira adequada à idade, em experiências que desenvolvam responsabilidade e autonomia.
As crianças aprendem com aquilo que falamos, mas também, e principalmente, com aquilo que fazemos. Por isso, ensinar comportamentos financeiros saudáveis é uma oportunidade de transFORMAÇÃO financeira para toda a família.
Neste mês, o presente pode ser um aprendizado para a vida toda
Outubro reúne duas celebrações muito especiais: o Dia das Crianças e o Dia dos Professores.
Desejo que você aproveite para oferecer experiências valiosas que ajudem as crianças a enxergar o dinheiro como um recurso, compreender seus limites e perceber o poder das pequenas e grandes escolhas.
Não se trata de ensinar crianças a economizar por economizar, nem de transformar a infância em uma preocupação constante com contas e gastos. Trata-se de desenvolver habilidades para viver com mais autonomia, segurança, criatividade, solidariedade e liberdade.
Nossa missão é preparar as novas gerações para um mundo em que o dinheiro será cada vez mais digital, mas no qual os comportamentos continuarão determinando grande parte dos resultados financeiros e sociais.
O dinheiro pode estar cada vez mais invisível. Mas o poder da educação de comportamentos financeiros precisa ficar cada vez mais evidente. A sociedade só tem a ganhar quando mais pessoas agem com responsabilidade e são capazes de perceber os impactos pessoais, sociais e ambientais de suas escolhas.
Feliz mês das crianças e dos professores! Que seja um tempo de ensinar, aprender, compartilhar e ganhar muito mais do que dinheiro. Até a próxima!







