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Travessia institucional, liderança e uso evangélico dos bens 

Por Júlio Souza

Estimativa de leitura: 12min 42seg

22 de abril de 2026

Toda instituição séria atravessa fases. Há momentos de expansão, momentos de revisão, momentos de crise e momentos em que é preciso escolher, com lucidez, o que conservar e o que transformar. Com uma obra educativa católica não é diferente. O problema começa quando essa travessia é lida de forma mutilada: ou como questão exclusivamente espiritual, quase desligada da gestão, ou como questão puramente técnica, quase desligada da missão.

O desafio contemporâneo é outro. Ele pede uma inteligência institucional capaz de unir propósito, liderança, cuidado, estratégia e responsabilidade no uso dos bens. É exatamente nessa direção que a tradição bíblica, o Vaticano II e a reflexão marista sobre liderança profética e servidora oferecem uma contribuição de grande atualidade. O Concílio pede que a Igreja leia os sinais dos tempos e permaneça ligada à história humana (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, n. 4); a liderança marista profética e servidora insiste, na mesma linha, que a liderança precisa acompanhar de perto a vida e a missão e não pode espiritualizar indevidamente a organização, a direção e a administração (CONSIGLI; GUTIÉRREZ, 2022, p. 28-33). 

A travessia de Israel para a Terra Prometida ajuda a compreender isso com grande força. Israel não entra na terra por impulso. Antes, enfrenta medo, leitura distorcida da realidade, crise de confiança, necessidade de nova liderança, organização do povo, passagem concreta, memória dos marcos e renovação da aliança (cf. Nm 13–14; Dt 31,1-8; Js 1,1-9; Js 3–4; Js 24,1-28). A travessia, portanto, não é apenas deslocamento; é processo de reordenação integral. Ela envolve promessa, discernimento, estratégia, pedagogia coletiva e responsabilidade histórica. Para uma instituição educativa, essa categoria é especialmente fecunda: mudar não é abandonar a origem, mas reencontrá-la de modo mais verdadeiro em um cenário novo. 

Travessia institucional é isso: passar de um estágio de dispersão ou reatividade para um estágio de maior coerência entre identidade, cultura, gestão e missão. 

É aqui que entra a liderança profética servidora. Nem toda liderança serve para a travessia. Há lideranças que apenas mantêm estruturas; há outras que concentram poder; há ainda as que produzem movimento sem direção. A liderança de que uma obra educativa precisa é outra: uma liderança que lê o tempo, sustenta o sentido, organiza a passagem, cuida das pessoas e decide com responsabilidade. A liderança marista, profética e servidora é clara ao apresentar esse modelo como resposta a um mundo emergente: trata-se de uma liderança capaz de integrar processos, gerar respostas, trabalhar em rede, formar corresponsabilidade e empoderar comunidades. Não é, portanto, uma liderança decorativa nem apenas inspiracional. É uma liderança concreta, com densidade humana e capacidade institucional. Seu ponto distintivo é que a autoridade deixa de ser instrumento de autopreservação e se torna forma de serviço (CONSIGLI; GUTIÉRREZ, 2022, p. 29-33). 

No fundo, essa é uma leitura profundamente evangélica da autoridade. Jesus não recusa a autoridade; ele a purifica: “Não deve ser assim entre vós” (Mc 10,42-45). Essa exigência de Jesus revela a sua ruptura com toda forma de domínio que se absolutiza. O acontecimento do lava-pés (Jo 13,12-16), por exemplo, nesse sentido, não é apenas gesto moral; é redefinição do governo.

Quem conduz, conduz servindo. Quem recebe poder, recebe responsabilidade. Quem assume missão, assume também a obrigação de não transformar pessoas em meios. Em linguagem organizacional, isso tem um efeito importante: o líder cristão não é alguém sem firmeza, mas alguém que sabe que a firmeza perde legitimidade quando deixa de ser ordenada ao bem das pessoas e ao propósito comum. A liderança servidora não enfraquece a governança; ela a torna moralmente habitável (CONSIGLI; GUTIÉRREZ, 2022, p. 22-27). 

A tradição marista acrescenta a essa visão uma dimensão decisiva: a presença. Não basta liderar por documentos, fluxos ou metas. O estilo marista lembra que a presença é forma de educar e também forma de governar. Presença, aqui, não significa vigilância excessiva nem proximidade invasiva; significa estar de modo significativo, com escuta, atenção, diálogo e capacidade de gerar confiança. Em tempos de mudança institucional, esse traço ganha ainda mais importância. Equipes cansadas, unidades em transição, conflitos silenciosos, perda de sentido, sobrecarga operacional e ruídos culturais não se resolvem apenas com boa planilha. Resolvem-se também com liderança que aparece, escuta, percebe, acompanha e dá nome ao que está em jogo. A presença é uma tecnologia humana da missão. E, quando bem vivida, evita tanto a frieza burocrática quanto a dispersão afetiva (SÁNCHEZ BARBA, 2022, p. 39-43). 

Nessa mesma linha, a imagem de Maria em Caná é extraordinariamente atual. Ela percebe a falta antes do colapso público: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Há aí uma pedagogia da liderança que interessa muito a uma organização educativa. Liderar não é apenas reagir a problemas já explodidos; é perceber faltas em formação, cultura, processos, vínculos e recursos antes que a realidade se rompa. Isso vale para pessoas, para equipes e para a própria estratégia. Uma liderança madura percebe o que está faltando: clareza, alinhamento, consistência, escuta, horizonte, energia, governança. E age sem espetáculo. A tradição marista, ao reler essa passagem, oferece um modelo muito fecundo para o ambiente corporativo-educativo: proximidade sem pieguismo, compaixão sem paternalismo, iniciativa sem protagonismo (VICARIO, 2022, p. 70-83). 

Chegamos então ao ponto mais sensível: o uso evangélico dos bens. Aqui está uma das contribuições mais importantes dessa reflexão. O Evangelho não canoniza o desperdício. Também não santifica a desorganização. O que ele faz é purificar a finalidade dos bens. O Concílio Vaticano II afirma que Deus destinou a terra e tudo o que ela contém ao uso de todos e que a propriedade tem índole social (CONCÍLIO VATICANO II, 1965, n. 69 e 71); Francisco retomou esse ponto ao lembrar que o direito de propriedade privada é secundário e derivado em relação ao destino universal dos bens (FRANCISCO, 2020, n. 120); Bento XVI insiste que a atividade econômica não pode resolver tudo pela simples lógica mercantil, porque deve estar orientada ao bem comum (BENTO XVI, 2009, n. 36). A proposta de liderança marista profética e servidora converge com essa tradição quando diz que os encarregados dos bens devem zelar por eles inspirados pela missão, atentos ao bem comum, à justiça, à pobreza, à caridade e à missão do Instituto (GARZÓN DUQUE, 2022, p. 168-169). Aqui está uma chave decisiva para a FTD e para qualquer obra educativa católica: análise de rentabilidade, visão preditiva, disciplina orçamentária e sustentabilidade não são contrários ao uso evangélico dos bens; tornam-se legítimos quando servem à missão, à perenidade da obra, ao cuidado das pessoas e ao bem comum. 

Isso muda o sentido da própria gestão. Administrar não é apenas controlar recursos; é custodiar meios confiados para um fim maior. Nesse ponto, a linguagem empresarial precisa ser acolhida e, ao mesmo tempo, convertida. Rentabilidade deixa de ser um fim soberano e passa a ser um critério de sustentabilidade. Preditividade deixa de ser obsessão por controle e se torna leitura responsável de cenários. Senso de dono deixa de significar apropriação e passa a significar cuidado por aquilo que não me pertence em sentido último, mas me foi confiado. Numa obra educativa, isso é crucial. Uma instituição que não lê sua sustentabilidade corre o risco de comprometer o futuro da missão; mas uma instituição que absolutiza a lógica dos resultados corre o risco de salvar a estrutura e perder a alma. A questão, portanto, não é gestão ou Evangelho. A questão é: que tipo de gestão honra o Evangelho? (GARZÓN DUQUE, 2022, p. 168-171). 

É aqui que a inteligência profética servidora se revela tão necessária. O profeta, na Bíblia, não é apenas o denunciante moral; é também aquele que enxerga a virada histórica antes dos outros. O capítulo Sentinelas da aurora, em Vozes Maristas, retoma exatamente isso: a previsão como capacidade de perceber mudanças profundas e preparar respostas à altura (TURÚ, 2022, p. 151-152). Em ambiente institucional, essa visão é decisiva. Organizações que apenas reagem perdem tempo, energia e consistência. Organizações que preveem, discernem e se preparam conseguem atravessar melhor fases de transição.

Mas, para a tradição cristã, prever não é simplesmente dominar dados. É ler o presente à luz de um futuro possível e fiel à missão. Uma obra educativa católica precisa dessa inteligência ampliada: leitura de cenário, sim; análise de risco, sim; mas também discernimento cultural, leitura humana, atenção ao espírito do tempo e liberdade diante das modas. 

Tudo isso exige um critério interior. Nem toda decisão eficaz é boa. Nem toda inovação é justa. Nem todo corte é prudente. Nem todo crescimento é sinal de fecundidade. Por isso, a sabedoria ética e espiritual não aparece como apêndice devocional da gestão, mas como seu critério de julgamento. Ela é o que impede a instituição de se deixar capturar pela eficiência sem verdade. É o que permite perguntar, diante de uma decisão: isto é sustentável, mas também é justo? Isto melhora a performance, mas também melhora a vida? Isto fortalece a obra, mas também honra a missão? Quando uma organização aprende a fazer essas perguntas, a estratégia amadurece. Ela deixa de ser puro cálculo e se torna discernimento responsável (GUTIÉRREZ, 2022, p. 357-359). 

Por fim, nada disso se sustenta sem formação e cultura institucional. A travessia não depende apenas de líderes fortes; depende de comunidades formadas. A liderança marista, profética e servidora, olha atentamente para a formação permanente e para o papel da Educação Superior Marista como lugar de cultivo da liderança profética servidora (MORIANA, 2022, p. 397-416; TEIXEIRA; MENTGES, 2022, p. 417-436). A lição é clara: liderança não se improvisa. Ela precisa ser identificada, acompanhada, formada e renovada.

Para a FTD, isso significa algo muito concreto: não basta ter bons profissionais; é preciso formar uma linguagem comum, critérios comuns, memória comum e hábitos de corresponsabilidade. Quando a cultura institucional é forte, a missão atravessa melhor as mudanças. Quando a cultura é frágil, qualquer pressão externa desorganiza o centro da obra. E é justamente nesse ponto que a Educação aparece em sua grandeza própria: formar não é um setor da missão; é a própria forma como a missão cria futuro. 

Em síntese,a travessia institucional de uma obra educativa católica pede mais do que boa vontade, discurso inspirador ou capacidade técnica isolada.

Pede liderança profética servidora, presença real, inteligência estratégica, uso evangélico dos bens, sabedoria ética e cultura de formação. Essa integração é exigente, mas é também fecunda.

Ela permite que a instituição seja contemporânea sem ser superficial, eficiente sem ser fria, fiel sem ser rígida, organizada sem ser burocrática. É justamente aqui que as palavras de São Marcelino Champagnat, em sua 14ª carta, retomam toda a sua força.

Quando uma obra educativa conduz pessoas,bens, processos e esperança a serviço da vida, então o trabalho deixa de ser mero funcionamento e recupera sua dignidade mais alta. 

Aí, sim, pode-se dizer, sem exagero e sem ornamento: “é sublime o trabalho que vocês fazem”. 

Bibliografia 

BENTO XVI, papa. Carta encíclica Caritas in veritate: sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Vaticano, 29 jun. 2009. Disponível em: https://www.vatican.va/content/benedict-xvi/pt/encyclicals/documents/hf_ben-xvi_enc_20090629_caritas-in-veritate.html. Acesso em: 17 abr. 2026. 

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição dogmática Lumen gentium: sobre a Igreja. Vaticano, 21 nov. 1964. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19641121_lumen-gentium_po.html. Acesso em: 17 abr. 2026. 

CONCÍLIO VATICANO II. Constituição pastoral Gaudium et spes: sobre a Igreja no mundo atual. Vaticano, 7 dez. 1965. Disponível em: https://www.vatican.va/archive/hist_councils/ii_vatican_council/documents/vat-ii_const_19651207_gaudium-et-spes_po.html. Acesso em: 17 abr. 2026. 

CONSIGLI, Benjamin; GUTIÉRREZ, Luis Carlos. Introdução à liderança profética e servidora: chamada e propósito. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 21-35. 

FRANCISCO, papa. Carta encíclica Fratelli tutti: sobre a fraternidade e a amizade social. Vaticano, 3 out. 2020. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/encyclicals/documents/papa-francesco_20201003_enciclica-fratelli-tutti.html. Acesso em: 17 abr. 2026. 

GARZÓN DUQUE, Libardo. Administração e gestão na liderança servidora. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 167-182. 

GUTIÉRREZ, Luis Carlos. A sabedoria ética e espiritual na liderança. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 357-396. 

MORIANA, Chano Guzmán. Formação e formação permanente para um mundo emergente. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 397-416. 

SÁNCHEZ BARBA, Ernesto. A relevância da presença na liderança marista. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 37-52. 

TEIXEIRA, Evilazio Francisco Borges; MENTGES, Manuir José. A educação superior marista na perspectiva do serviço. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 417-436. 

TURÚ, Emili. Sentinelas da aurora: pre-ver: a imaginação profética. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 151-166. 

VICARIO, Óscar Martín. A liderança da empatia, do serviço e da compaixão: Filho, eles não têm vinho. In: INSTITUTO DOS IRMÃOS MARISTAS; MEMORIAL MARISTA. Vozes Maristas: ensaios sobre liderança profética e servidora. 2. ed. Curitiba: Instituto dos Irmãos Maristas; Memorial Marista, 2022. p. 69-88. 

Julio Souza
Júlio Souza. Casado, Mestre em Teologia Sistemática pela PUC-Rio, Bacharel em Teologia, Especialista em Educação e entusiasta da aviação. Atualmente é estudante de MBA em Gestão de Projetos pela FGV; Tutor no EAD de Iniciação Teológica da PUC-Rio; Consultor Especialista para as Mantenedoras, Redes e Escolas Católicas no Brasil pela Editora FTD Educação. leia também […]
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