Do Celtic FC à Copa do Mundo: quando o futebol e a Educação Católica se unem em missão
Há histórias que começam como curiosidade e terminam como convite. Esta é uma delas: uma bola, um Irmão marista, crianças com fome, uma comunidade migrante e uma missão educativa capaz de atravessar o tempo.
Uma descoberta que nasceu de uma conversa
Não sou especialista em esportes. Na verdade, sou pouco conhecedor do assunto. Talvez por isso, quando uma história do futebol revela algo profundo sobre educação, missão e cuidado com a vida, ela me chama ainda mais a atenção. Foi o que aconteceu quando descobri que um dos clubes mais tradicionais da Escócia nasceu da iniciativa de um Irmão Marista.
Conheci melhor essa história em uma conversa propositiva com meu amigo Alex da Graça Lima, do Colégio Marista Champagnat, de Ribeirão Preto. Falávamos sobre a pastoral e as boas influências da Educação Católica em diferentes esferas da vida. Não apenas no campo religioso, mas na formação da pessoa inteira: na maneira de olhar o mundo, de construir projetos de vida, de cuidar das pessoas e de responder, com criatividade e coragem, às necessidades de cada tempo.
O pano de fundo da conversa era a missão marista. Desde Marcelino Champagnat, o desejo de tornar Jesus Cristo conhecido e amado se expressa em presença, simplicidade, espírito de família, amor ao trabalho e atenção especial às crianças e aos jovens, sobretudo os mais vulneráveis. Em pouco mais de dois séculos, essa missão se espalhou por muitos países, com escolas, obras sociais, universidades, centros de evangelização, projetos de solidariedade, editoras, hospitais e tantas outras formas de servir.
E, sim, também chegou ao futebol.
Quando o futebol e a Educação Católica se unem em missão
O Celtic Football Club foi formalmente constituído em Glasgow, em 1887, por iniciativa de um Irmão marista, o Ir. Walfrid, marista irlandês atento à realidade de pobreza vivida por imigrantes e famílias vulneráveis. O objetivo inicial era arrecadar recursos para alimentar crianças pobres e favorecer a integração de pessoas recém-chegadas que encontravam dificuldade para trabalhar e participar da vida social.
Antes de ser estádio, torcida, alcançar títulos e a tradição esportiva, o Celtic nasceu como resposta a uma pergunta profundamente educativa: O que podemos fazer diante da fome, da exclusão e da solidão de uma comunidade?
Essa pergunta continua atual. Ela toca o coração da Educação Católica porque mostra que educar não é apenas transmitir conteúdos, cumprir calendários ou preparar avaliações. Educar é uma obra de amor, como São Marcelino Champagnat nos ensinou. Educar é formar pessoas capazes de reconhecer a realidade, compadecer-se, organizar respostas e transformar boas intenções em gestos concretos. O Ir. Walfrid viu no futebol uma linguagem capaz de reunir pessoas, despertar pertencimento e sustentar uma obra de solidariedade. O futebol, naquele contexto, tornou-se instrumento de cuidado.
A fé educa o olhar
A história do Celtic ajuda a escola a recuperar uma verdade simples: os grandes projetos educativos surgem quando alguém olha para a vida real e se recusa a permanecer indiferente. Há uma diferença enorme entre ensinar solidariedade como tema e criar experiências em que a solidariedade possa ser praticada. O Ir. Walfrid não organizou apenas uma ideia bonita. Ele mobilizou pessoas, aproximou culturas, buscou recursos e deu forma comunitária a uma necessidade concreta.
Esse é um ponto precioso para as escolas católicas. A identidade confessional não se reduz a símbolos, celebrações ou conteúdos religiosos. Ela se expressa, sobretudo, no modo como a comunidade educativa percebe a dignidade humana e responde às fragilidades do seu entorno. A fé educa o olhar. E, quando o olhar é educado pela fé, uma quadra, uma sala, um pátio, uma campanha, uma aula ou até uma partida de futebol podem se tornar lugar de missão.
Em uma leitura marista, isso tem um sabor ainda mais familiar. Champagnat acreditava na presença simples, próxima e concreta. Não uma presença distante, formal ou apenas discursiva, mas uma presença que conhece nomes, histórias e necessidades. O futebol, na experiência do Celtic, tornou-se uma dessas mediações simples: acessível, popular, comunitária e capaz de reunir pessoas diferentes em torno de uma causa comum.
O Vaticano e o esporte como cultura do encontro
O mesmo propósito educativo e, por que não dizer, missionário, é encontrado no Sport in Vaticano. Embora a Cidade do Vaticano não tenha uma seleção participante da Copa do Mundo, apesar de já ter recebido este convite, existe uma tradição esportiva vaticana, com atividades de futebol, representativas masculina e feminina, campeonatos internos, eventos beneficentes e iniciativas de convivência. O site Sport in Vaticano sintetiza que o esporte é instrumento para construir a cultura do encontro.
Essa síntese merece atenção das escolas. O esporte pode formar ou deformar, dependendo do modo como é vivido. Quando se transforma em humilhação, agressividade, idolatria do desempenho ou rejeição do adversário, perde sua força educativa. Mas, quando é vivido com respeito, fair play, inclusão, cuidado com quem tem menos habilidade, acolhida das diferenças e alegria partilhada, torna-se escola de humanidade.
Nesse sentido, o Vaticano nos ajuda a recolocar o esporte no lugar certo: não como fim absoluto, mas como caminho de fraternidade, disciplina, convivência e amizade social. A vitória tem valor, mas não vale mais do que a dignidade. A competição pode ser intensa, mas não pode apagar o rosto do outro. O adversário não é inimigo; é quem revela a dignidade do jogo.
A Copa do Mundo como sala de aula ampliada
A Copa do Mundo amplia essa reflexão porque põe o planeta em movimento. A edição de 2026 é a primeira com 48 seleções, 104 partidas e três países-sede: Canadá, México e Estados Unidos. Em uma única competição, entram em campo países, línguas, bandeiras, culturas, memórias, desigualdades, talentos, rivalidades, dores e sonhos. Para muitas crianças e jovens, a Copa é uma das primeiras experiências de curiosidade concreta pelo mundo: Onde fica esse país? Como é sua bandeira? Qual é o seu idioma? Como é a sua realidade? Qual é a história dessa seleção?
A escola pode aproveitar esse interesse espontâneo para abrir janelas de aprendizagem. A Geografia pode trabalhar territórios, fronteiras, clima, população e migrações. A História pode abordar identidades nacionais, colonialismos, conflitos, superações e memória dos povos. A Língua Portuguesa pode analisar narrativas esportivas, crônicas, entrevistas, discursos de torcida e fake news. A Matemática pode explorar estatísticas, tabelas, probabilidades e leitura de dados. A Educação Física pode aprofundar corpo, saúde, cooperação, regras e fair play. O Ensino Religioso e a formação humana podem refletir sobre dignidade, fraternidade, justiça, paz, respeito e bem comum. A Filosofia pode ajudar os estudantes a pensar sobre ética, respeito, limites, sentido da vitória, valor da derrota e importância do adversário, mostrando que a competição também pode ser uma experiência de humanidade.
A FIFA também tem buscado associar a Copa de 2026 a campanhas de impacto social, com mensagens ligadas à unidade, à paz, à educação, ao combate ao racismo e à promoção de hábitos saudáveis entre crianças e jovens. Para a escola, isso reforça uma convicção: o futebol é um espetáculo que possibilita a boa formação da consciência, entre tantos outros atributos significativos para a formação humana.
Essa história não é mera curiosidade esportiva
Na tradição marista, a escola é mais do que um lugar de aprendizagem acadêmica. É espaço de vida, evangelização, convivência e crescimento integral. Educar, nesse horizonte, é ajudar cada estudante a aprender a conhecer, a fazer, a conviver e, sobretudo, a crescer como pessoa. A Educação Católica não separa fé, cultura e vida. Ela procura harmonizar esses campos para que o estudante descubra sentido, responsabilidade e compromisso com o mundo.
Por isso, a história do Celtic FC não é apenas uma curiosidade esportiva. Ela mostra que a fé, quando educa o olhar, encontra caminhos concretos para cuidar da vida. O Irmão Walfrid não criou uma aula teórica sobre solidariedade. Criou uma resposta. Reuniu pessoas. Mobilizou uma comunidade. Transformou esporte em serviço. Essa é uma bela imagem da missão educativa: perceber uma necessidade e fazer nascer uma possibilidade.
A Copa do Mundo, nesse contexto, pode ser assumida pelas escolas católicas como uma oportunidade de formação integral. Não se trata apenas de decorar corredores com bandeiras ou organizar torneios. Trata-se de perguntar: Que valores queremos aprender enquanto o mundo joga? Que atitudes queremos cultivar enquanto torcemos? Quem precisa ser cuidado? Como podemos transformar entusiasmo em compromisso?
Propostas para transformar a Copa em experiência educativa
Inspiradas pelo Celtic FC, as escolas podem organizar uma Campanha Ir. Walfrid durante a Copa: arrecadação de alimentos, apoio a instituições locais, cuidado com famílias em situação de vulnerabilidade ou ações de combate à fome. O importante é que a atividade não seja apenas simbólica. Ela precisa tocar a realidade da comunidade e ajudar os estudantes a perceber que solidariedade se aprende praticando.
Inspiradas pelo Sport in Vaticano, as escolas podem criar um Pacto da Cultura do Encontro para jogos, torneios e momentos de torcida: torcer sem ofender, competir sem humilhar, respeitar regras, acolher quem tem menos habilidade, incluir meninas e meninos com igualdade de participação, rejeitar qualquer forma de racismo, capacitismo, xenofobia ou violência verbal. Esse pacto pode ser construído com os próprios estudantes, para que não seja apenas uma norma imposta, mas um compromisso assumido.
Inspiradas pela Copa do Mundo, as escolas podem promover uma Copa de Valores. Cada turma escolhe uma seleção participante, pesquisa sua cultura, sua história, seus desafios sociais, sua música, sua geografia, sua culinária, suas expressões religiosas e seus modos de viver. Ao mesmo tempo, cada turma assume um valor formativo: respeito, justiça, paz, cooperação, solidariedade, inclusão ou cuidado. No final, a pesquisa se transforma em exposição, roda de conversa, ação social, produção textual, apresentação artística ou projeto interdisciplinar.
Outra iniciativa possível é a Torcida que Educa, envolvendo estudantes, famílias e educadores. A proposta é simples: refletir sobre como adultos torcem, comentam jogos, tratam adversários e lidam com vitórias e derrotas. A arquibancada também educa. Muitas vezes, o modo como uma criança aprende a ganhar e a perder começa na fala dos adultos que a acompanham.
Para escolas não confessionais, essas mesmas propostas podem ser trabalhadas em chave ética e cidadã. A linguagem pode mudar, mas o horizonte permanece: convivência democrática, respeito às diferenças, cultura de paz, inclusão, leitura crítica da mídia, combate ao racismo, saúde emocional e responsabilidade social. O futebol é uma linguagem comum; a Educação pode transformá-lo em experiência de humanização.
Um Irmão marista, um time, uma missão e a mesma oportunidade
No fim, a história do Celtic FC, a experiência esportiva do Vaticano e a força global da Copa do Mundo nos recordam algo simples e profundo: o futebol pode ser muito maior do que o placar. Ele pode dividir, mas também pode aproximar. Pode alimentar rivalidades, mas também pode construir pontes. Pode ser apenas consumo, mas também pode se tornar encontro, cuidado e formação integral.
Na Educação Católica, esse olhar ganha ainda mais profundidade porque todo espaço humano pode se tornar educativo quando é orientado pela dignidade da pessoa, pelo cuidado com os pequenos, pela simplicidade, pelo espírito de família e pelo compromisso com o bem comum.
Um Irmão Marista viu, em uma bola, uma oportunidade de alimentar crianças, integrar uma comunidade e dar esperança a quem precisava de presença. Talvez essa seja a melhor parte da história: ela continua perguntando a nós, educadores, o que ainda podemos fazer com as linguagens do nosso tempo. Um Irmão marista, um time e a mesma missão: tornar Jesus Cristo conhecido e amado. Na Antioquia, entre 48 e 49 d.C. recebemos o nome de cristãos que significa outros Cristos. Esta é a lição. Tornar Jesus Cristo conhecido e amado se traduz nisso, em sermos como ele é. As pessoas e o mundo têm muito a ganhar com Cristo, por isso, conhecendo-o, certamente irão desejar amá-lo.
Enquanto a bola rola, o mundo presta atenção. Que bom seria se, também nesse momento, a escola ajudasse cada estudante a aprender que o melhor jogo é aquele em que todos crescem, todos cabem e todos descobrem que viver pode ser uma grande missão compartilhada.
Sugestões de ações integradas para escolas
- Campanha Walfrid: arrecadação de alimentos, apoio a instituições locais e ações de combate à fome, conectando futebol, solidariedade e cuidado com a comunidade.
- Pacto da Cultura do Encontro: construção coletiva de atitudes para jogos e torcidas: respeito, fair play, inclusão, linguagem não violenta e rejeição a toda forma de discriminação.
- Copa de Valores: projeto interdisciplinar em que cada turma pesquisa um país e assume um valor formativo para transformar em ação concreta.
- Torcida que Educa: envolvimento das famílias para refletir sobre o modo como adultos torcem, falam dos adversários e educam crianças para ganhar e perder com dignidade.
- Mapa vivo do mundo: exposição cultural com países, línguas, histórias, músicas, culinárias, desafios sociais e contribuições para a humanidade.








