avós de Jesus
Conteúdo Confessional Educador

Os avós maternos e paternos de Jesus, a literatura e a aviação? 

Por Julio Souza

Estimativa de leitura: 12min 47seg

29 de julho de 2025

Quem são os avós maternos e paternos de Jesus? Vamos conhecê-los? Convido você a navegar comigo neste conteúdo, como em um voo panorâmico, mas em  vez de avistarmos as paisagens da natureza ou de alguma cidade, vamos passear por alguns conteúdos em busca de uma resposta clara e honesta, contemplar algumas das mais belas paisagens que a literatura e a fé podem nos proporcionar. Tudo foi organizado como em um voo panorâmico, então, ajuste bem o cinto, prepare a câmera de sua memória e vamos decolar. 

Vamos preparar o voo 

Antes de iniciarmos nossa aventura literária, vamos preparar o voo. Como fazemos no plano de voo mesmo? Estudar toda a região que vamos sobrevoar, para navegar com segurança. Todo o voo tem uma missão: sobrevoar a cidade, uma grande área, um passeio panorâmico. Nossa missão, nesta analogia, será responder à pergunta: “quem são os avós maternos e paternos de Jesus?”.

A pista de decolagem serão os Evangelhos segundo Mateus, segundo Lucas e o Proto-evangelho de Tiago, do século II; vamos navegar pelos textos e seus gêneros literários e pousar com auxílio do Magistério vivo da Igreja, por fim, vamos registrar o que aprendemos no Diário de Bordo, como na aviação mesmo, onde as informações do voo, dificuldades encontradas, soluções, condições meteorológicas, são devidamente registradas e utilizadas como aprendizagens para os próximos voos. 

Vamos taxiar nosso avião 

Na aviação, taxiar significa pilotar a aeronave para a pista e posicioná-la para decolagem. Em nossa analogia, este movimento será realizado pelo entendimento dos gêneros literários. 

Os Evangelhos são, em primeiro lugar, um gênero literário entre outros tantos – o que, de modo algum, desvalida o conteúdo que deseja comunicar, a saber a salvação do mundo através de Jesus Cristo – portanto, uma literatura propositiva com um simples objetivo de comunicar o conteúdo da fé cristã, anunciada por Jesus Cristo e transmitida pelos Apóstolos. 

Vamos decolar 

Para decolar a aeronave, o piloto precisa de duas importantes marcações: a V1 e a V2, em um resumo bastante raso (apenas para brincar com as ideias) são as marcas de velocidades que vão indicar o momento exato de decolar. Vamos chamar de V1 os textos canônicos de Mt 1,16 e Lc 3,23 sobre os pais de São José e de V2 os capítulos de 1 a 4 do Protoevangelho de Tiago sobre os pais da Virgem Maria, Mãe de Jesus, nossa Boa Mãe. 

Vamos navegar 

Em toda navegação, os pilotos marcam pontos de referência que os auxiliam. Nesta leitura, vamos navegar pelos principais pontos dos Evangelhos sobre os avós maternos e paternos de Jesus, sempre considerando seu gênero literário, depois seguiremos brevemente e, de forma rasa, por uma breve interpretação dos textos, por fim, como todo voo panorâmico, retornaremos ao ponto de partida, pousando com o auxílio do Magistério vivo da Igreja. 

Os textos apresentam personagens mais conhecidos como Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria, avós de Jesus e, personagens que podem passar desapercebidos em nossas leituras, como Jacó e Heli. Ao ler os textos, logo solicitei apoio a dois biblistas que considero como importantes amigos em minha jornada, o professor João Fedel e o professor Carlos Vasquez, pessoas com quem tenho a honra de poder dividir alguns trabalhos. Eles me ajudaram a compilar a melhor forma de poder apresentar os personagens Jacó e Heli, que vamos entender logo à frente, mas para a navegação, extraímos os seguintes conteúdos: a relevância de entender os gêneros literários, a importância de buscar o conteúdo que o texto deseja comunicar e valor presente em uma boa leitura a que me proponho no presente artigo. 

Entendemos que o Evangelho é um gênero literário singular que tem por objetivo comunicar os ensinamentos de Jesus anunciado pelos Apóstolos, usando hipérboles, parábolas, releituras de textos sagrados antigos, logo, então, não seria honesto esperar do texto dos Evangelhos uma comunicação científica, meramente biográfica. Mateus quer demostrar uma sequência de gerações descendentes, passado por 14 gerações de Abraão até Davi, outras 14 gerações de Davi até o Exílio na Babilónia e mais 14 gerações do Exílio na Babilônia até Jesus (Mt 1,17), Lucas por sua vez, trabalha de uma forma diferente, ele apresenta as gerações de forma ascendente, começa por José e passa para Heli, seguindo até Adão. 

As genealogias divergentes dos textos foram construídas tendo em vista uma teologia, que vai veicular a pessoa de Jesus Cristo com a salvação do mundo, enquanto Lucas quer apresentar uma visão universalista, Mateus quer apresentar uma versão Judaica das origens de Jesus, uma intenção teológica dos autores e não biográfica. Chegamos a um ponto da navegação que vou classificar como uma “leve turbulência literária”. Acalme-se, a turbulência está à vista, mas ainda não chegamos a ela, vamos passar pelo Protoevangelho de Tiago primeiro. 

Em um breve resumo dos quatro primeiros capítulos do Protoevangelho de Tiago, evangelho apócrifo escrito em meados do século II, provavelmente na região da Síria, Egito ou Palestina, o texto apresenta a história do nascimento de Maria, a Mãe de Jesus. Para entender bem o texto, voltamos ao seu gênero literário, o Evangelho, de novo, o Evangelho não é a mesma coisa que uma biografia, gênero literário que narra a história de vida de uma pessoa, o Evangelho, como já dito antes, tem o objetivo de comunicar os ensinamentos de Jesus transmitido pelos Apóstolos, tendo isto em mente, continuamos nossa navegação. 

Os quatro primeiros capítulos do Protoevangelho de Tiago ao contar como nasceu a Mãe de Jesus, comunica o ensinamento teológico deste nascimento. Santa Ana, esposa de São Joaquim, não podia engravidar. Certa vez, ela se encontrava triste quando recebeu a visita de um Anjo (Protoevangelho de Tiago 3, 1-2), o Anjo também havia aparecido a São Joaquim para anunciar o nascimento de Maria, a Mãe de Jesus (Protoevangelho de Tiago 2,1-14). Três anos após o nascimento de Maria, Joaquim e Ana decidiram dedicá-la ao Templo onde foi preservada em sua pureza (Protoevangelho de Tiago 6,1-8). Novamente convém lembrar que este gênero literário não é biográfico, mas teológico, portanto, seus conteúdos transmitem mensagens relacionadas à salvação do mundo em Jesus Cristo e não a uma narrativa biográfica ou histórica. 

Outro fato intrigante é que, nem nos textos canônicos, nem nos apócrifos há uma referência à mãe de São José. Chegamos ao ponto turbulento, mas calma! Aperte os cintos e não tenha medo. Assim como turbulência não derruba avião, da mesma forma, a “turbulência literária” (permitam-me o trocadilho) não derruba o conteúdo que o texto comunica. 

“Leve turbulência literária” 

A leve e rotineira turbulência que acompanha a maioria das navegações também pode ser encontrada nas literaturas. E isso é esperado. Na verdade, durante o planejamento do voo, o piloto já identifica as turbulências e entende se será leve, moderada, severa ou extrema, além de entender se será ou não possível atravessá-la, enfim, na literatura não é diferente. Ao comparar os textos de Mateus, Lucas e o Protoevangelho de Tiago em busca de informações sobre os avós de Jesus, encontramos uma dessas “leves turbulências literárias”. Faltam informações e as que existem não são biográficas, cientificas ou históricas, não significa que não existiram, significa apenas a intenção dos autores em conformidade com o gênero literário escolhido para comunicar o seu conteúdo. 

Chegamos ao momento central deste artigo, nosso desejo de enfatizar a importância prática da literatura para os estudantes e seus efeitos em todos os aspectos de nossas vidas. Entender os gêneros literários como o Evangelho, a poesia, o romance, a biografia, as crônicas, ajuda a compreender o conteúdo comunicado no texto. Por exemplo, na genealogia de Mateus, o pai de José é chamado de Jacó: “E Jacó gerou José, o esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, que é chamado Cristo” (Mt 1,16), já no texto de Lucas, Heli: “Jesus […] era, segundo se pensava, filho de José, filho de Heli…” (Lc 3,23). E agora?! Eis a “leve turbulência literária”. 

A aparente contradição entre as narrativas, foi observada e estudada já no século II entre os chamados Padres da Igreja (primeiros teólogos cristãos) com Júlio Africano (meu xará) e, nos séculos IV com Eusébio de Cesareia (265-339) e V, com Santo Agostinho (354 – 430) que, baseados em Júlio Africano, propuseram uma explicação que pretendia respeitar a autoridade das duas tradições genealógicas presentes nos Evangelhos segundo Mateus e Lucas (EUSÉBIO, C. História Eclesiástica).

Segundo eles, Jacó e Heli seriam meio-irmãos e que um deles teria morrido sem filhos, e o outro se casou com a viúva de seu irmão, seguindo a lei do levirato (Dt 25,5-6), gerando José, que assim seria “filho legal” de um e “filho natural” de outro. Em todos os casos, os textos revelam o objetivo comum em demostrar a salvação do mundo em Jesus Cristo, seja partindo de Abraão o pai da fé, ou de Adão, o velho homem por quem veio o pecado, a perdição. As genealogias não se reduzem à mera lista de personagens de uma história, mas, são, na verdade, uma profissão de fé em Cristo, aquele em quem se cumprem as antigas promessas, o novo Adão, por quem vem a redenção, a salvação do mundo. 

Saindo da turbulência 

Ao compreender a importância de considerar os gêneros literários em qualquer leitura, nos damos conta de quanto temos a ganhar neste exercício. A turbulência passou, foi leve, entendemos que tanto a contradição nos textos, quanto a falta de algumas informações não interferem no conteúdo a ser comunicado, apenas demonstra a real intenção e o principal foco de seus autores.

Os Evangelhos são, como vimos, um gênero literário, assim como a biografia, se houvesse uma preocupação biográfica, certamente esses elementos faltantes ou mesmo contraditórios, teriam recebido um melhor tratamento, haveria o devido cuidado de trazer à tona tais informações, como se trata dos ensinamentos de Jesus transmitidos pelos Apóstolos, tais elementos tornam-se secundários e, outros tantos, como hipérboles e parábolas, importam pelo significado teológico que carregam e não científicos, ou mesmo literais.  

A Bíblia antes de ser escrita foi vivida, transmitida e celebrada, isso precisa ser levado em consideração. Outros gêneros literários presentes na Bíblia, além do gênero Evangelho, são as poesias, os salmos, as canções, entre tantos outros. A literatura tem por objetivo comunicar de forma artística, simbólica ou crítica a experiência humana, o conhecimento, a moral, despertar a imaginação, o prazer, a reflexão, as emoções, as ideias e valores por meio das palavras. 

Vamos pousar 

Chegamos ao momento do pouso. É hora de acalmar os ânimos da leve turbulência e da navegação. O momento em que vamos finalizar nosso passeio. No que diz respeito aos avós de Jesus descobrimos elementos interessantes: a intenção das genealogias; o relato do século II sobre os avós maternos; a informação incompleta sobre os avós paternos e um importante aprendizado que vamos registrar em nosso diário de bordo, na conclusão. Mas antes de registrar o aprendizado, para auxiliar no pouso, ou seja, na finalização deste singelo artigo, vamos ver a orientação do Magistério vivo da Igreja. 

Na aviação usamos a carta de aproximação, usada para voos por instrumento, mas também pode ser útil para voos visuais. Esta carta de aproximação é publicada pelo Departamento de Controle do Espaço Aéreo – Decea, neste artigo, também usaremos uma instrução, a Constituição Dogmática Dei Verbum do Concilio Vaticano II, publicada pelo Magistério vivo da Igreja, ou seja, o Colegiado de bispos da Igreja. Segundo a Dei Verbum, as Sagradas Escrituras devem ser lidas com atenção ao seu conteúdo e sua unidade, sempre à luz da Tradição viva da Igreja e da analogia da fé, jamais de forma literal (DV 12).  

Diário de bordo 

Após o pouso é feito o check-list final, vamos guardar nosso pequeno avião e registrar no Diário de Bordo tudo o que for relevante, inclusive o que passamos na leve turbulência. Tudo ficará devidamente registrado. Então, como vimos, uma leitura fundamentalista, ou seja, uma leitura sem a noção do gênero literário, nos levaria a conclusões equivocadas, podendo insinuar até mesmo contradições bíblicas e de conteúdos da fé, possibilitando ainda um estudo capcioso, que induz a graves equívocos capazes de esvaziar o conteúdo dos ensinamentos de Cristo aos Apóstolos. 

Aprendemos nesta viagem algo muito importante sobre nossas vidas: quais são as nossas raízes? Quais são as nossas origens? Ainda que tenhamos avós desconhecidos, semelhantes à mãe de São José, ou mesmo histórias contraditórias como a de seus pais, Jacó ou Heli, ou ainda como a história de São Joaquim e Santa Ana, a vida transmitida a cada um de nós tem o seu valor, sua significância, sua teologia, sua poesia, seu drama, suas crônicas e merecem toda nossa atenção. A literatura é uma das melhores ferramentas para nos ajudar a encontrar o sentido de nossas vidas, aventure-se, leia. 

Aos avós, registro aqui, neste Diário de Bordo os nossos mais sinceros agradecimentos por suas vidas, o nosso reconhecimento, o nosso respeito. Ainda que muitos de nós tenhamos pouca ou quase nenhuma convivência com nossos avós, a relevância deles, a história que vivenciaram, os causos e resenhas que escreveram em suas vidas, trazem ensinamentos profundos. Conheça a história de seus avós, permita-se surpreender-se. 

Conclusão 

Este artigo foi proposto como uma leitura para o final do período de férias. Uma brincadeira divertida, onde procurei reunir meu trabalho na Educação, numa tentativa de destacar a relevância e a prática da literatura, com minha área favorita de pesquisas, a teologia e meu hobby, a aviação. Fraterno abraço. Fiquem à vontade para interagir comigo pelo e-mail: [email protected] 

Julio Souza
Júlio Souza. Casado, Mestre em Teologia Sistemática pela PUC-Rio, Bacharel em Teologia, Especialista em Educação e entusiasta da aviação. Atualmente é estudante de MBA em Gestão de Projetos pela FGV; Tutor no EAD de Iniciação Teológica da PUC-Rio; Consultor Especialista para as Mantenedoras, Redes e Escolas Católicas no Brasil pela Editora FTD Educação.
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