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A guerra de Nagorno-Karabakh 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 5min 59seg

16 de outubro de 2023

Nos últimos dias, você deve ter ouvido falar sobre uma crise em Nagorno-Karabakh, uma região etnicamente ocupada por armênios, mas localizada dentro do território do Azerbaijão. A crise tem relação com o enclave étnico, territorial e político que mantém armênios e azeris em disputa direta desde meados do fim da Era Soviética. 

Na última semana de agosto, após ataques azeris à região, o conflito se acirrou mais uma vez e dezenas de milhares de moradores foram forçados a migrar para a Armênia. Especialistas estimam que cerca de 120 mil pessoas podem se deslocar da região em direção ao território armênio, ocasionando mais conflitos e uma reorganização política na região do Cáucaso que está longe do fim. 

Vamos responder a algumas perguntas importantes sobre esse conflito: O que é e como se formou o território de Nagorno-Karabakh? O que está acontecendo lá? Por que isso está acontecendo agora? O conflito tem algo a ver com a guerra na Ucrânia? E o que pode acontecer em seguida? 

O território 

Nagorno-Karabakh é uma área montanhosa ao sul do Cáucaso, localizada dentro do território do Azerbaijão e próxima da fronteira com a Armênia. Essa região é ocupada historicamente por uma população de origem armênia que, após o fim da URSS, em 1991, formou um governo independente e passou a se autodenominar República de Artsakh. 

Apesar de não reconhecida internacionalmente, Artsakh resistiu como território autônomo e separatista até a atualidade, recebendo suprimentos e apoio não declarado do governo armênio e enfrentando inúmeras tentativas de retomada por parte do governo azeri. 

Fonte: Armenians National Committee of America.

Origens e andamento do conflito 

O conflito em questão é um resquício do embate que teve origem durante a redefinição de territórios e a realocação de populações ocorridas na Primeira Guerra Mundial. Essas redefinições foram resultados de acordos feitos entre o governo soviético de Joseph Stálin e o governo turco de Mustafá Kemal Atatürk após a formação da República Turca e concentraram muçulmanos xiitas no território que viria a se oficializar como Azerbaijão, mas mantiveram ali alocadas populações cristãs de origem armênia que já viviam na região anteriormente. 

Décadas depois, com o fim da União Soviética no início dos anos 1990, houve um novo movimento de reorganização territorial entre as ex-repúblicas que compunham o bloco socialista. Nesse momento, armênios e azeris passaram a reivindicar a legitimidade da ocupação do território de Nagorno-Karabakh. Após alguns anos de conflito com os azeris e um cessar-fogo, a população armênia conseguiu autoproclamar a república autônoma de Artsakh, com um governo étnico declarando-se um Estado independente, em 1994. 

Desde o cessar-fogo de 1994, os países envolvidos conviveram em uma guerra de baixa intensidade, até que em 2020, após semanas de ofensiva, o Azerbaijão conseguiu recuperar para si uma parte do território em disputa. A Rússia, grande mediadora do conflito e aliada do governo autônomo até então, enviou soldados e armamentos para a região a fim de manter em funcionamento o chamado Corredor de Lachin, caminho que permitia o deslocamento entre Nagorno-Karabakh, agora um enclave em território azeri, e a Armênia, possibilitando o abastecimento da população residente na zona de conflito. 

O envolvimento da Rússia na guerra com a Ucrânia, no entanto, diminuiu a presença e atenção russas em relação ao conflito, possibilitando que, com apoio da Turquia, o Azerbaijão tomasse para si o domínio do Corredor de Lachin em dezembro de 2022, bloqueando a estrada e o abastecimento da região de Nagorno-Karanakh com alimentos, combustível e medicamentos. Apesar da escassez generalizada de produtos de primeira necessidade e de pouquíssimas condições de permanência, a população étnica armênia manteve-se presente na maioria na região. 

Em 19 de setembro de 2023, no entanto, o Azerbaijão lançou uma nova ofensiva militar contra Nagorno-Karabakh. Diante das condições de bloqueio e da inferioridade militar de Artsakh frente do exército azeri, o governo independente se rendeu, no dia 20 de setembro, dando início a um processo de escoamento da população para diferentes regiões do território armênio. 

Nesse cenário, a Armênia acusa o governo do Azerbaijão de empregar uma política de limpeza étnica contra a população de origem armênia, em um movimento apontado por especialistas como um novo genocídio, que remonta ao genocídio infringido ao povo armênio no início do século XX. 

Outras conexões 

Desde o fim da União Soviética, o Azerbaijão, em estreita parceria política e econômica com a Turquia, fortaleceu seu domínio na região do Cáucaso, com base na presença abundante de petróleo em seu território. Seu poderio militar tornou-se, então, aos poucos, muito superior ao armênio, o que favoreceu, por fim, a imposição de seu controle sobre Nagorno- Karabakh. 

Além da superioridade militar e do domínio do petróleo, a já citada boa relação com a Turquia, uma potência econômica da região, fortalece a influência geopolítica do Azerbaijão. 

Esse panorama é afetado, ainda, pelo envolvimento russo na guerra com a Ucrânia, que afasta o Kremlin do conflito no Cáucaso e deixa o caminho livre para o aumento da ofensiva azeri. Com o bloqueio econômico dos países ocidentais à Rússia, o Azerbaijão cumpre também o papel de mediador das transações de compra de combustível fóssil russo pelos países europeus no contexto de guerra, fortalecendo ainda mais sua influência na região. 

Diante de todos os fatos apresentados, a desocupação armênia da região de Nagorno-Karabakh abre espaço para o domínio completo do Azerbaijão sobre a região, o que deve se concretizar em 2024, ano em que a República de Artsakh deixará de existir oficialmente, após o governo de Nagorno-Karabakh ter decretado, em 28 de setembro, a dissolução de todas as instituições locais a partir do próximo 1º de janeiro, colocando um aparente fim à longa disputa pela região, mas reacendendo prováveis novos embates geopolíticos no Cáucaso. 

Para saber mais sobre o assunto, veja a edição de agosto de 2021 do Articulação CHSA, que debate o genocídio do povo armênio e apresenta de forma aprofundada o panorama histórico do conflito de Nagorno-Karabakh:

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