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Milton Santos recebeu o Prêmio Vautrin Lud em 1994, considerado o "Nobel da Geografia". Foi o primeiro latino-americano a receber a homenagem.
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Quem foi Milton Santos e qual sua contribuição para a sociedade brasileira 

Por Loreny Mendes

Estimativa de leitura: 14min 57seg

23 de setembro de 2026

Cem anos após seu nascimento, as ideias de Milton Santos ainda nos convidam a olhar para o território, questionar desigualdades e compreender o que existe por trás das paisagens que parecem tão cotidianas. 

O que o lugar onde vivemos pode revelar sobre a sociedade da qual fazemos parte? Para Milton Santos, um dos mais importantes geógrafos e intelectuais brasileiros, olhar para o espaço também era uma forma de compreender as relações que organizam a sociedade. Afinal, uma cidade é formada por ruas, casas, escolas, comércios e meios de transporte, mas também pelas relações estabelecidas entre as pessoas e esses espaços. Basta observar com um pouco mais de atenção para perceber que morar na mesma cidade não significa, necessariamente, viver a mesma cidade.  

Enquanto algumas pessoas encontram trabalho, educação, cultura, lazer e serviços próximos de casa, outras precisam percorrer longas distâncias para acessar esses mesmos recursos. Há bairros conectados por diferentes meios de transporte e outros em que a mobilidade é um desafio cotidiano. Da mesma forma, há espaços que concentram oportunidades e outros marcados justamente pela ausência delas. 

Essas diferenças, porém, não surgem por acaso. Pensar sobre elas é também pensar sobre a forma como uma sociedade se organiza, distribui recursos e estabelece quem pode acessar determinadas possibilidades. Foi a partir de questões como essas que Milton Santos se tornou um dos mais importantes intelectuais brasileiros e uma referência para compreender as relações entre território, urbanização, desigualdade social, cidadania e globalização. 

Em 2026, ano do centenário de seu nascimento, conhecer a trajetória e as ideias de Milton Santos é uma oportunidade não apenas de revisitar sua contribuição para a Geografia, mas também de recuperar algo essencial às Ciências Humanas: a capacidade de estranhar aquilo que o cotidiano fez parecer natural. Afinal, olhar novamente para aquilo que vemos todos os dias pode ser o primeiro passo para compreender como o Brasil se tornou o país que conhecemos.  

Quem foi Milton Santos?

Milton Santos
Milton Santos, geógrafo e intelectual brasileiro, ao lado de seu filho, em registro de seu acervo pessoal. Foto: site Milton Santos. 

Milton Santos foi um geógrafo, professor e intelectual brasileiro cuja obra transformou a maneira de compreender o território, as cidades e a globalização. Nascido em 3 de maio de 1926, em Brotas de Macaúbas, na Bahia, tornou-se um dos principais nomes da Geografia brasileira e alcançou reconhecimento internacional por sua produção acadêmica. 

Filho de professores, Milton Almeida dos Santos cresceu em uma família em que a educação ocupava um lugar importante. Embora tenha se formado inicialmente em Direito pela Universidade Federal da Bahia, em 1948, construiu sua trajetória intelectual no campo da Geografia. Em 1958, concluiu seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França. 

Entretanto, compreender quem foi Milton Santos exige ir além de sua biografia. Isso porque uma das grandes contribuições de seu pensamento está justamente na forma como interpretou o espaço: não apenas como o cenário em que a vida acontece, mas como algo construído e transformado pelas relações sociais. 

A partir dessa perspectiva, uma cidade não pode ser compreendida somente por seus prédios, ruas ou limites geográficos. Ela também é resultado de decisões políticas, interesses econômicos, movimentos populacionais, tecnologias, formas de trabalho e desigualdades construídas historicamente. Portanto, olhar para o território também é uma maneira de olhar para a sociedade. 

O que marcou a trajetória de Milton Santos? 

A trajetória de Milton Santos foi marcada tanto por sua produção intelectual quanto pelas transformações políticas e sociais do século XX. Após o golpe militar de 1964, o geógrafo foi preso e, posteriormente, deixou o Brasil, iniciando um período de aproximadamente 13 anos vivendo e trabalhando no exterior. 

Durante esse período, passou por universidades e instituições de diferentes países da Europa, da América do Norte, da América Latina e da África. Como consequência, essa experiência internacional contribuiu para uma característica que se tornaria central em sua produção: a construção de um pensamento atento às especificidades dos países periféricos. 

Ao estudar essas sociedades, Milton Santos questionou interpretações que utilizavam a experiência dos países centrais como referência universal para explicar processos de urbanização, modernização e desenvolvimento. Afinal, olhar para uma cidade brasileira, africana ou latino-americana somente a partir de modelos formulados com base na experiência europeia ou norte-americana poderia deixar de lado elementos fundamentais dessas realidades. 

É justamente nesse ponto que sua trajetória pessoal encontra sua produção intelectual. Mais do que circular por diferentes lugares do mundo, Milton Santos construiu uma maneira de pensar que levava a sério o lugar de onde o conhecimento é produzido. Assim, sua obra também nos convida a fazer uma pergunta importante para as Ciências Humanas: De onde olhamos quando tentamos compreender o mundo? 

A pergunta é especialmente relevante porque nenhum olhar parte de lugar nenhum. As teorias utilizadas para explicar uma sociedade também nascem em contextos históricos, políticos e econômicos específicos. Ao voltar sua atenção para os países periféricos, portanto, Milton Santos ajudou a construir um pensamento capaz de considerar suas particularidades. 

Com isso, a desigualdade deixou de aparecer simplesmente como sinal de um país que ainda não havia alcançado determinado estágio de desenvolvimento e passou a ser compreendida a partir das próprias relações que organizam a economia e o território. 

Posteriormente, depois de retornar definitivamente ao Brasil, no fim da década de 1970, Milton Santos consolidou sua carreira acadêmica no país e tornou-se professor da Universidade de São Paulo (USP). Em 1994, recebeu o Prêmio Internacional de Geografia Vautrin Lud, conhecido também como o “Nobel de Geografia.” Uma das principais distinções internacionais da área, tornando-se o primeiro latino-americano a receber a premiação. 

O que Milton Santos dizia sobre território e sociedade?

Milton Santos: geógrafo
Milton Santos, geógrafo brasileiro reconhecido por seus estudos sobre território, urbanização e globalização. Foto: site Milton Santos. 

Para Milton Santos, compreender o território significava observar seus usos e as relações sociais, econômicas e políticas estabelecidas nele. Assim, o território não deve ser entendido somente como uma área delimitada em um mapa, mas como parte da própria experiência da sociedade. 

Nesse sentido, observar um território significa perguntar quem vive nele, quem consegue circular por ele, quais atividades econômicas são desenvolvidas, onde estão os serviços públicos, como as tecnologias chegam a diferentes lugares e quais possibilidades estão disponíveis para as pessoas que ocupam cada região. 

Imagine, por exemplo, dois estudantes que vivem na mesma cidade. Um deles leva quinze minutos para chegar à escola e encontra biblioteca, transporte público, áreas de lazer e equipamentos culturais próximos de casa. O outro passa mais de uma hora no transporte e vive em uma região com poucas opções de cultura e lazer. 

No mapa, os dois pertencem ao mesmo município. Na experiência cotidiana, porém, a relação que estabelecem com a cidade é profundamente diferente. E é justamente essa diferença entre o território desenhado e o território vivido que nos permite enxergar aquilo que um mapa, sozinho, não consegue contar. 

A partir daí, questões sociais que muitas vezes parecem abstratas ganham endereço, distância e tempo. A desigualdade aparece nas horas gastas dentro de um ônibus. O acesso à cultura aparece nos quilômetros que separam uma casa de uma biblioteca. O direito à cidade aparece na possibilidade, ou na impossibilidade, de usufruir aquilo que ela oferece. 

Por isso, desigualdade de renda, acesso à educação, mobilidade urbana e cidadania também têm uma dimensão espacial. Afinal, não basta que um direito ou serviço exista: é preciso considerar em quais condições as pessoas conseguem acessá-lo. 

Dessa forma, o território pode revelar como uma sociedade distribui recursos, oportunidades e possibilidades entre seus habitantes. Para Milton Santos, portanto, observar o espaço era também investigar as relações de poder e as desigualdades presentes nele. 

Livro de Milton Santos

Como Milton Santos compreendia a globalização? 

Milton Santos desenvolveu uma leitura crítica da globalização, questionando a ideia de que um mundo mais conectado seria, necessariamente, um mundo mais igual. Para ele, era preciso observar quem participava das redes globais, em quais condições e quem se beneficiava delas. 

Em Por uma outra globalização: do pensamento único à consciência universal, publicado em 2000, o autor apresentou diferentes maneiras de compreender esse processo. Uma delas é a globalização como fábula, relacionada à ideia de um planeta completamente integrado, no qual fronteiras e distâncias perderiam importância. Outra é a globalização como perversidade, marcada pelas desigualdades e pelas condições concretas de vida de grande parte da população. 

No entanto, sua análise não terminava na crítica. Milton Santos também enxergava outra possibilidade. Se a globalização existente era resultado de determinadas escolhas econômicas, políticas e sociais, outras formas de organização também poderiam ser construídas. 

Mais de duas décadas depois da publicação da obra, essa reflexão continua especialmente atual. Hoje, uma mensagem pode atravessar o planeta em segundos. Podemos comprar um produto fabricado do outro lado do mundo pelo celular, acompanhar acontecimentos em tempo real e conversar com pessoas que estão a milhares de quilômetros de distância. Ainda assim, o acesso às tecnologias, à informação e às oportunidades proporcionadas por elas segue desigual. 

Nesse contexto, um simples celular ajuda a visualizar essa relação. Por trás do aparelho existe uma rede que conecta matérias-primas extraídas em determinados territórios, trabalhadores em diferentes países, grandes empresas de tecnologia, sistemas de transporte, plataformas digitais e consumidores espalhados pelo planeta. 

O objeto que cabe na palma da mão, portanto, carrega uma geografia muito maior do que ele. E talvez seja justamente essa uma das potências do pensamento de Milton Santos: revelar as relações que existem por trás das coisas que aprendemos a enxergar apenas como parte da rotina. 

Assim, estudar a globalização a partir de Milton Santos significa ir além da constatação de que o mundo está conectado. Significa perguntar como essas conexões são construídas, quem participa delas e como seus benefícios e suas consequências são distribuídos. 

Por que Milton Santos continua atual? 

Milton Santos morreu em 24 de junho de 2001, mas suas ideias continuam atuais porque muitas das questões investigadas pelo geógrafo permanecem presentes na sociedade brasileira e no mundo contemporâneo. 

Para perceber isso, basta observar as grandes cidades. O tempo gasto no deslocamento até o trabalho, a concentração de equipamentos culturais em determinadas regiões, as diferenças de infraestrutura entre bairros, o acesso desigual à internet e as novas formas de trabalho mediadas por plataformas digitais mostram que território, tecnologia e desigualdade continuam profundamente relacionados. 

Por isso, falar sobre Milton Santos hoje não significa apenas recuperar seu legado acadêmico. Significa reconhecer a permanência das perguntas que ele formulou. 

Quem pode circular pela cidade? Quem consegue usufruir de seus espaços? Onde estão concentradas as oportunidades? Como as tecnologias modificam nossas relações com o território? Quem participa das decisões sobre os espaços em que vivemos? 

Mais do que buscar respostas imediatas, essas perguntas ajudam a perceber uma característica fundamental de seu pensamento: aquilo que encontramos ao nosso redor não precisa ser entendido como natural ou inevitável. 

As cidades foram construídas historicamente e continuam sendo transformadas pelas pessoas, pelas instituições, pela economia e pela política. O mesmo ocorre com muitas das desigualdades que observamos nelas. Dessa maneira, compreender os processos que produziram determinada realidade é também uma forma de perceber que ela poderia ter sido diferente. 

Como trabalhar Milton Santos na escola? 

As ideias de Milton Santos podem ser trabalhadas na escola a partir do próprio cotidiano dos estudantes, aproximando conceitos como território, urbanização, globalização, desigualdade e cidadania das experiências vividas pela turma. 

Para isso, uma possibilidade é começar pelo trajeto entre a casa e a escola. Os estudantes podem observar quanto tempo levam para fazer esse percurso, quais meios de transporte utilizam, quais serviços encontram pelo caminho e como diferentes regiões da cidade estão conectadas. 

Em seguida, a turma pode construir um mapa coletivo do entorno da escola, identificando postos de saúde, bibliotecas, praças, espaços culturais, estabelecimentos comerciais, áreas verdes e pontos de transporte público. Mais do que localizar esses elementos, porém, o objetivo é investigar como eles estão distribuídos pelo território. 

A partir dessa observação, o professor pode propor perguntas: Todos os bairros oferecem os mesmos serviços? Todas as pessoas conseguem acessar esses espaços com a mesma facilidade? Como o lugar onde alguém vive pode influenciar sua experiência na cidade? 

Além do território próximo, a globalização também pode ser investigada a partir dos próprios objetos presentes na sala de aula. Ao escolher um celular, uma peça de roupa ou um alimento, por exemplo, os estudantes podem pesquisar de onde vêm suas matérias-primas, onde são produzidos e quais caminhos percorrem até chegar ao consumidor. 

Dessa maneira, conceitos que poderiam parecer distantes passam a fazer parte da experiência cotidiana. Mais do que isso, os estudantes começam a perceber que não estão apenas estudando redes econômicas, sociais e territoriais: eles vivem dentro delas. 

O pensamento de Milton Santos ainda permite estabelecer diálogos entre diferentes componentes curriculares. Enquanto a Geografia pode abordar território, urbanização e globalização, a História pode recuperar os processos de formação das cidades e as transformações políticas e econômicas do país. Já a Sociologia pode aprofundar as relações entre espaço, desigualdade social e cidadania. 

Nesse processo, a escola pode transformar o território em objeto de investigação. Em vez de apenas apresentar conceitos sobre o espaço, o trabalho pedagógico passa a convidar os estudantes a observá-lo e a compará-lo, formular perguntas e compreender as relações sociais presentes nele. 

O que podemos aprender com as ideias de Milton Santos? 

“A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos, quando apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une” 

Uma das principais contribuições de Milton Santos é mostrar que compreender o espaço também significa compreender a sociedade que o produz. Seu pensamento nos convida a observar criticamente aquilo que faz parte do cotidiano e a questionar relações que, de tão presentes, muitas vezes passam a parecer naturais. 

Uma rua deixa de ser apenas uma rua quando perguntamos quem consegue chegar até ela. Uma tecnologia deixa de representar apenas inovação quando investigamos quem pode acessá-la. Uma cidade deixa de ser somente um conjunto de construções quando percebemos que diferentes grupos vivem e utilizam seus espaços de maneiras distintas. 

Nesse sentido, há algo profundamente educativo no exercício proposto por Milton Santos. Antes de transformar o mundo em conceito, é preciso aprender a observá-lo. E, depois de observá-lo, talvez seja necessário estranhá-lo novamente. 

Esse exercício de transformar o cotidiano em pergunta é fundamental não apenas para a Geografia, mas também para uma educação comprometida com a formação de estudantes capazes de compreender criticamente a sociedade da qual fazem parte. 

No centenário de seu nascimento, revisitar Milton Santos significa reconhecer a atualidade de um pensamento construído a partir do Brasil, mas capaz de interpretar transformações que ultrapassam suas fronteiras. Em um mundo cada vez mais conectado e, ao mesmo tempo, marcado por profundas desigualdades, suas ideias ajudam a compreender que espaço, economia, política e vida cotidiana estão permanentemente relacionados. 

Na escola, essa perspectiva pode transformar a maneira como os estudantes observam o lugar onde vivem. Mais do que aprender conceitos sobre o território, eles podem aprender a ler o território, reconhecendo suas contradições, compreendendo os processos que o produziram e percebendo que aquilo que foi socialmente construído também pode ser socialmente transformado. 

Talvez seja justamente por isso que, cem anos depois de seu nascimento, Milton Santos ainda nos ajude a olhar para o Brasil. Porque sua obra não nos ensina apenas a localizar fenômenos no espaço, ela nos ensina a desconfiar da paisagem. 

Afinal, por trás daquilo que parece apenas uma rua, um bairro, uma distância ou um mapa, existe sempre uma sociedade contando a sua história.

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