Conheça a trajetória de Maria Felipa de Oliveira, símbolo da resistência popular nas lutas pela Independência na Bahia, e entenda como sua história amplia nosso olhar sobre quem participou da construção do Brasil.
Quando pensamos na Independência do Brasil, é comum que algumas imagens apareçam quase imediatamente: o 7 de setembro de 1822, o grito às margens do Ipiranga e a figura de Dom Pedro I. Durante muito tempo, foi assim que aprendemos a contar essa história.
No entanto, a Independência não aconteceu em um único dia nem foi construída por uma única pessoa. Em diferentes partes do país, o rompimento com Portugal envolveu conflitos, disputas e mobilizações populares que continuaram mesmo depois da declaração de 1822. Na Bahia, por exemplo, os confrontos se estenderam até 2 de julho de 1823, data que se tornou um marco da consolidação da Independência no estado.
Foi nesse cenário que a memória de Maria Felipa de Oliveira ganhou força.
Mulher negra e moradora da Ilha de Itaparica, na Bahia, Maria Felipa é lembrada pela participação na resistência às tropas portuguesas. Sua trajetória, no entanto, também nos convida a olhar para outra dimensão da História: aquela que nem sempre foi registrada nos documentos oficiais, mas permaneceu viva por meio das comunidades, dos relatos e da tradição oral.
Conhecer Maria Felipa, portanto, é mais do que conhecer uma personagem da Independência. É ampliar a pergunta sobre quem participou da construção do Brasil e sobre quais histórias escolhemos preservar.
Quem foi Maria Felipa?

Não existem tantos documentos sobre a vida de Maria Felipa quanto gostaríamos. E essa ausência também diz alguma coisa sobre o período em que ela viveu.
Os relatos a apresentam como uma mulher negra, trabalhadora e moradora da Ilha de Itaparica. Sua vida teria transcorrido entre pessoas que dificilmente ocupavam o centro dos registros oficiais do século XIX: trabalhadores pobres, mulheres e pessoas negras, muitas delas escravizadas ou recém-libertas.
Por isso, boa parte do que chegou até nós sobre Maria Felipa foi preservada pela tradição oral e posteriormente registrada e investigada por pesquisadores.
Isso não diminui a importância de sua memória. Pelo contrário, ajuda a compreender que nem todas as experiências históricas deixam os mesmos tipos de vestígio.
Durante séculos, documentos oficiais, correspondências de autoridades e registros produzidos pelas elites ocuparam um lugar privilegiado na construção das narrativas históricas. Enquanto isso, muitas experiências populares continuaram circulando de outras maneiras, passando de geração em geração pela oralidade e pela memória das comunidades.
É nesse encontro entre história e memória que Maria Felipa permanece.
Como Maria Felipa participou da Independência do Brasil?
Para entender a importância atribuída a Maria Felipa, primeiro é necessário olhar para o que acontecia na Bahia durante a Independência.
Mesmo após a declaração de 7 de setembro de 1822, tropas portuguesas continuavam presentes na região. A Bahia tornou-se palco de confrontos importantes entre forças favoráveis à Independência e tropas que permaneciam ligadas a Portugal.
Nesse contexto, a Ilha de Itaparica ocupava uma posição estratégica.
Relatos preservados sobre Maria Felipa contam que ela participou da resistência local e liderou um grupo de mulheres envolvidas na luta contra os portugueses. Entre os episódios mais conhecidos está a narrativa de que o grupo teria incendiado embarcações utilizadas pelas tropas portuguesas.
Há também relatos sobre mulheres que teriam enfrentado soldados portugueses usando galhos de cansanção, uma planta que provoca forte irritação ao entrar em contato com a pele.
Como essas histórias foram transmitidas principalmente pela tradição oral, é importante apresentá-las com o cuidado que a pesquisa histórica exige. Alguns detalhes atribuídos à atuação de Maria Felipa não têm a mesma documentação disponível para outros personagens da Independência.
Ainda assim, sua memória chama atenção para algo historicamente fundamental: a Independência também contou com participação popular.
Mulheres, pessoas negras, trabalhadores, pescadores, soldados e integrantes de diferentes grupos sociais estiveram envolvidos nos conflitos que atravessaram o território brasileiro. Assim, olhar para Maria Felipa significa deslocar o foco dos grandes personagens políticos para enxergar também as pessoas que viveram e participaram dessas transformações.
Por que Maria Felipa continua importante para a História do Brasil?
Se durante muito tempo Maria Felipa permaneceu distante das narrativas mais conhecidas sobre a Independência, nas últimas décadas sua história passou a receber maior atenção.
Seu nome aparece em pesquisas, livros, projetos educacionais, manifestações culturais e iniciativas voltadas à valorização da participação negra e feminina na história brasileira.
Esse reconhecimento também ganhou dimensão oficial. Em 2018, por meio da Lei nº 13.697, Maria Felipa de Oliveira teve seu nome inscrito no Livro dos Heróis e Heroínas da Pátria, ao lado de Maria Quitéria de Jesus Medeiros, Sóror Joana Angélica de Jesus e João Francisco de Oliveira, conhecido como João das Botas. A homenagem reconhece oficialmente personagens que participaram das lutas pela Independência e ajuda a ampliar a memória sobre os diferentes sujeitos envolvidos na construção desse processo histórico.
Esse reconhecimento nos põe diante de uma questão importante: por que algumas pessoas se tornam personagens centrais da História enquanto outras permanecem tanto tempo às margens dela?
Responder a essa pergunta exige compreender que escrever a História também envolve escolhas. Os documentos que sobrevivem, as fontes consideradas relevantes, os acontecimentos ensinados e os personagens destacados influenciam a maneira como uma sociedade compreende seu próprio passado.
Por isso, recuperar trajetórias como a de Maria Felipa não significa simplesmente acrescentar mais um nome à lista de personagens da Independência.
Significa ampliar essa própria lista.
Ao lado de figuras políticas e militares já conhecidas, surgem mulheres, pessoas negras e integrantes das camadas populares. Com isso, a Independência deixa de aparecer apenas como uma decisão tomada pelas elites e passa a ser compreendida como um processo complexo, atravessado por diferentes interesses, conflitos e formas de participação.
Como trabalhar Maria Felipa na escola?
A trajetória de Maria Felipa oferece diferentes possibilidades para o trabalho em sala de aula, especialmente porque permite aproximar conteúdos históricos de uma reflexão sobre como conhecemos o passado.
Uma possibilidade é começar justamente pela comparação entre fontes.
Os estudantes podem pesquisar diferentes textos sobre Maria Felipa e identificar quais informações aparecem em todos eles, quais apresentam versões diferentes e quais acontecimentos são atribuídos à tradição oral. A partir disso, o professor pode discutir o trabalho do historiador e mostrar que a História não é simplesmente uma coleção de fatos prontos, mas um conhecimento construído por meio da análise e interpretação de fontes.
Outra possibilidade é ampliar o olhar sobre a própria Independência do Brasil.
Em grupos, os estudantes podem pesquisar personagens que participaram das lutas pela Independência em diferentes regiões e comparar suas trajetórias. Além de Maria Felipa, podem aparecer nomes como Maria Quitéria e Joana Angélica, assim como personagens e grupos populares menos presentes nas narrativas tradicionais.
Também é possível trabalhar com mapas para localizar a Ilha de Itaparica e compreender sua importância estratégica durante os conflitos na Bahia. Dessa maneira, Geografia e História se aproximam e ajudam os estudantes a perceber que os acontecimentos também são influenciados pelos territórios em que ocorrem.
Por fim, a trajetória de Maria Felipa abre espaço para discutir a Lei nº 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de História e Cultura afro-brasileira nas escolas. Mais do que abordar essas histórias apenas em datas específicas, o desafio é incorporá-las à compreensão da formação social, política e cultural do Brasil.
O que a história de Maria Felipa nos revela sobre quem construiu o Brasil?
Há histórias que chegam até nós cercadas de documentos. Outras atravessam gerações pela memória, pelas palavras e pelas pessoas que se recusaram a deixá-las desaparecer.
A história de Maria Felipa ocupa esse segundo lugar.
Conhecê-la nos ajuda a compreender que o passado brasileiro é maior do que as imagens que durante muito tempo foram escolhidas para representá-lo. A Independência não aconteceu apenas às margens do Ipiranga. Ela também passou pelas águas da Baía de Todos-os-Santos, pelas comunidades de Itaparica e pelas mãos de pessoas cujos nomes nem sempre chegaram aos livros escolares.
Por isso, estudar Maria Felipa não significa substituir uma versão da história por outra. Significa ampliar o nosso campo de visão.
Na escola, esse movimento é especialmente importante. Quando diferentes sujeitos passam a fazer parte das narrativas históricas, os estudantes também aprendem que compreender o passado exige fazer perguntas, confrontar fontes, reconhecer silêncios e perceber que nenhuma sociedade é construída por uma única voz.
Talvez essa seja uma das contribuições mais importantes da memória de Maria Felipa para o presente: lembrar que a história de um país também é feita por aqueles que, mesmo quando não ocuparam as páginas dos registros oficiais, participaram ativamente de sua construção.
Para saber mais sobre Maria Felipa
DAMASCENO, Karine Teixeira. 200 anos da Independência do Brasil na Bahia: Maria Felipa de Oliveira e outras tantas “guerreiras brasileiras”. Revista Angelus Novus, n. 17, 2021. p. 211819-211819.
SILVA, Cidinha da. 200 Anos de independência e suas heroínas: Maria Felipa de Oliveira, uma mulher negra na luta pela Independência na Bahia. Revista do Centro de Pesquisa e Formação, São Paulo, n. 15, dez. 2022, p. 113-117.
SANTOS, Lucas Borges dos. Maria Felipa de Oliveira. Revista Virtual Resgate da Memória: Dois de Julho, Salvador, ano 1, n. 2, jul. 2014, p. 30-33.
KRAAY, Hendrik. Muralhas da independência e liberdade do Brasil: a participação popular nas lutas políticas (Bahia, 1820-25). In: MALERBA, Jurandir (org.). A Independência Brasileira: novas dimensões. Rio de Janeiro: FGV, 2006, p. 320.







