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Foto: Arquivo Nise da Silveira
Conteúdo para Aulas Educador

Quem foi Nise da Silveira e qual a sua contribuição para a saúde mental no Brasil?

Por Brenda Torres

Estimativa de leitura: 11min 8seg

17 de setembro de 2026

Em uma época em que o isolamento e procedimentos violentos faziam parte da rotina dos hospitais psiquiátricos, Nise da Silveira escolheu outro caminho: o da arte, do afeto, da liberdade e da convivência. 

Falar sobre saúde mental é falar sobre cuidado, escuta e sobre como enxergamos quem está sofrendo, questões essas que atravessam o cotidiano e seguem mobilizando debates importantes dentro e fora dos espaços de acolhimento. Por isso, revisitar a história de Nise da Silveira é tão importante. 

Muito antes de a saúde mental ganhar a visibilidade que tem hoje, Nise já questionava o modo como pessoas em sofrimento psíquico eram tratadas. Afinal, o que acontece quando uma pessoa deixa de ser vista em sua complexidade e passa a ser reduzida ao seu diagnóstico?  

Esses e demais questionamentos da psiquiatra se davam na prática, dentro de um hospital, enfrentando métodos que considerava incompatíveis com o cuidado, reforçando que a maneira como uma sociedade trata quem sofre também diz muito sobre a própria sociedade.  

A prática de Nise da Silveira transformou a psiquiatria brasileira e continua provocando perguntas sobre como enxergamos a saúde mental.  

Quem foi Nise da Silveira? 

Nise da Silveira nasceu em Maceió, em 1905. Em 1926, ingressou na Faculdade de Medicina da Bahia e se formou em 1931, sendo a única mulher entre os 158 alunos de sua turma. Pouco depois, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde passou a trabalhar como médica e se especializou em psiquiatria.  

Sua história profissional, porém, seria atravessada pela história política do Brasil. 

Em 1936, durante a Era Vargas, Nise foi presa por sua atuação política. Permaneceu encarcerada até 1937 e, depois de sair, passou um período afastada do serviço público. Durante esses anos, viveu em situação de semiclandestinidade e se dedicou intensamente à leitura. O contato com autores como Spinoza e, posteriormente, Carl Gustav Jung teria um papel importante na construção de seu pensamento. 

Em 1944, Nise retornou ao serviço público e foi trabalhar no Centro Psiquiátrico Nacional Pedro II, no Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro. Foi ali que sua atuação começou a ganhar a forma pela qual seria reconhecida. 

O que marcou a trajetória de Nise da Silveira?  

Na década de 1940, o tratamento psiquiátrico hegemônico incluía práticas como eletrochoque, lobotomia e isolamento. Mas, para Nise, havia outras possibilidades. 

A médica se recusou a utilizar os métodos tradicionais e passou a atuar na Seção de Terapêutica Ocupacional e Reabilitação, onde, em 1946, ajudou a estruturar oficialmente o setor, que desenvolvia atividades como pintura, modelagem, música e trabalhos manuais. 

A proposta não era simplesmente ocupar o tempo das pessoas internadas, pois Nise entendia que a arte poderia ser uma forma de expressão e comunicação, especialmente para quem encontrava dificuldade para colocar em palavras aquilo que vivia. 

Para Amanda Pedroso Gonçalves, terapeuta ocupacional formada pela USP, com pós-graduação em Saúde Coletiva e Saúde Mental Infantojuvenil, essa mudança de perspectiva foi uma das maiores contribuições de Nise. 

“Na época em que Nise atuou, o tratamento psiquiátrico hegemônico ofertado às pessoas era o isolamento social, o eletrochoque, a lobotomia, enfim, a destituição do sujeito enquanto sujeito.” 

Amanda chama atenção ainda para um aspecto pouco discutido quando se conta essa história: muitas pessoas institucionalizadas não apresentavam necessariamente um grave sofrimento psíquico. Eram também pessoas marginalizadas, pobres, pretas, mulheres e indivíduos que não se enquadravam nas normas sociais de seu tempo. 

Para ela, ao se recusar a reproduzir aquela lógica, Nise reafirmava que essas pessoas eram, antes de qualquer diagnóstico, sujeitos com direito à liberdade, à expressão e à dignidade. E isso mudava também a relação entre profissional e paciente, porque com isso o cuidado passava a envolver presença e vínculo. 

Qual foi o papel da arte no trabalho de Nise da Silveira? 

Em 1952, o trabalho desenvolvido nos ateliês do Engenho de Dentro deu origem ao Museu de Imagens do Inconsciente, criado por Nise para preservar e estudar as produções realizadas por seus pacientes. 

Para Nise, aquelas imagens não deveriam ser reduzidas a sintomas, elas poderiam revelar aspectos da experiência subjetiva e criar caminhos de comunicação. Seu interesse pela psicologia de Jung também esteve relacionado a essa maneira de compreender as imagens e os símbolos.  

A partir do estudo das imagens e dos símbolos, Nise passou a investigar o universo interior de seus clientes, como preferia chamar as pessoas que acompanhava.  

Em 1981, Nise publicou o livro Imagens do Inconsciente, uma de suas obras mais conhecidas, reunindo estudos desenvolvidos a partir da experiência nos ateliês.

pintura de Adelina Gomes
Pintura de Adelina Gomes. Sem título – 1960 – Óleo sobre papel. Fonte: Arquivo Nise da Silveira. 

O princípio continua interessante: antes de tentar interpretar ou classificar uma produção, existe a possibilidade de simplesmente olhar para ela e reconhecer que alguém está tentando dizer alguma coisa. 

Amanda vê essa dimensão da arte como especialmente atual:  

“Na prática clínica de Nise, a função terapêutica da arte visava não só a expressão de ‘sintomas’, mas acreditava-se que estar ali com liberdade e companhia para criar e se expressar poderia abrir possibilidades de relação e, através do encontro e do fazer artístico, os sujeitos podiam produzir novos modos de estar, ser e se relacionar.” 

Essa perspectiva também ajuda a compreender por que a arte ocupava um lugar tão importante naquele trabalho, pois não se tratava de uma atividade usada apenas para produzir algo. O próprio processo de criar, conviver e se expressar podia produzir outras formas de relação. 

Arte, animais e afeto como formas de cuidado  

A arte ficou mais conhecida, mas não foi a única experiência inovadora desenvolvida por Nise, que também percebeu a importância dos animais nas relações estabelecidas dentro do hospital.  

Cães e gatos passaram a fazer parte daquele cotidiano, e Nise observava como a convivência poderia favorecer manifestações de afeto e vínculos. A presença dos animais tinha algo de muito concreto: para algumas pessoas, era mais fácil estabelecer uma relação de confiança com um animal do que com outros seres humanos. 

Mais uma vez, Nise prestava atenção àquilo que acontecia no encontro, e não apenas ao que poderia ser enquadrado em uma categoria clínica. 

Da experiência no hospital ao legado que permanece 

Em 1956, Nise criou a Casa das Palmeiras, no Rio de Janeiro, uma instituição que funcionava em regime de externato e buscava oferecer acompanhamento fora da lógica de internação. A iniciativa estava relacionada também à preocupação com as frequentes reinternações de pessoas que passavam pelos hospitais psiquiátricos. 

Nise continuou escrevendo e pesquisando ao longo das décadas seguintes e, em 1992, publicou o livro O Mundo das Imagens. Pouco tempo depois, em 1999, ela faleceu, com 94 anos. Sua trajetória, porém, continua presente em diferentes espaços.  

O antigo Centro Psiquiátrico Pedro II passou a se chamar Instituto Municipal Nise da Silveira, e o Museu de Imagens do Inconsciente segue preservando e estudando o acervo produzido nos ateliês. 

No cinema, sua história ganhou uma representação conhecida em Nise: O Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner e protagonizado por Glória Pires. O filme acompanha justamente o período em que a médica começa a desenvolver seu trabalho no Engenho de Dentro. 

Por que Nise da Silveira continua atual? 

É inspirador olhar para Nise como uma personagem revolucionária de outro tempo. Só que algumas das questões que ela colocou continuam bastante presentes. 

Hoje se fala mais sobre saúde mental, há mais informação e uma disposição maior para reconhecer o sofrimento psíquico. Ainda assim, existe o risco de reduzir uma pessoa ao seu diagnóstico ou de transformar qualquer diferença em algo que precisa ser corrigido. 

Amanda chama atenção para essa contradição: 

“Estamos vivendo um momento em que cuidar da saúde mental ganhou relevância social, no entanto, novamente vemos os sujeitos nas suas singularidades, diferenças, potencialidades, história de vida desaparecendo e restando apenas o diagnóstico psiquiátrico.” 

Para ela, quando isso acontece, voltamos a uma lógica de isolamento, na qual cada pessoa precisa lidar sozinha com suas dificuldades e pode acabar responsabilizada por não conseguir “dar conta”. 

A crítica dialoga diretamente com uma das principais contribuições de Nise: olhar para o sofrimento sem apagar a pessoa que sofre. 

pintura de Emygdio de Barros
Pintura de Emygdio de Barros. Sem título – 1971 – Óleo sobre papel. Fonte: Arquivo Nise da Silveira.

O papel da arte e da cultura no cuidado em saúde mental 

É também nesse ponto que a experiência de Nise encontra discussões contemporâneas sobre arte e cultura. 

A arte pode ser uma forma de expressão, mas, para Amanda, sua importância vai além disso. Ela pode contribuir para o fortalecimento de vínculos, para o sentimento de pertencimento e para a possibilidade de ocupar diferentes espaços sociais. 

“A arte e a cultura no campo da saúde mental, do meu ponto de vista, não é apenas facilitadora da expressão do sofrimento, mas do cultivo da sensibilidade, do estar com o outro, do poder ocupar diferentes lugares sociais, do reencantar o cotidiano, fortalecer vínculos, promover pertencimento e, sobretudo, de instaurar nos sujeitos a habilidade de lidar com seus impasses, de inventar a si mesmos e recriar as suas vidas.” 

É uma ideia que tira a arte do lugar de recurso complementar, e a coloca como ferramenta própria da construção do cuidado. E talvez seja justamente aí que a obra de Nise permaneça tão provocadora: ela não separava o sofrimento psicológico da possibilidade de criar, conviver, estabelecer vínculos e participar da vida. 

Como trabalhar a história de Nise da Silveira na escola? 

A trajetória de Nise pode entrar na escola por diferentes caminhos. 

Em História, sua prisão permite discutir o contexto político da Era Vargas, a perseguição política e as relações entre liberdade individual e autoritarismo. 

Em Arte, o Museu Imagens do Inconsciente abre espaço para conhecer produções dos clientes de Nise e discutir o que uma obra pode comunicar sem transformar a expressão artística em diagnóstico. 

Também é possível assistir a Nise: O Coração da Loucura e conversar com os estudantes sobre as escolhas da personagem, comparando a narrativa cinematográfica com registros históricos. 

Em uma abordagem interdisciplinar, a história da médica pode ainda provocar uma conversa sobre como diferentes sociedades definem o que consideram normal, como lidam com a diferença e qual é o papel do cuidado nessas relações. 

Mais do que apresentar uma personagem histórica, trabalhar Nise na escola pode ser uma oportunidade para discutir escuta, convivência, liberdade e respeito às diferenças. 

O que podemos aprender com o legado de Nise da Silveira? 

Nise da Silveira mudou a psiquiatria brasileira porque questionou uma lógica de cuidado que retirava das pessoas justamente aquilo que ela considerava essencial: sua condição de sujeito. 

Seu trabalho não oferece respostas prontas para os desafios atuais da saúde mental, na verdade, oferece perguntas. 

Quem estamos enxergando quando olhamos para alguém em sofrimento? O que deixamos de perceber quando o diagnóstico ocupa todo o espaço? Que lugar existe para a diferença, para a criação e para o vínculo? 

Para Amanda, a resposta passa por reconhecer a complexidade de cada pessoa. 

“Enquanto humanidade e seres que convivem com outros seres, necessitamos da diversidade de ritmos, de formas de ocupar o mundo, de se comunicar, de pensar, amar, sonhar, de contribuir e de transformar.” 

É uma perspectiva que conversa com o que Nise construiu ao longo de sua vida: cuidar também é criar condições para que uma pessoa possa existir em sua singularidade. 

Revisitar a trajetória de Nise da Silveira ajuda a ampliar essa conversa. Afinal, saúde mental não se resume a identificar sintomas ou buscar respostas individuais para sofrimentos que também podem ter dimensões sociais, históricas e econômicas. 

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Brenda Torres
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