Estamos no mês de setembro, período marcado pela campanha Setembro Amarelo, dedicada à conscientização sobre a prevenção do suicídio e à valorização da vida. Trata-se de um tema de extrema relevância social, que precisa ser debatido por toda a sociedade e, de maneira necessária, pelos profissionais da Educação. A escola constitui um espaço fundamental de socialização, construção de identidades e desenvolvimento humano, podendo desempenhar um papel importante na promoção do acolhimento, da escuta e da proteção de crianças e adolescentes.
No entanto, não é possível discutir saúde mental e valorização da vida sem considerar as condições sociais e estruturais que atravessam as experiências dos sujeitos. O sistema educacional brasileiro enfrenta desafios históricos, como a precariedade da infraestrutura escolar, a desvalorização e a sobrecarga do trabalho docente, as profundas desigualdades regionais e sociais nos processos de aprendizagem, além das persistentes taxas de evasão escolar, reprovação e defasagem idade-série. Esses problemas não atingem todos os estudantes da mesma maneira. No contexto de uma sociedade estruturada por desigualdades raciais, estudantes negros estão entre os grupos mais vulnerabilizados pelos efeitos da exclusão educacional e das desigualdades sociais.
Nesse sentido, pensar a valorização da vida também exige refletir sobre as condições que garantem — ou negam — o direito à existência digna, ao pertencimento e ao desenvolvimento pleno.
O racismo, enquanto fenômeno estrutural e institucional, produz impactos concretos nas trajetórias escolares, nas oportunidades educacionais, na construção da autoestima e no sentimento de pertencimento de estudantes negros. Por essa razão, a promoção da saúde e do bem-estar no ambiente escolar não pode estar dissociada do enfrentamento às desigualdades raciais.
É nesse contexto que a Educação antirracista se apresenta como um compromisso indispensável para instituições públicas e privadas. A efetivação das Leis nº 10.639/2003 e nº 11.645/2008, que determinam a inclusão da história e das culturas africanas, afro-brasileiras e indígenas nos currículos escolares, representa mais do que o cumprimento de uma exigência legal. Trata-se de uma possibilidade concreta de transformação das práticas pedagógicas, dos currículos e das relações estabelecidas no cotidiano escolar.
Temos tido avanços das políticas de Educação para as relações étnico- raciais, como apontam os dados do Diagnóstico Equidade 2026, realizado pelo Ministério da Educação (MEC), por meio da Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi). Eles mostram que as estratégias de equidade racial estão cada vez mais presentes nos estados e municípios brasileiros: entre os anos de 2024 e 2026, o percentual de redes municipais que declararam contar com áreas especificas para a gestão dessas ações passou de 15% para 42%; entre as redes estaduais, o indicador chegou a 100% em 2026. Esses avanços são resultado de muito trabalho, sobretudo dos educadores antirracistas. No entanto, precisamos avançar ainda mais na implementação integral desta política em todo o estado brasileiro.
Quando estudantes negros encontram referências positivas sobre suas histórias, culturas e contribuições para a formação da sociedade brasileira, ampliam-se as possibilidades de construção de pertencimento e reconhecimento. Da mesma forma, todos os estudantes têm a oportunidade de desenvolver uma compreensão mais crítica sobre a sociedade, suas desigualdades e os mecanismos de reprodução do racismo.
Assim, a implementação efetiva de uma Educação comprometida com as relações étnico-raciais pode contribuir para a construção de ambientes escolares mais democráticos, acolhedores e socialmente responsáveis. Embora a Educação antirracista, isoladamente, não seja capaz de solucionar os complexos problemas estruturais da Educação brasileira, sua presença nas políticas institucionais e nas práticas pedagógicas é fundamental para enfrentar desigualdades historicamente produzidas e criar condições mais equitativas de aprendizagem, permanência e desenvolvimento.
Com isso, falar sobre valorização da vida no contexto educacional também significa perguntar: quais vidas têm sido reconhecidas, protegidas e valorizadas pela escola? Uma Educação verdadeiramente comprometida com a vida precisa enfrentar todas as formas de exclusão que comprometem a dignidade humana. Nesse sentido, educar para as relações étnico-raciais e combater o racismo são também formas de construir uma sociedade na qual todas as pessoas possam existir, aprender e viver com dignidade.
Os educadores antirracistas também adoecem: saúde mental, racismo e sobrecarga
Falar sobre saúde mental no mês do Setembro Amarelo é fundamental. Mas precisamos ampliar essa conversa para além das campanhas e das frases sobre valorização da vida. Valorizar a vida também significa olhar para as estruturas que adoecem, silenciam e sobrecarregam pessoas todos os dias.
No contexto educacional, isso exige reconhecer que o racismo também produz sofrimento e que enfrentá-lo não pode ser uma responsabilidade individual. Não podemos continuar esperando que educadores negros e educadores comprometidos com uma prática antirracista sustentem sozinhos o peso de transformar instituições que, muitas vezes, ainda resistem à própria transformação.
Uma Educação antirracista precisa ser coletiva, institucional e contínua. Precisa estar presente nos currículos, nas práticas pedagógicas, na formação dos profissionais e nas relações cotidianas. Mas também precisa cuidar de quem cuida, acolher quem enfrenta e construir redes para que ninguém precise lutar sozinho.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que transformar a Educação é um trabalho profundamente potente, mas que também pode ser doloroso. Por isso, hoje sei que não precisamos nos destruir para transformar. Não precisamos adoecer para provar nosso compromisso. Não precisamos caminhar sozinhos.
Que possamos construir escolas capazes de enfrentar o racismo e, ao mesmo tempo, cuidar das pessoas que diariamente se dedicam a esse enfrentamento. Porque uma Educação comprometida com a valorização da vida precisa, necessariamente, valorizar também a vida de quem educa.
Afinal, educar para transformar o mundo não deveria custar a nossa própria saúde.

Falar sobre saúde mental no mês do Setembro Amarelo é fundamental. Mas precisamos ampliar essa conversa para além das campanhas e das frases sobre valorização da vida. Valorizar a vida também significa olhar para as estruturas que adoecem, silenciam e sobrecarregam pessoas, sobretudo educadoresm todos os dias.
No contexto educacional, isso exige reconhecer que o racismo também produz sofrimento e que enfrentá-lo não pode ser uma responsabilidade individual. Não podemos continuar esperando que educadores negros e educadores comprometidos com uma prática antirracista sustentem sozinhos o peso de transformar instituições que, muitas vezes, ainda resistem à própria transformação.
Uma Educação antirracista precisa ser coletiva, institucional e contínua. Precisa estar presente nos currículos, nas práticas pedagógicas, na formação dos profissionais e nas relações cotidianas. Mas também precisa cuidar de quem cuida, acolher quem enfrenta e construir redes para que ninguém precise lutar sozinho.
Ao longo da minha trajetória, aprendi que transformar a Educação é um trabalho profundamente potente, mas que também pode ser doloroso. Por isso, hoje sei que não precisamos nos destruir para transformar. Não precisamos adoecer para provar nosso compromisso. Não precisamos caminhar sozinhos.
Que possamos construir escolas capazes de enfrentar o racismo e, ao mesmo tempo, cuidar das pessoas que diariamente se dedicam a esse enfrentamento. Porque uma Educação comprometida com a valorização da vida precisa, necessariamente, valorizar também a vida de quem educa.
Afinal, educar para transformar o mundo não deveria custar a nossa própria saúde.
Referências
BRASIL. Ministério da Educação (MEC). Secretaria de Educação Continuada, Alfabetização de Jovens e Adultos, Diversidade e Inclusão (Secadi). Diagnóstico Equidade 2026. Brasília: MEC, 2026. Disponível em: https://www.gov.br/mec/pt-br/pneerq/diagnostico-de-equidade-na-educacao. Acesso em: 4 set 2026.








