O movimento contínuo de repensar-se: o samba como disparador pedagógico.
“Brasil, meu nego deixa eu te contar…
A história que a história não conta
O avesso do mesmo lugar
Na luta é que a gente se encontra!”
(Mangueira, 2019)
Inicio este artigo com o trecho do emblemático samba-enredo da Estação Primeira de Mangueira (2019), que provocou em mim um profundo movimento de autorreflexão enquanto educadora. Repensei-me, porque, mesmo atuando a partir de uma perspectiva antirracista, eu desconhecia, por exemplo, quem foi o Dragão do Mar de Aracati, personagem histórico citado no samba.
A partir desse desfile — consagrado campeão — realizei uma pesquisa mais aprofundada sobre personalidades negras silenciadas pela historiografia oficial, mas resgatadas com excelência pelas escolas de samba. Esse processo evidenciou a função pedagógica do samba ao narrar histórias que foram sistematicamente ocultadas. Assim, enquanto educadoras e educadores comprometidos com uma educação antirracista, não podemos desconsiderar o samba como uma potente ferramenta de produção e mediação de conhecimento.
“Semba de lá, que eu sambo de cá”: o movimento de sankofar saberes afro-brasileiros

O símbolo Sankofa, que inspira este subtítulo, é representado por um pássaro com a cabeça voltada para trás. Originário dos povos Akan, no continente africano, e presente em países como Togo e Costa do Marfim, Sankofa significa “voltar e pegar”: retornar ao passado para ressignificar o presente e construir um futuro mais justo. Esse movimento é fundamental para compreendermos a importância do samba em sua integralidade histórica, cultural e política.
Ao retornarmos às origens do samba no Brasil — manifestação afro-brasileira cuja etimologia deriva de semba, palavra de origem quimbundo (língua banto falada em Angola), associada ao termo massemba, que significa “umbigada” —, constatamos que sua gênese está diretamente ligada à experiência da população negra descendente de africanos escravizados.
A contribuição cultural do povo negro para a formação da sociedade brasileira é imensurável, e o tema deste artigo, evidentemente, não se esgota no mês de fevereiro. Para professoras e professores pesquisadores, o movimento investigativo sobre as manifestações culturais afro-brasileiras deve ser contínuo, uma vez que ainda há inúmeros fatos historicamente invisibilizados.
Um exemplo significativo é o fato de que, no início do século XX, sambar, cantar ou batucar em espaços públicos era considerado crime, enquadrado na chamada Lei da Vadiagem. Pessoas negras flagradas nessas práticas eram presas. Ao ler o Dicionário da História Social do Samba, obra cuja leitura recomendo fortemente, descobri que o Delegado Chico Palha, citado na canção imortalizada por Zeca Pagodinho (composta em 1938 por Tio Hélio e Nilton Campolino), foi uma figura real. Conhecido por agredir sambistas e praticantes de religiões de matriz africana, sua atuação repressiva é denunciada nos versos:
“Delegado Chico Palha / Sem alma, sem coração / Não quer samba nem curimba na sua jurisdição…”.
Trago esses elementos não para reduzir o samba a um lugar exclusivo de dor e sofrimento, mas para evidenciar que, para ocupar o espaço de reconhecimento que tem hoje, o samba percorreu um caminho marcado por resistência, articulação política e excelência cultural negra.
O legado de Tia Ciata: samba, articulação comunitária e pedagogia antirracista
Enquanto Mestra em Relações Étnico-Raciais, professora, palestrante e idealizadora de cursos, reitero a centralidade do legado dos movimentos sociais negros para que hoje possamos debater relações raciais no Brasil. Antes mesmo da consolidação desses movimentos, experiências históricas – como quilombos, revoltas regenciais e insurgências – já demonstravam que a população negra sequestrada do continente africano resistiu, se organizou e produziu excelência, apesar das condições desumanas impostas.
Após a chamada “Abolição da Escravatura”, em 1888 — frequentemente narrada de forma romantizada, como um ato de benevolência da Princesa Isabel —, não houve qualquer política de integração ou reparação à população negra. As consequências dessa negligência estrutural permanecem visíveis até os dias atuais. Ainda assim, mesmo diante do racismo, da exploração e do abandono estatal, o povo negro criou uma das maiores expressões culturais do país: a escola de samba.
Nesse contexto, destaca-se o papel fundamental de Tia Ciata, uma das precursoras desse movimento. Hilária Batista de Almeida, conhecida como Tia Ciata, nasceu em 13 de janeiro de 1854, em Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano. Desde jovem, esteve profundamente ligada à religiosidade afro-brasileira. Aos 16 anos, foi uma das fundadoras da Irmandade da Boa Morte, em Cachoeira (BA). Filha de Oxum e iniciada no Candomblé, mudou-se para o Rio de Janeiro aos 22 anos, onde, além de criar 14 filhos, tornou-se Mãe-Pequena no terreiro de João Alabá.
Foi por meio desse espírito empreendedor, religioso e comunitário que Tia Ciata conquistou grande influência na região da Praça Onze, considerada o berço do samba. Sua casa tornou-se um espaço de encontro, articulação e resistência, onde cultura, religiosidade e sociabilidade se entrelaçavam, possibilitando o florescimento do samba e a preservação das tradições de matriz africana.
Durante cerca de duas décadas, esses encontros reuniram importantes nomes da música brasileira, como Donga, João da Baiana, Pixinguinha, Heitor dos Prazeres, Sinhô, entre muitos outros, formando um dos mais relevantes núcleos de músicos negros do país. Foi nesse ambiente que surgiu, entre 1916 e 1917, o samba “Pelo telefone”, de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba gravado no Brasil.
Conhecer a história de Tia Ciata é compreender que o samba é também resultado de uma articulação política, econômica, religiosa e pedagógica negra. Sua trajetória deve ser ensinada como símbolo da excelência negra e da produção de conhecimento afro-brasileiro.
O samba-enredo em sala de aula: propostas pedagógicas e indicações de repertório
Compreender o samba como ferramenta pedagógica implica incorporá-lo de maneira intencional, crítica e contextualizada às práticas educativas. Os sambas-enredo, em especial, constituem potentes dispositivos didáticos, pois possibilitam abordagens interdisciplinares que articulam história, sociologia, literatura, artes, língua portuguesa, matemática, ciências e geografia, promovendo tanto a leitura crítica da sociedade quanto a valorização da memória e das experiências negras.
Ao narrar processos históricos silenciados, personagens marginalizados e epistemologias negras, o samba-enredo amplia o repertório cultural dos estudantes e tensiona versões hegemônicas da história oficial. Dessa forma, contribui para a implementação efetiva da educação para as relações étnico-raciais, conforme previsto na legislação educacional brasileira, ao mesmo tempo em que reconhece o samba como expressão artística, política e intelectual.
Sugestões de sambas-enredo para uso em sala de aula
- História pra ninar gente grande — Estação Primeira de Mangueira (2019)
- Xica Manicongo — Paraíso do Tuiuti (2022)
- Um defeito de cor — Portela (2024)
- A verdade vos fará livre — Estação Primeira de Mangueira (2018)
- Candaces — Acadêmicos do Salgueiro (2007)
Esses sambas-enredo, entre outros, podem ser mobilizados como fontes históricas, disparadores de debates e instrumentos de valorização das narrativas negras, reafirmando o samba como espaço legítimo de produção de conhecimento e resistência cultural. As obras citadas apresentam elevado grau de criticidade, resgate histórico e densidade conceitual, oferecendo arcabouço teórico e simbólico para o trabalho com a educação para as relações étnico-raciais ao longo de todo o ano letivo.
Conclusão
O uso do samba-enredo em sala de aula rompe com perspectivas pedagógicas limitadas à reprodução de conteúdos e reconhece a cultura negra como produtora de saberes, teorias e práticas educativas. Ao integrar essas narrativas ao currículo escolar, a escola fortalece uma educação comprometida com a diversidade étnico-racial, a justiça social e a formação crítica dos estudantes. Assim, o samba-enredo se consolida não apenas como recurso didático, mas como estratégia pedagógica contínua e perene, capaz de promover pertencimento, consciência histórica e valorização das múltiplas matrizes que constituem a sociedade brasileira.
Referências
LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Antônio. Dicionário da história social do samba. 10. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2023. 335 p.
LOPES, Nei; SIMAS, Luiz Antonio. Filosofias africanas: uma introdução. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2020.








