O que levar em consideração no seu planejamento anual para construção de um projeto pedagógico anual antirracista
Conteúdo para Aulas Educador

O que levar em consideração no seu planejamento anual para construção de um projeto pedagógico antirracista  

Por Luiza Mandela

Estimativa de leitura: 6min 10seg

3 de dezembro de 2025

Como planejar atividades antirracistas ao longo do ano letivo? 

No artigo anterior, vimos que muitas instituições não cumprem em sua integralidade a lei 10639/03, que obriga as instituições públicas e privadas a inserirem em seus currículos o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. As práticas cotidianas sem formação continuada acabam por muitas vezes sendo reduzidas a ações pontuais, em datas comemorativas, não correspondendo o que diz a lei, que foi alterada pela 11645/08 que inclui o ensino da temática indígena ressaltando os aspectos sociais, econômicos e políticos.  

Mas como inserir, no planejamento anual da instituição, práticas que estejam presentes durante todo o ano letivo? A seguir, apresento alguns passos fundamentais para construir um planejamento pedagógico verdadeiramente antirracista. 

O primeiro passo é se rever enquanto educador(a) 

Como profissional que atuou em diversos setores da Educação pública, reconheço que grande parte dos educadores não recebeu formação adequada sobre relações étnico-raciais em seus cursos superiores. No entanto, a ausência dessa formação não pode justificar a imobilidade. 

  • Por isso, o processo começa com a autoanálise: 
  • Quem eu leio e ouço fora da escola? 
  • Quais referências sustentam meu fazer pedagógico? 
  • Tenho participado das formações ofertadas pela rede ou instituição e incorporado novos aprendizados às minhas práticas? 
  • Ou sigo replicando o que aprendi ao longo da vida sem questionamentos? 

O racismo é estrutural e, como lembra Sueli Carneiro (2023), a Educação brasileira praticou — e ainda pratica — o epistemicídio, apagando os conhecimentos de grupos historicamente marginalizados, como negros e indígenas. Fomos formados sob uma lógica eurocêntrica, racista e epistemicida, mas isso não significa que devemos reproduzir essas opressões. 

Revisitar trajetórias, revisar crenças e reconstruir práticas é o primeiro movimento para projetar um planejamento anual comprometido com uma Educação antirracista. 

É preciso analisar o contexto escolar  

Como a Educação historicamente foi um sistema construído baseado em um currículo eurocêntrico, se faz necessário analisar também o local em que você trabalha. Se o currículo escolar foi historicamente estruturado a partir de uma matriz eurocêntrica, torna-se essencial entender o terreno onde se pisa. 

Pergunte-se: 

  • A instituição está aberta a repensar seu currículo de forma antirracista? 
  • A rede de ensino (no caso das públicas) possui setor específico – Coordenadorias, Gerências -para tratar das questões raciais? 
  • O território participa das decisões da escola ou é apenas informado sobre elas? 
  • Há materiais pedagógicos adequados para o trabalho com essa perspectiva? 
  • A gestão está comprometida — ou disposta a se comprometer — com as relações étnico-raciais? 

Compreender o contexto escolar é fundamental para identificar o ponto de partida da construção de um currículo em que as Leis 10.639/03 e 11.645/08 apareçam não como exceção, mas como eixo estruturante do ano letivo. 

A Educação antirracista é urgente! 

A Educação antirracista está prevista na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e deve atravessar todas as disciplinas e práticas pedagógicas. Mas ter a lei não basta: é preciso compromisso político e intencionalidade pedagógica. 

Sempre reforço: não faz sentido começar “pela África” e seus 54 países, se sequer conhecemos a realidade do território onde a escola está inserida. É fundamental perguntar: 

  • O que o entorno da escola conta? 
  • Quem dá nome à escola? 
  • Que histórias e memórias atravessam aquele espaço comunitário? 

A oralidade — valor civilizatório afro-brasileiro criado por Azoilda Loretto da Trindade — precisa ser valorizada enquanto conhecimento. Em 2015, em Belford Roxo (RJ), tive a oportunidade conhecer e registrar as memórias de Dona Maria da Luz, rezadeira, parteira, umbandista e neta de pessoas escravizadas. Essa vivência gerou o artigo “Griôs contemporâneos: histórias e memórias da Educação Básica” e marcou profundamente minha prática, demonstrando a potência da escuta, da roda de conversa e do respeito aos mais velhos como guardiões de saberes. 

Atividades antirracistas não são apenas sobre conteúdos, mas também sobre vínculos, subjetividades e narrativas de potência. 

Curadoria crítica de materiais é indispensável 

Um planejamento antirracista só se sustenta se houver materiais pedagógicos coerentes. Não basta comprar livros “bonitos”: é essencial conhecer suas narrativas, seus autores, seus ilustradores e suas intencionalidades. 

Alguns autores e algumas autoras com obras infantis afro-referenciadas e indígenas de alta qualidade para você conhecer: 

  • Kiusam Oliveira;
  • Sonia Rosa;
  • Sinara Rúbia;
  • Otávio Júnior;
  • Fábio Simões;
  • Daniel Munduruku;
  • Werá Jeguaka Mirim;
  • Márcia Kambeba;
  • Aline Pachamama, entre outros. 

Hoje também contamos com recursos como giz de cera em tons de pele variados, fundamentais para trabalhar identidade e autoestima de forma respeitosa. Um exemplo potente é o livro A cor de Coraline, de Alexandre Rampazo, que pode ser articulado com atividades de autorretrato e reconhecimento das diferenças. 

Sair do adultocentrismo também é prática antirracista 

O adultocentrismo — conceito da sociologia da infância que afirma a centralidade e superioridade do adulto — precisa ser questionado. Escutar crianças e adolescentes, reconhecer suas percepções, suas perguntas e suas formas de ver o mundo é parte essencial de uma Educação antirracista. 

Afeto, escuta sensível e diálogo são pilares para construir uma Educação emancipatória, crítica e verdadeiramente comprometida com a dignidade de todos. 

Para concluir… 

Planejar atividades antirracistas ao longo do ano letivo exige formação contínua, revisão constante de práticas, diálogo com o território e coragem para romper com a pedagogia do evento. Mais do que inserir conteúdos, trata-se de transformar a escola em um espaço de valorização das identidades, de enfrentamento das desigualdades e de construção coletiva de novas narrativas. 

Uma Educação antirracista não se faz com ações pontuais, mas com compromisso diário, responsabilidade ética e intencionalidade política. É um trabalho que começa em cada educador(a), se estende à instituição e ecoa na formação de crianças e jovens capazes de construir um futuro mais justo, plural e verdadeiramente democrático. 

Referências 

  • BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394/1996, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003. 
  • BRASIL. Lei Nº 11.645, de 10 Março de 2008. Altera a Lei n nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº o 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003. 
  • CARNEIRO, S. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro, Zahar, 2023. 
  • SOARES, L.; M. S. S. BARBOSA, T. Griôs Contemporâneos: histórias e memórias na Educação Básica.  (Apresentação de Trabalho/Seminário). 2015. 

Assista ao vídeo sobre Educação Antirracista com Luiza Mandela:

Tags Relacionadas:
Luiza Mandela
Pedagoga, Doutoranda em Educação (UERJ) e Mestre em Relações Étnico-Raciais. Escritora, palestrante e idealizadora do Curso Letramento Racial. CEO da Mandela Consultoria Antirracista e formadora da Escola de Governo de Campinas. Criadora do podcast Mandela Pod. leia também Conteúdo para Aulas Educação Antirracista: o que é e como levar o tema racial para a sala de aula de forma […]
O que achou dessa matéria?

O que achou dessa matéria?

Clique nas estrelas

Média da classificação 3.4 / 5. Número de votos: 9

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

mais recentes
Ebook: Saberes e práticas do Ensino Religioso: unidades temáticas do Ensino Religioso na BNCC.
Conteúdo formativo

E-book – Saberes e práticas do Ensino Religioso: Unidades temáticas do Ensino Religioso na BNCC

Família

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

Saúde mental das crianças nas férias: 9 atitudes que fortalecem o bem-estar infantil

brincadeiras nas férias
Família

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

brincadeiras nas férias

15 brincadeiras para as férias com as crianças: diversão, vínculo e desenvolvimento longe das telas 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?
Conteúdo formativo

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias?

Silêncio, som e descanso: por que o professor precisa reaprender a ouvir nas férias? 

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: