Como planejar atividades antirracistas ao longo do ano letivo?
No artigo anterior, vimos que muitas instituições não cumprem em sua integralidade a lei 10639/03, que obriga as instituições públicas e privadas a inserirem em seus currículos o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana. As práticas cotidianas sem formação continuada acabam por muitas vezes sendo reduzidas a ações pontuais, em datas comemorativas, não correspondendo o que diz a lei, que foi alterada pela 11645/08 que inclui o ensino da temática indígena ressaltando os aspectos sociais, econômicos e políticos.
Mas como inserir, no planejamento anual da instituição, práticas que estejam presentes durante todo o ano letivo? A seguir, apresento alguns passos fundamentais para construir um planejamento pedagógico verdadeiramente antirracista.
O primeiro passo é se rever enquanto educador(a)
Como profissional que atuou em diversos setores da Educação pública, reconheço que grande parte dos educadores não recebeu formação adequada sobre relações étnico-raciais em seus cursos superiores. No entanto, a ausência dessa formação não pode justificar a imobilidade.
- Por isso, o processo começa com a autoanálise:
- Quem eu leio e ouço fora da escola?
- Quais referências sustentam meu fazer pedagógico?
- Tenho participado das formações ofertadas pela rede ou instituição e incorporado novos aprendizados às minhas práticas?
- Ou sigo replicando o que aprendi ao longo da vida sem questionamentos?
O racismo é estrutural e, como lembra Sueli Carneiro (2023), a Educação brasileira praticou — e ainda pratica — o epistemicídio, apagando os conhecimentos de grupos historicamente marginalizados, como negros e indígenas. Fomos formados sob uma lógica eurocêntrica, racista e epistemicida, mas isso não significa que devemos reproduzir essas opressões.
Revisitar trajetórias, revisar crenças e reconstruir práticas é o primeiro movimento para projetar um planejamento anual comprometido com uma Educação antirracista.
É preciso analisar o contexto escolar
Como a Educação historicamente foi um sistema construído baseado em um currículo eurocêntrico, se faz necessário analisar também o local em que você trabalha. Se o currículo escolar foi historicamente estruturado a partir de uma matriz eurocêntrica, torna-se essencial entender o terreno onde se pisa.
Pergunte-se:
- A instituição está aberta a repensar seu currículo de forma antirracista?
- A rede de ensino (no caso das públicas) possui setor específico – Coordenadorias, Gerências -para tratar das questões raciais?
- O território participa das decisões da escola ou é apenas informado sobre elas?
- Há materiais pedagógicos adequados para o trabalho com essa perspectiva?
- A gestão está comprometida — ou disposta a se comprometer — com as relações étnico-raciais?
Compreender o contexto escolar é fundamental para identificar o ponto de partida da construção de um currículo em que as Leis 10.639/03 e 11.645/08 apareçam não como exceção, mas como eixo estruturante do ano letivo.
A Educação antirracista é urgente!
A Educação antirracista está prevista na LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) e deve atravessar todas as disciplinas e práticas pedagógicas. Mas ter a lei não basta: é preciso compromisso político e intencionalidade pedagógica.
Sempre reforço: não faz sentido começar “pela África” e seus 54 países, se sequer conhecemos a realidade do território onde a escola está inserida. É fundamental perguntar:
- O que o entorno da escola conta?
- Quem dá nome à escola?
- Que histórias e memórias atravessam aquele espaço comunitário?
A oralidade — valor civilizatório afro-brasileiro criado por Azoilda Loretto da Trindade — precisa ser valorizada enquanto conhecimento. Em 2015, em Belford Roxo (RJ), tive a oportunidade conhecer e registrar as memórias de Dona Maria da Luz, rezadeira, parteira, umbandista e neta de pessoas escravizadas. Essa vivência gerou o artigo “Griôs contemporâneos: histórias e memórias da Educação Básica” e marcou profundamente minha prática, demonstrando a potência da escuta, da roda de conversa e do respeito aos mais velhos como guardiões de saberes.
Atividades antirracistas não são apenas sobre conteúdos, mas também sobre vínculos, subjetividades e narrativas de potência.
Curadoria crítica de materiais é indispensável
Um planejamento antirracista só se sustenta se houver materiais pedagógicos coerentes. Não basta comprar livros “bonitos”: é essencial conhecer suas narrativas, seus autores, seus ilustradores e suas intencionalidades.
Alguns autores e algumas autoras com obras infantis afro-referenciadas e indígenas de alta qualidade para você conhecer:
- Kiusam Oliveira;
- Sonia Rosa;
- Sinara Rúbia;
- Otávio Júnior;
- Fábio Simões;
- Daniel Munduruku;
- Werá Jeguaka Mirim;
- Márcia Kambeba;
- Aline Pachamama, entre outros.
Hoje também contamos com recursos como giz de cera em tons de pele variados, fundamentais para trabalhar identidade e autoestima de forma respeitosa. Um exemplo potente é o livro A cor de Coraline, de Alexandre Rampazo, que pode ser articulado com atividades de autorretrato e reconhecimento das diferenças.
Sair do adultocentrismo também é prática antirracista
O adultocentrismo — conceito da sociologia da infância que afirma a centralidade e superioridade do adulto — precisa ser questionado. Escutar crianças e adolescentes, reconhecer suas percepções, suas perguntas e suas formas de ver o mundo é parte essencial de uma Educação antirracista.
Afeto, escuta sensível e diálogo são pilares para construir uma Educação emancipatória, crítica e verdadeiramente comprometida com a dignidade de todos.
Para concluir…
Planejar atividades antirracistas ao longo do ano letivo exige formação contínua, revisão constante de práticas, diálogo com o território e coragem para romper com a pedagogia do evento. Mais do que inserir conteúdos, trata-se de transformar a escola em um espaço de valorização das identidades, de enfrentamento das desigualdades e de construção coletiva de novas narrativas.
Uma Educação antirracista não se faz com ações pontuais, mas com compromisso diário, responsabilidade ética e intencionalidade política. É um trabalho que começa em cada educador(a), se estende à instituição e ecoa na formação de crianças e jovens capazes de construir um futuro mais justo, plural e verdadeiramente democrático.
Referências
- BRASIL. Lei nº 10.639, de 9 de janeiro de 2003. Altera a Lei nº 9.394/1996, para incluir no currículo oficial da Rede de Ensino a obrigatoriedade da temática “História e Cultura Afro-Brasileira”. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jan. 2003.
- BRASIL. Lei Nº 11.645, de 10 Março de 2008. Altera a Lei n nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei nº o 9.394, de 20 de dezembro de 1996, modificada pela Lei no 10.639, de 9 de janeiro de 2003.
- CARNEIRO, S. Dispositivo de racialidade: a construção do outro como não ser como fundamento do ser. Rio de Janeiro, Zahar, 2023.
- SOARES, L.; M. S. S. BARBOSA, T. Griôs Contemporâneos: histórias e memórias na Educação Básica. (Apresentação de Trabalho/Seminário). 2015.








