Conheça um pouco da trajetória de Ailton Krenak e descubra formas de abordar sua obra e a luta dos povos indígenas em sala de aula.
Poeta, escritor, ativista, ambientalista, filósofo e sonhador. Esse é Ailton Krenak, uma das maiores lideranças do movimento indígena e um dos maiores escritores do Brasil que, no ano de 2024, foi imortalizado como referência viva da cultura e da literatura nacional pela Academia Brasileira de Letras (ABL) – onde ocupa o posto de 1º indígena eleito a tomar posse na ABL e assume a cadeira de número 5.
“O sonho é a confirmação de que você está vivo, no sentido além de sobreviver.” – KRENAK, Ailton
Mostrando, desde a década de 1970, quando iniciou sua trajetória de ativismo político, que, apesar do apagamento histórico, a cultura e a identidade dos povos originários resistem e se mantém viva através da transmissão de saberes entre gerações, da preservação dos ritos e da relação profunda com a natureza e os seus ensinamentos.
O poder dessa representatividade ganha ainda mais força quando pensamos no futuro. Em vez de imaginar o futuro apenas como avanço tecnológico ou crescimento econômico, Krenak propõe recuperar a capacidade de estabelecer vínculos, preservar a memória e reconhecer outras formas de existência, já que suas ideias nos convidam a perguntar que tipo de sociedade estamos construindo e quais são os conhecimentos que estamos deixando de ouvir ao longo do caminho, ampliando o debate sobre os desafios do presente e nos oferecendo ferramentas para refletir sobre questões que dizem respeito a toda a sociedade brasileira.
Por que Ailton Krenak é uma referência hoje e o que podemos aprender com as suas ideias?
Sua relevância está diretamente relacionada à presença indígena em espaços historicamente inacessíveis. E é partindo exatamente desse ponto que Ailton Krenak construiu sua trajetória entre a defesa dos direitos dos povos indígenas, a comunicação e a literatura.
Em 1980, sua militância e sua atuação política começou a ganhar destaque, especialmente durante a Assembleia Nacional Constituinte, quando participou da mobilização pela garantia dos direitos indígenas na Constituição de 1988. Em 4 de setembro de 1987, seu discurso na Constituinte, acompanhado do gesto de pintar o rosto com tinta de jenipapo em protesto ao retrocesso e a falta de garantia dos direitos dos povos indígenas, tornou-se um dos momentos mais marcantes da sua trajetória.
Apesar desse grande marco, a contribuição do autor não se resume à atuação política. Ao levar saberes, memórias e formas indígenas de compreender o mundo para a literatura, Krenak amplia o espaço ocupado por essas narrativas na cultura brasileira. Seus livros, como Ideias para adiar o fim do mundo, A vida não é útil e Futuro ancestral, partem da oralidade – definida pelo autor como um “oceano de sabedoria” – e de conhecimentos ligados ao povo Krenak para discutir temas como a relação com a natureza, a ideia de progresso e os diferentes modos de imaginar o mundo.
Ao transformar vivências e memórias indígenas em literatura, Krenak contribui para que histórias que foram silenciadas por tanto tempo também ocupem o lugar da memória e do conhecimento. Portanto, sua obra nos convida a conhecer não apenas a história dos povos indígenas, mas, também, a ouvir como esses povos pensam o presente, valorizam o passado e imaginam o futuro.
O que se conecta perfeitamente a um dos traços literários que marcam a sua escrita e que, também, foi um dos fatores que contribuíram para que ele se tornasse uma das maiores vozes do pensamento contemporâneo: o questionamento de ideias que foram naturalizadas como verdades absolutas. Algo que nos convida à reflexão e pode ser tratado como um dos melhores caminhos para trabalhar suas ideias.
Assista ao trailer do documentário conduzido por Ailton Krenak, que mostra a luta diária de pessoas que defendem a floresta em diferentes regiões da Amazônia:
Como trabalhar Ailton Krenak na escola?
Muita gente não sabe, mas, “Krenak” não se refere ao sobrenome de Ailton Alves Lacerda, e, sim, ao nome do povo e do pertencimento étnico de sua família. O que pode ser um ponto de partida para se trabalhar o tema em sala de aula e ir além de uma data específica do calendário escolar, partindo de seus ensinamentos para desconstruir o que os estudantes já conhecem sobre progresso, natureza, território, futuro e a própria ideia de humanidade.
Além disso, a Lei nº 11.645/2008 determina o ensino da história e da cultura indígena em toda a Educação Básica e prevê que esses conteúdos abordem as contribuições, as lutas e as culturas dos povos indígenas na formação da sociedade brasileira, por isso, Krenak pode ser uma porta de entrada para ampliar o repertório dos estudantes.
Em História, sua trajetória permite reconstruir o contexto da Assembleia Nacional Constituinte de 1987-1988 e discutir a participação indígena na construção da Constituição. Em Língua Portuguesa e Literatura, seus textos podem ser analisados a partir da linguagem, da argumentação e da relação entre oralidade, pensamento e escrita. Em Ciências Humanas e da Natureza, suas ideias podem provocar debates sobre território, desmatamento, preservação do meio ambiente e tudo que gira em torno da natureza.
Trazendo os seus livros como referência, neste contexto, Ideias para adiar o fim do mundo, por exemplo, pode abrir discussões sobre a relação entre sociedade e natureza, consumo, desenvolvimento e crise ambiental. Já Futuro ancestral permite trabalhar conceitos como ancestralidade, memória e diferentes formas de pensar o amanhã. Aperte o play e conheça um pouco da história, da trajetória e dos momentos marcantes da vida do autor e dos povos indígenas:
Trabalhar Ailton Krenak na escola é abrir espaço para outras formas de compreender o mundo, já que a riqueza da sua obra e da sua trajetória permitem aproximar temas como literatura, história, território, memória e cidadania, convidando os estudantes a questionar os seus próprios aprendizados. Ao entrar em contato com seus textos e com os saberes do povo Krenak, os estudantes também podem perceber que aprender passa por escutar diferentes perspectivas e entender que os povos indígenas não pertencem ao passado e são parte ativa da construção do presente e das possibilidades de futuro.
Poranga Marandúa: um manual de redação do jornalismo indígena
E, para quem deseja ir além e aprofundar as discussões em torno do tema, no mês de agosto de 2026, a Articulação Brasileira de Indígenas Jornalistas (Abrinjor) lançou a primeira edição do Poranga Marandúa, um manual de redação do jornalismo indígena, que, para além da comunicação, pode se tornar uma ferramenta indispensável para a Educação e formação da nova geração, sendo uma ótima fonte para professores que querem acabar com as representações estereotipadas.
Em sala de aula, o material pode servir como ponto de partida para discutir representação, linguagem, produção de conhecimento e diversidade dos povos indígenas. Os professores podem, por exemplo, propor que os estudantes analisem notícias, livros didáticos, filmes ou outros conteúdos sobre os povos indígenas e identifiquem quais imagens e termos aparecem nessas representações. E, a partir das orientações do manual, a turma pode discutir como escolhas de linguagem e de fontes influenciam a maneira como diferentes povos são apresentados e produzir novas narrativas que abracem à diversidade e o protagonismo indígena.
O Poranga Marandúa já está disponível gratuitamente na internet e reúne termos, orientações e princípios construídos a partir das perspectivas de mais de 40 povos indígenas. Discutindo como os povos originários são representados pela mídia e propondo uma comunicação que reforce suas origens para além de histórias contadas por terceiros.
Conheça a trajetória de outros grandes autores indígenas e amplie seu repertório com as suas obras lançadas pela FTD Educação.
1. A palavra como território: Yaguarê Yamã, literatura e resistência indígena
Para além do que aprendemos sobre ancestralidade: a beleza da brasilidade por meio da literatura indígena.


2. A sabedoria de Daniel Munduruku, o Pajé Jurecê de “Terra e Paixão”
Confira como o escritor, educador e ativista tem criado pontes entre os saberes por meio da literatura.









