livro: kurumi guaré no coração da amazonia
Conteúdo formativo Educador

A palavra como território: Yaguarê Yamã, literatura e resistência indígena

Por Loreny Mendes

Estimativa de leitura: 9min 26seg

17 de abril de 2026

Para além do que aprendemos sobre ancestralidade: a beleza da brasilidade por meio da literatura indígena.

Yaguarê Yamã é escritor indígena pertencente aos povos maraguá e sateré-mawé, autor de Pequenas guerreiras e de mais de 50 obras publicadas. Nesta entrevista, ele compartilha sua trajetória e reflete sobre o papel da literatura indígena na preservação da cultura e na construção da identidade brasileira. 

Ygaurê
Reprodução: arquivo pessoal 

1. Na sua infância, a transmissão de histórias acontecia principalmente pela oralidade. Como foi transformar essas narrativas em palavra escrita? O que se perde e o que se transforma nesse processo? 

Na minha infância, de fato, a transmissão das histórias acontecia pela oralidade. Não havia sequer como ter contato com os livros, mas havia uma quantidade enorme de histórias que ouvíamos nas misharucas, as casas de conselho, principalmente à noite. E foi justamente esse contato que me fez escritor, porque ali eu conheci os costumes, entendi as narrativas e absorvi a essência do meu povo. O povo maraguá, inclusive, é muito conhecido pelas histórias de fantasmas, e não é à toa que eu trago muito disso na minha literatura. 

Nesse sentido, eu não vejo que há perda nesse processo, mas sim ganho. Hoje, os povos originários estão sendo forçados a perder a própria identidade diante de uma cultura homogênea, muito influenciada por referências externas, e isso é uma infelicidade, porque não há nada mais bonito do que um mundo com diversidade. Por isso, a escrita se torna uma forma de manter a cultura viva — foi a partir dela que o povo maraguá começou a se proteger do apagamento. 

2. Você pertence a dois povos: maraguá e sateré-mawé. De que forma essa dupla herança cultural atravessa suas histórias? 

Eu acredito que isso é um privilégio, porque eu sei de onde eu vim e conheço as minhas fontes, e isso é muito forte dentro de mim. Pertencer a duas etnias faz com que a gente valorize mais, conheça mais e se aprofunde mais nas nossas próprias origens. 

Ao mesmo tempo, essa vivência atravessa diretamente a forma como eu vejo o mundo e, consequentemente, a forma como eu conto as histórias. Porque pertencer a duas culturas é algo enriquecedor e isso aparece tanto na construção dos personagens quanto na maneira como eu organizo as narrativas. 

3. “Pequenas guerreiras” nasceu de um sonho. O que lhe motivou a transformar esse sonho em narrativa? 

O livro nasceu de um sonho e, mesmo tendo passado muito tempo, eu ainda me lembro como se fosse hoje. Era um sonho inteiro no idioma nativo, todo o enredo acontecia dessa forma, e, no início, eu quis escrever assim. No entanto, entendi que poucas pessoas conseguiriam compreender, e foi então que o livro se tornou uma extensão desse sonho. 

A partir disso, escrever sobre as mulheres guerreiras da Amazônia, na década de 1940, é também escrever sobre aquilo que os povos indígenas reconhecem como realidade, mesmo que, para muitos, isso seja visto apenas como lenda, ou seja, a narrativa nasce desse encontro entre sonho, memória e crença. 

4. Durante muito tempo, os povos indígenas foram retratados por autores não indígenas. O que muda quando essas histórias passam a ser contadas pelos próprios povos originários? 

Durante muito tempo, os povos indígenas foram retratados por escritores que não pertenciam a esses povos, e isso é o que chamamos de falta de lugar de fala. São pessoas que nunca estiveram naquele convívio, naquele entendimento, naquela essência da sociedade, e, ainda assim, falavam como se tivessem propriedade. Como consequência, surgiram estereótipos e preconceitos que se estendem até hoje. 

Por outro lado, quando os próprios povos passam a contar suas histórias, esse cenário começa a mudar. Desde a chegada de Daniel Munduruku, esse movimento cresceu muito no Brasil, e eu faço parte desse início da literatura indígena. Nesse contexto, existe uma responsabilidade muito grande, porque só um autor indígena sabe a importância de falar a verdade, e não algo deturpado. Assim, a literatura passa a mostrar a realidade, ajudando o Brasil a se olhar no espelho, sem romantizações, mas também sem os estereótipos de quem não conhecia. 

Reprodução: arquivo pessoal

5. Você conta que foi Daniel Munduruku que abriu o caminho para se tornar escritor. O que significa, para você, ser um escritor indígena no Brasil contemporâneo? 

Eu sempre digo – e não tenho problema nenhum em continuar dizendo – que isso é um motivo de orgulho. Ter o Daniel Munduruku como alguém que abriu esse caminho foi muito importante para mim, porque eu sonhava em publicar meu primeiro livro, meu primeiro poema, mas ainda não tinha encontrado uma oportunidade. Quando isso aconteceu, eu pensei que já tinha realizado tudo o que queria. 

No entanto, depois veio o segundo livro, e eu não parei mais. Hoje já são mais de 50 obras publicadas, e isso representa uma grande vitória, não só minha, mas do movimento indígena como um todo. Porque mostra que o nosso conhecimento, a nossa cultura e a nossa brasilidade têm espaço e podem ser reconhecidos. 

6. Você acredita que escrever também é um gesto político? Como a literatura atua na resistência dos povos originários? 

Sim, escrever é, de fato, um gesto político. Eu costumo dizer que sou ativista, e a literatura é a ferramenta desse ativismo. Eu luto pelo que chamo de brasilidade, às vezes também de amazonidade ou indianidade, mas, no fundo, estou falando da mesma coisa: mostrar a verdadeira essência do Brasil, aquela que é nativa e original. 

Nesse sentido, a literatura indígena cumpre um papel fundamental, porque ela tira dúvidas, quebra estereótipos e avança contra o preconceito. Isso acontece porque o preconceito nasce da falta de conhecimento, mas, quando conhecemos, passamos a nos reconhecer. E é assim que o Brasil começa a se enxergar de fato. 

7. O que significou para você ter um de seus livros no catálogo White Ravens? 

Eu acho importante sermos reconhecidos, sim. No entanto, mais do que os prêmios, o que realmente importa para mim é o reconhecimento dos leitores. Ter leitores fiéis, professores, professoras e alunos entrando em contato, fazendo perguntas, se envolvendo com a obra, isso não tem preço. 

Os prêmios são importantes, inclusive para o ego, mas o que eu valorizo de verdade é esse retorno direto de quem lê. É isso que dá sentido ao que eu faço. 

8. Como as escolas e os educadores podem combater o apagamento da cultura dos povos originários? 

Se olhando no espelho, é isso que eu sempre digo. Está na hora de o brasileiro se enxergar de fato, e a literatura indígena é uma das ferramentas mais importantes para esse processo, porque ela promove inclusão e reconhecimento. 

Por isso, os educadores precisam conhecer essa literatura. O preconceito vem da ignorância, mas, quando conhecemos, passamos a abraçar. É preciso se aproximar das culturas indígenas para conhecer a si mesmo, porque, muitas vezes, a falta de conhecimento faz com que o brasileiro não se reconheça. E, quando a gente se reconhece, a gente se valoriza. 

9. O que você espera que novos leitores percebam ao entrar em contato com suas obras? 

Eu prefiro chamar de Brasil brasileiro, Brasil originário, Brasil nativo ou simplesmente brasilidade. Isso porque não existe essa separação entre “nós” e “eles”. É muito difícil encontrar um brasileiro que não tenha, em alguma medida, origem indígena, e esse pertencimento já diz muito. 

Dessa forma, o que eu espero é que as pessoas entendam a brasilidade como uma ponte, e não como um distanciamento. Estamos todos no mesmo barco, na mesma luta, e a diversidade cultural é justamente o que constrói o que é ser brasileiro. 

10. Como você imagina o futuro da literatura indígena no Brasil? 

Quando começamos, era muito difícil publicar. A FTD foi uma das editoras mais acolhedoras nesse início, mas, de modo geral, havia muita resistência, e muitos diziam que a literatura indígena ainda era um assunto “cru”. 

Hoje, esse cenário mudou. Há mais reconhecimento, mais leitores, e isso também fez crescer o número de escritores indígenas. Por isso, eu imagino um futuro ainda melhor, porque, quanto mais o Brasil se descobre, mais ele cresce, e mais se volta para aquilo que é seu. 

11. Que mensagem você deixaria para quem está entrando em contato com a literatura indígena pela primeira vez? 

Não há literatura mais verdadeira, mais bonita e mais rica. Estamos falando de mais de 300 povos, com culturas, religiosidades e mitologias diversas, o que faz do Brasil um verdadeiro universo dentro de outro universo. 

Por isso, quem entra nesse mundo não se decepciona. Essa é a nossa riqueza, o nosso legado. Salve o Brasil, salve a brasilidade e salvemos a nossa ancestralidade.  

Para continuar essa leitura 

A literatura indígena é, antes de tudo, um convite: a se reconhecer, a escutar outras formas de ver o mundo e, sobretudo, a compreender o Brasil a partir de suas raízes. 

Na FTD Educação, esse convite se materializa também nas obras de Yaguarê Yamã, que integram o catálogo da editora e podem ser trabalhadas em diferentes contextos pedagógicos, ampliando o repertório dos estudantes e promovendo o contato com narrativas que valorizam a diversidade cultural brasileira. 

Conheça os livros de Yguarê Yamã publicados pela FTD 

1. Pequenas guerreiras  

livro Pequenas guerreiras

Certa vez, Yaguarê sonhou com um livro intitulado Pequenas guerreiras, e resolveu escrevê-lo. É a história de cinco meninas, filhas das amazonas, lendárias guerreiras indígenas que deram nome ao estado homônimo, no Norte do Brasil. Um dia, elas vão brincar no lago Espelho da Lua, na região do rio Nhamundá, e são surpreendidas por indígenas inimigos.

2. Kurumi Guare no coração da amazônia – Digital

livro: kurumi guaré no coração da amazonia

À beira do paraná do Urariá, o pequeno Yaguarê Yamã aprende a viver em contato com a natureza exuberante, intocada, preservada. Singra lagos e ygarapés sob as copas da mata alagada, escapa de bichos nos ygapós, percebe os espíritos da floresta, vê homens lutando com animais gigantescos. 

 

Ao levar essas obras para a sala de aula, os educadores contribuem não apenas para a formação leitora, mas também para a construção de uma Educação mais plural, que reconhece, valoriza e respeita os povos originários. 

Porque, como lembra o próprio autor, conhecer é o primeiro passo para se reconhecer e, a partir disso, transformar. 

O que achou dessa matéria?

O que achou dessa matéria?

Clique nas estrelas

Média da classificação 5 / 5. Número de votos: 1

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

mais recentes
cultura maker na escola
Conteúdo para Aulas

Cultura maker na Educação: por que o aprender fazendo ganhou espaço nas escolas 

Aprendizagem criativa: o que é
Conteúdo para Aulas

Aprendizagem Criativa: estratégias para integrar a criatividade na sala de aula

Aprendizagem criativa: o que é

Aprendizagem Criativa: estratégias para integrar a criatividade na sala de aula

Sustentabilidade na escola
Conteúdo para Aulas

Sustentabilidade na escola: muito além da reciclagem e das datas comemorativas 

Sustentabilidade na escola

Sustentabilidade na escola: muito além da reciclagem e das datas comemorativas 

Parque Ibirapuera
Conteúdo para Aulas

Revolução Constitucionalista de 1932: o que foi e como trabalhar o tema em sala de aula 

Parque Ibirapuera

Revolução Constitucionalista de 1932: o que foi e como trabalhar o tema em sala de aula 

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: