Envolver os estudantes nas escolhas, valorizar diferentes formas de ler e transformar os livros em experiências significativas: entenda como um projeto de leitura pode contribuir para a formação de leitores desde os primeiros anos escolares.
Se existe um sonho educacional coletivo no Brasil, ele passa pela construção de um país mais leitor. Um país em que toda criança tenha não apenas acesso aos livros, mas também oportunidades para descobrir neles histórias que despertem curiosidade, provoquem perguntas, ampliem horizontes e ajudem a compreender a si mesma e o mundo.
Esse processo começa muito antes da alfabetização.
Antes mesmo de conseguir decodificar palavras, a criança já pode construir uma relação com a literatura: ao observar as ilustrações de um livro, acompanhar uma história contada por um adulto, antecipar acontecimentos de uma narrativa, repetir trechos de que gosta, inventar finais ou pedir que a mesma história seja lida inúmeras vezes.
É nesse contexto que os projetos de leitura ganham importância.
Mais do que uma sequência de atividades em torno dos livros, um projeto de leitura cria condições para que a literatura faça parte da cultura da escola e da rotina das crianças. Quando bem planejado, ele pode ampliar o repertório linguístico e cultural, favorecer a imaginação, fortalecer vínculos entre escola e família e, principalmente, ajudar a construir uma relação positiva com a leitura.
O desafio, portanto, não é apenas fazer a criança ler mais. É fazer com que ela encontre sentido e prazer na experiência de ler.
Mas como desenvolver um projeto de leitura na escola que vá além de fichas, resumos e atividades obrigatórias? Como transformar o encontro com os livros em uma experiência de descoberta, expressão e aprendizagem?
Neste artigo, reunimos estratégias para ajudar educadores e gestores a planejar projetos de leitura mais significativos, além de sugestões de livros para a Educação Infantil.
O que é um projeto de leitura?
Um projeto de leitura é uma proposta pedagógica planejada para ampliar o contato dos estudantes com diferentes textos, gêneros, autores e experiências leitoras.
Isso significa que ele não deve ser entendido apenas como uma atividade pontual — como realizar uma semana literária ou escolher um livro para toda a turma. O projeto ganha força quando existe intencionalidade, continuidade e espaço para a participação das crianças.
Na Educação Infantil, essa perspectiva é especialmente importante porque formar leitores não significa antecipar processos formais de alfabetização.
A criança pequena pode desenvolver comportamentos leitores mesmo antes de ler convencionalmente. Ela aprende, por exemplo, que os livros carregam histórias e informações; percebe relações entre imagens e narrativas; reconhece personagens; formula hipóteses sobre o que acontecerá; estabelece relações entre uma história e suas próprias experiências; e descobre que a leitura também pode ser uma fonte de prazer.
Por isso, mais do que ensinar a ler, o objetivo é criar condições para formar leitores: crianças curiosas diante dos livros, capazes de ouvir, imaginar, perguntar, interpretar, criar e compartilhar suas próprias impressões.
Projeto de leitura não é apenas “ler um livro”
Um dos riscos ao desenvolver projetos de leitura é transformar cada encontro com a literatura em uma tarefa. Depois da história, vem o desenho. Depois do livro, a ficha. Depois do conto, as perguntas de interpretação.
Essas propostas podem ter espaço no planejamento pedagógico, mas não precisam acompanhar todas as experiências literárias.
A leitura também precisa existir simplesmente porque ler pode ser prazeroso, curioso, divertido, emocionante ou surpreendente.
Imagine uma criança que, sempre que escuta uma história, sabe que depois precisará responder perguntas sobre personagens, identificar determinadas informações ou produzir alguma atividade. Aos poucos, o livro pode deixar de ser associado à descoberta e passar a representar apenas mais uma tarefa escolar.
Por isso, um bom projeto precisa equilibrar diferentes experiências: momentos de leitura mediada, leitura livre, exploração individual dos livros, conversas sobre histórias, dramatizações, reconto, produção artística e, inclusive, momentos em que nada é solicitado depois da leitura.
Às vezes, a melhor atividade depois de uma boa história é simplesmente ouvir: “Conta de novo?”
Por que projetos de leitura são tão importantes na Educação Infantil?
Ler e ouvir histórias na infância contribui diretamente para o desenvolvimento da linguagem oral, para a ampliação do vocabulário, para a criatividade e até mesmo para a empatia. Além disso, a leitura estimula habilidades socioemocionais como escuta ativa, autorregulação, respeito à diversidade e construção da identidade.
Implementar um projeto de leitura na Educação Infantil não é apenas uma decisão pedagógica inteligente, é uma estratégia urgente diante de uma realidade preocupante no Brasil. A pesquisa Avaliação da Qualidade da Educação Infantil: um retrato pós-BNCC, realizado pela Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal (FMCSV), em parceria com o Lepes/USP, Movimento Bem Maior e apoio do Itaú Social, aponta que:
- Apenas 45 % das turmas de Educação Infantil realizam atividades de leitura mediada por professores, e mais de 5 % dessas práticas ocorrem sem intencionalidade pedagógica.
- Embora 83 % das unidades tenham livros, apenas 10 % oferecem acesso livre às crianças e 39 % não promovem regularmente atividades literárias na rotina
- Apenas 27 % das turmas promovem leitura compartilhada regularmente
Além disso, a 6ª edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada pelo Instituto Pró-Livro (IPL), apontou que 53% dos brasileiros são considerados não-leitores (não leram livros nos três meses anteriores), enquanto 47% (cerca de 93,4 milhões de pessoas) são leitores. Pela primeira vez, os não-leitores superaram a metade da população avaliada.
Ou seja: se queremos reverter o quadro de baixa leitura no país, a Educação Infantil se apresenta como o terreno mais promissor para formar leitores, e leitores que leem por prazer, muito além do gosto imposto pela sala de aula.
Como fazer um projeto de leitura na escola?
Antes de escolher atividades, vale responder a uma pergunta fundamental: Que relação queremos que nossas crianças construam com a leitura?
Se a resposta envolver curiosidade, autonomia, prazer, imaginação e pensamento crítico, o projeto precisa oferecer oportunidades reais para que essas experiências aconteçam.
Alguns princípios podem orientar o planejamento. É importante garantir diversidade de obras e gêneros; criar momentos frequentes de leitura; permitir que as crianças escolham livros; tornar os materiais acessíveis; valorizar as interpretações dos estudantes; envolver as famílias sem transformar a leitura doméstica em obrigação; e acompanhar o interesse das crianças ao longo do projeto.
Outro cuidado é evitar que o número de livros lidos se torne o principal indicador de sucesso.
Uma criança pode folhear dez livros rapidamente e não estabelecer vínculo com nenhum deles. Outra pode querer ouvir a mesma história durante semanas, descobrir novos detalhes nas ilustrações e recontá-la durante suas brincadeiras.
Formar leitores não é uma corrida por quantidade.
7 ideias criativas para um projeto de leitura na Educação Infantil
1. Roda de leitura com escuta ativa e participação
Crie um espaço convidativo para as leituras coletivas. Almofadas, tapetes, tecidos, objetos relacionados à história ou fantoches podem ajudar a construir uma atmosfera diferente da rotina convencional.
Mas o elemento mais importante continua sendo a mediação do educador.
Antes da leitura, explore a capa, o título e as ilustrações. Pergunte às crianças sobre o que imaginam que acontecerá.
Durante a história, permita reações espontâneas e observe aquilo que desperta curiosidade.
Depois, em vez de procurar apenas respostas corretas, experimente perguntas abertas:
- “O que mais chamou sua atenção?”
- “Você faria a mesma coisa que esse personagem?”
- “Como você acha que ele estava se sentindo?”
- “Que outro final essa história poderia ter?”
Assim, a criança deixa de ocupar apenas o lugar de ouvinte e passa a participar ativamente da construção de sentidos.
2. Livro do fim de semana
Permita que cada criança escolha um livro para levar para casa.
A escolha é importante: quando o estudante participa da decisão sobre o que deseja ler ou ouvir, a experiência ganha um componente de autonomia.
A família pode ser convidada a compartilhar esse momento sem a obrigação de produzir uma atividade escolar extensa. Um desenho, uma fotografia, um áudio curto ou até uma conversa da criança com a turma podem registrar a experiência.
O objetivo não é fiscalizar se a família “fez a tarefa”, mas criar uma ponte entre livro, criança, escola e casa.
3. Projeto de leitura por temas do cotidiano
Sentimentos, alimentação, animais, natureza, amizade, diferenças, família, brincadeiras e mudanças são alguns dos temas que podem aproximar literatura e cotidiano.
Mas o livro não precisa funcionar apenas como uma ferramenta para ensinar outro conteúdo.
Uma obra literária tem valor também pela linguagem, pelas imagens, pelo humor, pela estética e pelas perguntas que provoca.
Por isso, ao trabalhar um tema, combine diferentes tipos de textos e permita que as histórias conduzam o projeto para caminhos inesperados.
No Lumisfera , você encontra obras para diferentes faixas etárias e temáticas que podem apoiar projetos de leitura desenvolvidos ao longo do ano.
4. Contação de histórias com diferentes linguagens
Nem toda história precisa ser apresentada da mesma maneira.
Experimente teatro de sombras, fantoches, objetos, músicas, sons, ilustrações ampliadas, varais literários ou pequenas dramatizações.
Depois de conhecer bem uma narrativa, as próprias crianças podem participar do reconto.
Uma turma pode representar os personagens; outra pode produzir sons; algumas crianças podem organizar imagens na sequência da narrativa.
Esse processo trabalha memória, oralidade, imaginação e expressão corporal, além de mostrar que uma história pode ser contada e reinterpretada por diferentes linguagens.
5. Projeto com livros escolhidos pelos estudantes
Quem sempre escolhe os livros na sua escola? Se a resposta for “o professor”, talvez seja interessante abrir espaço para as crianças.
Organize pequenas seleções de obras e permita que elas escolham aquela que desejam explorar. Observe quais capas despertam curiosidade, quais histórias são solicitadas novamente e quais assuntos aparecem espontaneamente nas conversas.
Essas escolhas também fornecem informações valiosas ao educador sobre os interesses da turma.
O protagonismo leitor começa quando a criança percebe que seus gostos e suas interpretações também importam.
6. Clube de leitura
Mesmo na Educação Infantil é possível criar uma versão adaptada de clube de leitura.
Os encontros podem acontecer mensalmente e envolver uma história escolhida pela turma, seguida de conversa, brincadeira, reconto ou atividade artística.
Em alguns encontros, as famílias podem participar. Em outros, profissionais da escola podem ser convidados a compartilhar seus livros favoritos.
Isso ajuda a transmitir uma mensagem importante: a leitura não pertence apenas à aula de Língua Portuguesa ou ao momento pedagógico — ela faz parte da vida e da comunidade.
7. Mapa das leituras da turma
Em vez de contar quantos livros cada criança leu, crie um grande registro coletivo das experiências literárias.
Depois de cada leitura, a turma pode acrescentar ao mural o nome da obra, uma imagem, uma palavra escolhida pelas crianças ou uma pequena frase sobre aquilo que mais chamou atenção.
Ao longo dos meses, o mural se transforma em uma espécie de memória literária da turma.
Mais do que medir desempenho, ele ajuda as crianças a perceberem o caminho que percorreram juntas como leitoras.
10 livros para projeto de leitura na Educação Infantil
Confira abaixo algumas sugestões de livros, com diversidade temática, estética e cultural:
- Tantos medos e outras coragens – Roseana Murray
- O caso do bolinho – Tatiana Belinky
- Bem lá no alto – Susanne Strasser
- Bichodário – Telma Guimarães
- Uma velha e três chapéus – Sylvia Orthof
- Luana, a menina que viu o Brasil neném – Aroldo Macedo e Oswaldo Faustino
- A princesa que não queria aprender a ler – Heloisa Prieto
- Histórias encantadas de pequenos sambistas – Cristiano Gouveia
- O varal – Renata Bueno
- Menina bonita do laço de fita – Ana Maria Machado



Como saber se o projeto de leitura está funcionando?
Avaliar um projeto de leitura não significa aplicar uma prova sobre os livros.
Na Educação Infantil, a observação cotidiana pode revelar muito mais sobre a formação leitora.
As crianças começaram a procurar espontaneamente o cantinho dos livros? Pedem que determinadas histórias sejam lidas novamente? Comentam sobre personagens durante outras atividades? Recontam histórias nas brincadeiras? Começaram a explorar livros de forma mais autônoma? Fazem perguntas sobre palavras e ilustrações? Conversam com os colegas sobre aquilo que ouviram?
Esses comportamentos ajudam o professor a perceber se os livros estão deixando de ser apenas objetos presentes na sala para se tornarem parte da experiência das crianças.
O educador pode registrar essas observações ao longo do projeto e utilizá-las para planejar novas mediações, selecionar obras e compreender os interesses da turma.
Leitura e habilidades socioemocionais: qual é a relação?
Quando uma criança acompanha uma história, ela é convidada temporariamente a enxergar o mundo pela perspectiva de outra pessoa.
- Por que aquele personagem ficou triste?
- Por que tomou determinada decisão?
- O que poderia ter feito de outra maneira?
- Como eu me sentiria naquela situação?
A literatura não oferece respostas prontas para essas perguntas — e justamente aí está parte de sua riqueza.
Ao conversar sobre personagens, conflitos e diferentes formas de viver, as crianças encontram oportunidades para refletir sobre emoções, escolhas, relações e diferenças.
Quando também podem escolher o que querem ler, aprendem algo sobre si mesmas: descobrem preferências, constroem repertório e percebem que sua voz tem espaço.
Por isso, ao planejar um projeto de leitura para Educação Infantil, não se restrinja aos contos de fadas clássicos. Inclua literatura contemporânea, poesia, quadrinhos, livros informativos, receitas, listas, bilhetes, parlendas e diferentes manifestações culturais.
Toda leitura pode abrir uma nova possibilidade de compreender o mundo.








