A diversidade dos sambas-enredo os torna tão singulares, que contribuem para a formação cultural dos estudantes, além de serem, inclusive, questões de vestibulares.
Os sambas-enredo são uma linguagem tão rica, que as possibilidades de exploração na Educação, do Ensino Infantil ao Ensino Médio, são imensas. A sonoridade, a expressão corporal, a linguagem escrita e a diversidade cultural são grandes fontes de estudo. O uso interdisciplinar que o material oferece ao propor atividades, por exemplo, contribui para inspirar e trazer conhecimento aos estudantes.
Mas antes de falar sobre os sambas-enredo contextualizados nas aulas, que tal um pouco de história sobre eles?
O que são sambas-enredo?
São produções narrativas que compõem o universo complexo das escolas de sambas de diferentes locais do Brasil. Os sambas-enredo buscam representar a história que a agremiação decide contar em seu desfile. O que os torna singulares são as linguagens narrativas compostas de diferentes textos, criados a partir do enredo desenvolvido pela escola de samba, que também agregam pesquisas realizadas pelos compositores e trechos que falam sobre a identidade da escola.
Boa parte deles retrataram narrativas históricas brasileiras, e nesse ponto eles contribuem para a formação da memória histórica, mesmo que indiretamente.
Quem dá voz ao sambas-enredo na avenida são os intérpretes, também conhecidos como “puxadores” de samba. Durante o desfile, ele é acompanhado de quatro a seis auxiliares que fazem o coro. Por volta da década de 1960, foram surgindo ideias de amplificação sonora nos desfiles e foi nesse período que surgiu o termo, direcionado ao intérprete do samba-enredo.

Sambas-enredo em aula. Isso dá samba?
Dá sim! As composições, combinadas a outras fontes históricas, podem estimular a produção do conhecimento e o desenvolvimento do pensamento crítico dos estudantes.
> Vamos a alguns exemplos:
Em 1963, a Acadêmicos do Salgueiro levou para a avenida o samba-enredo “Xica da Silva”, escrito por Noel Rosa de Oliveira e Anescar Rodrigues. Na ocasião, a escola homenageou personalidades negras importantes que não eram conhecidas pelo grande público e foi com esse intuito que o enredo foi desenvolvido. Além disso, essa foi a primeira vez que uma personagem feminina foi tema central no carnaval do Rio de Janeiro.
“Com a influência e o poder do seu amor / Que superou a barreira da cor / Francisca da Silva, do cativeiro zombou / No Arraial do Tijuco / Lá no Estado de Minas.”
Veja que fonte riquíssima para abordagem em aula de temas como: escravidão, racismo, história do Brasil e reconhecimento da mulher, por exemplo.
Já em 1989, o samba icônico “Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós”, composto por Niltinho Tristeza, Preto Joia, Jurandir e Vicentinho, levou a escola Imperatriz Leopoldinense ao título, retratando o fim da ditadura militar. O enredo sobre os cem anos de República estava afinado com a história oficial e exaltava em versos Caxias, herói do Exército.
“Liberdade, liberdade! Abra as asas sobre nós (bis) / E que a voz da igualdade / Seja sempre a nossa voz.”
Os temas em aula, nesse caso, podem girar em torno de: ditadura, regime militar e democracia, por exemplo.
“Chegou Mocidade o grande dia / Avante nossa família / Que traz a chama da razão
E faz brilhar nesta avenida / A luz que ilumina cada ser / É a fonte do saber
Na religião, mistério e segredo… Unificação / O Renascimento desperta a ciência
Fazendo o homem conhecer / Sua própria existência.”
Aqui, Ciências e História são retratadas e o uso do material pode ser interdisciplinar entre os professores.

O debate e a provocação trazidos pelo sambas-enredo também se tornam questões de vestibulares e concursos. Leia o trecho abaixo:

Este é um trecho do samba-enredo “Onde o Brasil aprendeu a liberdade”, da escola de samba Unidos de Vila Isabel, de 1972, que foi escrito por Martinho da Vila, Rodolpho, Graúna. O samba-enredo faz referência à luta contra a presença holandesa, no período colonial brasileiro.
Considerando o contexto da dominação holandesa na América portuguesa, pode-se afirmar CORRETAMENTE que:
A) os holandeses invadiram a colônia portuguesa, porque Portugal proibiu que a Companhia das Índias Ocidentais holandesas continuasse a comprar o açúcar produzido no Brasil para ser revendido na Espanha.
B) o início da ocupação holandesa na América portuguesa se deu pela Bahia, sede do governo colonial e principal produtora de açúcar no século XVII, e se estendeu até a Capitania do Maranhão.
C) durante o governo de Maurício de Nassau, a insatisfação dos nordestinos atingiu seu cume, pois, nessa época, os holandeses começaram a cobrar os empréstimos anteriormente feitos aos senhores de engenho e puniam com severidade aqueles que não os pagassem.
D) os holandeses estabeleceram a tolerância religiosa nas regiões conquistadas no Brasil, possibilitando a convivência pacífica entre pessoas que professavam religiões diferentes e tornando-se um porto seguro contra as perseguições religiosas que aconteciam na Europa.
Já deu para notar que samba-enredo não se resume a apenas quatro dias de festa, não é mesmo?
Usar composições das escolas de samba para estimular a produção de conhecimento e o pensamento crítico é importante para o desenvolvimento dos estudantes.
O Carnaval no Brasil é rico, pois não é criado apenas para mostrar fantasias, alegorias e desfiles luxuosos. Os sambas-enredo têm muita história para contar sobre a nossa cultura. Então, fica a ideia de trazer para o ambiente escolar outra visão, não apenas a da folia, mas do contexto histórico por trás das grandes composições.








