Com a participação de 100 países em uma aliança global pela educação climática, a Unesco quer transformar compromissos internacionais em mudanças concretas nos currículos, na formação de professores e na preparação das escolas para enfrentar os impactos das mudanças climáticas.
A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP31), marcada para novembro de 2026, terá uma novidade importante para o setor educacional: a Educação ocupará um espaço de destaque nas discussões sobre as respostas globais à crise climática.
Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), o dia 14 de novembro será dedicado às crianças, aos jovens, à Educação e ao desenvolvimento de competências, com debates sobre como preparar os sistemas de ensino para um mundo cada vez mais afetado pelas mudanças climáticas.
A iniciativa marca uma mudança de perspectiva no debate internacional, pois durante muito tempo, a Educação ambiental foi associada principalmente à conscientização sobre a preservação da natureza. No entanto, agora ganha força uma abordagem que reconhece as escolas como parte das estratégias de adaptação, resiliência e enfrentamento dos desafios climáticos.
Isso significa que não basta ensinar aos estudantes o que é o aquecimento global. É preciso prepará-los para compreender seus efeitos, interpretar evidências científicas, reconhecer riscos e participar da construção de soluções para os problemas que afetam suas comunidades.
Mas há outra questão importante nessa agenda: os próprios sistemas educacionais precisam estar preparados para funcionar em um cenário de eventos climáticos cada vez mais extremos.
A discussão envolve, portanto, tanto aquilo que se ensina quanto as condições em que a aprendizagem acontece.
Educação climática ganha força com a aliança de 100 países

Um dos principais anúncios relacionados à COP31 é a expansão da Greening Education Partnership (GEP), ou Parceria para uma Educação Verde, iniciativa coordenada pela Unesco.
Criada em 2022, durante a Cúpula sobre a Transformação da Educação das Nações Unidas, a aliança busca mobilizar governos, instituições e organizações para incorporar a sustentabilidade aos sistemas educacionais.
Segundo a Unesco, a parceria chegará à marca de 100 países integrantes e mais de 2 mil organizações participantes, com a adesão da Turquia, país anfitrião da COP31.
O crescimento da iniciativa revela uma preocupação compartilhada por diferentes países: como garantir que as novas gerações tenham acesso a uma Educação capaz de responder às transformações ambientais, sociais e econômicas provocadas pelas mudanças climáticas?
A estratégia da Unesco não se limita à inclusão de novos conteúdos nos livros didáticos. Sua proposta envolve uma transformação mais abrangente, organizada em quatro frentes: escolas, currículos, formação de professores e comunidades.
Na prática, essa abordagem significa reconhecer que a Educação ambiental na escola não depende apenas do trabalho realizado em sala de aula. Ela também envolve:
- a infraestrutura das instituições;
- as decisões da gestão;
- a formação dos profissionais e a relação estabelecida com o território.
A novidade da COP31: não basta assumir compromissos, será preciso acompanhar resultados
Entre os anúncios mais relevantes está a preparação de uma nova fase da Parceria para uma Educação Verde, chamada GEP 2.0.
De acordo com a Unesco, a proposta dará maior atenção à implementação das ações em cada país e à cooperação regional. A conferência também será palco do lançamento de um grupo de trabalho de monitoramento e avaliação, organizado em parceria com o Ministério da Educação da Turquia e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).
O trabalho utilizará, entre seus instrumentos, o GEP Global Tracker, um observatório internacional dedicado ao acompanhamento de informações sobre Educação climática.
A iniciativa introduz uma questão fundamental para as políticas educacionais:
- Como verificar se os compromissos assumidos pelos governos estão, de fato, chegando às escolas?
- Até que ponto os conteúdos sobre mudanças climáticas estão presentes nos currículos?
- Os professores recebem formação adequada? As instituições estão preparadas para lidar com os riscos ambientais de suas regiões?
São perguntas que ajudam a compreender a importância dessa nova etapa.
O monitoramento não garante, por si só, a melhoria das práticas educacionais, mas pode oferecer informações importantes para identificar desigualdades, acompanhar avanços e orientar investimentos.
Para os gestores escolares, a discussão também traz uma reflexão: projetos ambientais precisam de objetivos claros, acompanhamento e continuidade. Realizar atividades de conscientização é importante, mas compreender seus resultados é igualmente necessário.
Escolas resilientes: quando o clima também interfere no direito de aprender
Outro ponto de destaque na agenda da Unesco para a COP31 é o papel da Educação diante de crises e emergências relacionadas ao clima.
O tema amplia a discussão sobre sustentabilidade ao colocar em evidência uma realidade que afeta diretamente as redes de ensino: eventos climáticos extremos podem comprometer:
- a infraestrutura escolar;
- dificultar o deslocamento de estudantes e profissionais;
- e interromper atividades pedagógicas.
Nessas circunstâncias, a Educação climática deixa de ser apenas um conteúdo curricular e passa a integrar as estratégias de preparação e resposta das próprias instituições.
O conceito de resiliência climática, nesse contexto, refere-se à capacidade de escolas e sistemas educacionais de se preparar para riscos, responder aos impactos e manter ou restabelecer as condições de aprendizagem.
Isso pode envolver medidas como a identificação de áreas vulneráveis, a elaboração de protocolos de emergência, o planejamento da continuidade das atividades escolares e a articulação com órgãos de proteção e defesa civil.
A importância da formação docente também ganha uma nova dimensão.
Em material sobre resiliência climática publicado em 2026, a Unesco destaca que preparar educadores para ensinar sobre mudanças climáticas é apenas uma parte do desafio. Também é necessário garantir condições de trabalho, segurança e apoio institucional para que possam atuar em contextos afetados por emergências ambientais.
Essa perspectiva é especialmente relevante porque evita atribuir exclusivamente ao professor a responsabilidade de enfrentar problemas que exigem respostas de toda a comunidade escolar e das políticas públicas.
O que a agenda da Unesco significa para a sala de aula?
Embora a COP31 ainda não tenha ocorrido, as diretrizes apresentadas pela Unesco já oferecem referências para repensar a abordagem da Educação ambiental na escola.
Uma das mudanças mais importantes está na passagem de uma aprendizagem centrada apenas na transmissão de conhecimentos para outra que também valorize a investigação, a análise crítica e a participação dos estudantes.
O documento Greening Curriculum Guidance: Teaching and Learning for Climate Action (Diretrizes curriculares para a sustentabilidade: Ensino e aprendizagem para a ação climática), publicado pela Unesco, propõe que a Educação climática seja cientificamente fundamentada, orientada para a ação e adequada às diferentes faixas etárias.
Na prática, essa orientação abre possibilidades para diferentes áreas do conhecimento.
O diferencial não está simplesmente em aumentar a quantidade de atividades ambientais, mas em construir experiências de aprendizagem que ajudem os estudantes a relacionar conhecimentos de diferentes disciplinas a problemas concretos.
Uma investigação sobre a temperatura dos espaços escolares, por exemplo, pode envolver medições, organização de dados, comparação entre áreas arborizadas e não arborizadas e elaboração de propostas para melhorar o conforto térmico.
Assim, a escola deixa de abordar o meio ambiente apenas como um tema distante e passa a explorar questões que fazem parte da experiência cotidiana dos estudantes.
Crianças, jovens e professores terão voz nas discussões
A Unesco também anunciou que crianças, jovens e professores estarão no centro das atividades educacionais previstas para a COP31.
A participação desses grupos é considerada essencial para a construção de sistemas educacionais capazes de responder às mudanças climáticas e contribuir para um futuro sustentável.
A proposta reforça a importância de reconhecer os estudantes como participantes ativos dos processos de aprendizagem e das discussões sobre o futuro das comunidades em que vivem.
No ambiente escolar, essa perspectiva pode ser desenvolvida por meio de:
- projetos investigativos;
- assembleias estudantis;
- comissões ambientais;
- e iniciativas que aproximem a escola de organizações e instituições locais.
Também pressupõe valorizar a experiência dos professores, que conhecem as necessidades pedagógicas de suas turmas e as condições concretas de funcionamento das instituições.
A participação, no entanto, precisa ser acompanhada de oportunidades reais de escuta e colaboração. Convidar estudantes para campanhas ambientais não equivale, necessariamente, a envolvê-los nas decisões sobre os problemas que serão investigados e as soluções propostas.
Da COP31 para 2027: uma agenda que não termina na conferência
As discussões previstas para novembro também deverão contribuir para a Conferência Mundial da Unesco sobre Educação para o Desenvolvimento Sustentável, programada para os dias 13 a 15 de janeiro de 2027, em Nairóbi, no Quênia.
A continuidade desse calendário indica que a Educação climática está sendo tratada como uma agenda de longo prazo, cuja implementação depende de articulação internacional, políticas públicas e participação das comunidades educacionais.
Para as escolas brasileiras, a aproximação entre as agendas internacionais e o planejamento de 2027 representa uma oportunidade de avaliar como a sustentabilidade está presente no currículo, na formação docente e no projeto político-pedagógico.
Mais do que incorporar novas atividades ao calendário escolar, o desafio é construir uma abordagem contínua, capaz de dialogar com os conhecimentos científicos, com a realidade local e com as necessidades de aprendizagem.
A COP31 não criará automaticamente obrigações curriculares para as escolas brasileiras. Seu impacto dependerá dos compromissos efetivamente assumidos, de sua tradução em políticas nacionais e das condições oferecidas às redes de ensino.
Ainda assim, a mensagem antecipada pela Unesco é significativa: preparar as próximas gerações para os desafios climáticos exige também preparar as instituições responsáveis por sua Educação.
Se o futuro do planeta ocupa as mesas de negociação internacional, a formação daqueles que viverão esse futuro precisa ocupar um lugar igualmente relevante nas decisões educacionais.
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