Saiba mais sobre a história de uma das escritoras brasileiras mais reconhecidas na atualidade, que transformou a própria vida em obra literária.
Para conhecer a trajetória de Conceição Evaristo, uma das escritoras mais estudada no país, é preciso primeiro fazer-se uma pergunta: O que acontece quando uma vida de silenciamento encontra a palavra escrita?
Nascida em uma família de mulheres trabalhadoras, Conceição fez da escrita o seu instrumento de memória, resistência e reparação histórica. Sua obra não separa quem escreve daquilo que é escrito, mas sim dá voz a um projeto literário de uma vida inteira. Ao longo de décadas, entre a sala de aula, a pesquisa acadêmica e a ficção, a autora criou o conceito de escrevivência e apresentou-o ao mundo.

Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 29 de novembro de 1946, na comunidade do Pindura Saia, em Belo Horizonte, Minas Gerais. É a segunda filha dos nove irmãos, filha de Joana Josefina Evaristo, que era lavadeira e passadeira para sustentar e chefiar a sua casa.
Desde cedo, Conceição se dedicava aos estudos e ao trabalho doméstico, acompanhando sua mãe no trabalho. Ainda jovem, começou sua carreira como professora, em uma experiência que marcou sua relação com a leitura, a escrita e a formação de pessoas.
Em 1970, passou a morar no Rio de Janeiro e cursou Letras na UFRJ. Sua formação acadêmica foi longa: fez mestrado em literatura brasileira pela PUC-Rio, doutorado em literatura comparada pela Universidade Federal Fluminense (UFF) e foi só em 1990 que começou a publicar os seus textos, iniciando com a antologia Cadernos Negros, publicada pelo coletivo paulista Quilombhoje.
Destaques da sua história de sucesso na literatura

A publicação de Ponciá Vicêncio, em 2003, marcou a sua história como uma das maiores vozes da ficção brasileira contemporânea. Esse romance, que conta a trajetória de uma mulher negra em busca de suas próprias raízes, inaugurou um projeto literário que se aprofundaria nos livros seguintes.
Ao longo de sua carreira, ela recebeu prêmios importantes, como o Prêmio Cláudia (2017), o Prêmio Jabuti como personalidade literária (2019) e o Prêmio Bravo (2018), além de ter os seus livros traduzidos para o inglês, o espanhol, o francês, o árabe, o italiano e o eslovaco.
Em 2023, fundou a Casa Escrevivência, um espaço cultural aberto no Largo da Prainha, no Rio de Janeiro, dedicado à biblioteca, pesquisa e difusão do conceito que dá nome ao local.
Em 2024, Conceição se tornou a primeira mulher negra eleita para a Academia Mineira de Letras. Nesse mesmo ano, passou a ser a primeira escritora negra a ter um acervo depositado no Arquivo Museu da Literatura Brasileira, na Fundação casa de Rui Barbosa.
Mas afinal, o que é escrevivência?
Um termo criado por Conceição Evaristo em sua pesquisa acadêmica, é resultado da junção das palavras escrever e viver, para nomear uma escrita atravessada pela experiência de quem a produz. Não é simplesmente uma autobiografia tradicional, mas um modo de narrativa em que a vivência coletiva das mulheres negras, suas famílias e suas comunidades se transformam em literatura viva.
Em uma entrevista com o jornal O Globo, a autora resumiu o lugar da memória dentro do conceito de forma simples:
“É a memória que coloca os negros como sujeitos fundantes da nação brasileira. Na literatura, o romantismo criou mitos fundantes da identidade nacional. Em Iracema, de José de Alencar, o brasileiro é filho de um português e de uma indígena. O negro escravizado não entra no mito. É a memória e a escrita de autoria negra que, ao recuperar personagens como Zumbi e Dandara dos Palmares, nos possibilita inventar uma tradição e nos colocar também como fundadores da nação.” – Conceição Evaristo para o jornal O Globo, julho de 2025
Em vez de trazer um olhar externo sobre a população negra, ela parte de dentro da experiência para dar corpo e voz à personagens historicamente reduzidos a estereótipos ou literalmente apagados em narrativas oficiais. Seu conceito de escrevivência se tornou uma das ferramentas mais usadas nos estudos sobre literatura negra contemporânea no Brasil e influenciou gerações de novos autores e novas autoras.
Quais são suas as principais obras de Conceição Evaristo?
Entre as suas obras, as principais são:
- Ponciá Vivêncio (romance, 2003);
- Becos da Memória (romance, 2006);
- Poemas da Recordação e Outros Movimentos (poesia, 2008);
- Insubmissas Lágrimas de Mulheres (contos, 2011);
- Olhos D’água (contos, 2014) – Vencedor do Prêmio Jabuti;
- Histórias de Leves Enganos e Parecenças (contos e novelas, 2016);
- Canção para Ninar Menino Grande (romance, 2018).
Os temas desses livros variam entre força feminina, história da mulher negra, investigação de memória familiar e ancestral, desigualdades sociais e as diferentes formas de violência que existem contra a população negra. São essas obras que fizeram ela ser reconhecida como uma das principais escritoras negras da atualidade.
Por que Conceição Evaristo pode cair no vestibular?
Seu reconhecimento não é à toa, pois acontece em um momento de revisão dos cânones literários escolares. Em 2026, a Fuvest anunciou que Canção para ninar menino grande será parte da lista de leitura obrigatória do vestibular de 2027, ao lado de nomes como Djaimilia Pereira e Paulina Chiziane. Essa escolha foi amplamente comentada pela mídia, reforçando uma mudança importante no processo seletivo: entre 2026 e 2028, todas as obras obrigatórias da Fuvest vão ser assinadas por mulheres, para dar visibilidade a autorias historicamente menos representadas.
Em julho de 2026, outro episódio trouxe seu nome aos holofotes: a cantora britânica Dua Lipa inaugurou a Manifesto Library, dentro da centenária livraria Lello em Porto, Portugal. O espaço é a primeira extensão física do clube de leitura digital que Dua Lipa mantém desde 2023, o Service95 Book Club. Neste local, a ideia é reunir títulos que foram banidos, censurados ou contestados publicamente ao redor do mundo, com o objetivo de defender a liberdade de expressão por meio da literatura.
Para ocupar o primeiro lugar das estantes, a obra escolhida foi Olhos D’água, de Conceição Evaristo, que celebrou a conquista em suas redes sociais:

E as celebrações não pararam por aí: também este ano, a escritora e linguista foi eleita Doutora Honoris pela Unicamp. Em suas redes sociais, ela compartilhou a seguinte frase:
“Quando se fala que eu sou a primeira mulher negra, a única coisa que eu peço é que não seja somente a primeira, a única”. (Conceição Evaristo – reprodução do Instagram)
Durante séculos, a literatura brasileira pertenceu a uma narrativa branca e distante da realidade da população negra. Ao ocupar esse espaço com uma escrita marcada pela escrevivência, Conceição reforça o reconhecimento e o fortalecimento da literatura negra, junto a nomes célebres como Carolina Maria de Jesus, Cuti, Miriam Alves e Ana Maria Gonçalves.
Como trabalhar com Conceição Evaristo em sala de aula?
As obras da escritora oferecem diferentes estradas para o trabalho em sala de aula, especialmente quando falamos de Língua Portuguesa e literatura, redação e sociologia. A primeira possibilidade é falar sobre escrevivência para inspirar os estudantes em contar as suas histórias, falando sobre como cada história muda dependendo da vivência dos autores e dos narradores.
Os livros Olhos D’água e Ponciá Vivêncio são ótimos pontos de partida para reflexão, voltando a atenção dos estudantes para observar a linguagem, a construção dos personagens e as marcas de oralidade que são constantes nos textos.
Outra possibilidade também é relacionar a história da autora com discussões sobre acesso à Educação, à desigualdade racial e ao contexto social brasileiro. Sua eleição para a Academia Mineira de Letras e o seu título da Unicamp, abrem espaço para um debate sobre a representatividade de escritores negros e a falta de diversidade nas instituições brasileiras.
Por fim, trabalhar Conceição em sala de aula é, antes de tudo, uma forma de apresentar aos estudantes uma escrita que não separa a literatura da vida. Ao ler cada obra, é possível entender o que é resistência e transformação social, além de ter a oportunidade de ver o mundo pelos olhos de uma pessoa tão importante e que marcou a literatura dessa geração.
Conheça mais autores negros e obras literárias que todo professor deveria trabalhar em sala de aula.







