Setembro é o mês do meu aniversário e, neste ano, tive a alegria de celebrar essa data de uma maneira muito especial: ao lado da minha mãe, Christina Ramos, e de uma amiga, Juliana Ávila, na África do Sul.
Até então, eu nunca havia feito uma viagem internacional. No entanto, sempre tive o sonho de conhecer, antes de qualquer outro destino, um país do continente africano. Esse desejo carregava um significado que ia muito além do turismo: representava a oportunidade de me aproximar de histórias, culturas e memórias que atravessam minha própria trajetória.
Foi minha amiga Juliana, que já conheceu diferentes partes do mundo, quem fez o convite: “Vamos para a África do Sul em setembro?”.
A proposta me tocou profundamente. Afinal, meu nome é Luiza Mandela, uma homenagem ao líder sul-africano Nelson Mandela, que dedicou grande parte de sua vida à luta contra o apartheid e à construção de uma sociedade democrática.

O apartheid foi um regime institucionalizado de segregação racial na África do Sul, oficialmente estabelecido em 1948 e encerrado com a transição democrática de 1994. Durante esse período, leis impuseram a separação racial e restringiram direitos fundamentais, determinando onde as pessoas poderiam morar, estudar, circular e acessar diferentes espaços da sociedade. A população era classificada em categorias raciais, e essa classificação definia, de maneira desigual, direitos e oportunidades.
Nelson Mandela tornou-se um dos principais símbolos mundiais da resistência a esse regime. Sua trajetória, entretanto, precisa ser compreendida para além da imagem de liderança que ganhou reconhecimento internacional: ela foi marcada pela organização política, pela mobilização coletiva e pela resistência de milhares de pessoas que enfrentaram o sistema de segregação. Em 1961, participou da criação da estrutura de resistência armada ligada ao Congresso Nacional Africano (CNA). Preso em 1962, foi condenado à prisão perpétua em 1964, no julgamento de Rivonia. Permaneceu preso por mais de 27 anos, sendo a Ilha Robben um dos lugares mais emblemáticos de seu encarceramento.
Sua libertação ocorreu em 11 de fevereiro de 1990, em um contexto de intensas mobilizações internas e pressão internacional. Nos anos seguintes, Mandela participou das negociações que contribuíram para o fim do apartheid e para a construção de uma nova ordem democrática. Em 1993, recebeu o Prêmio Nobel da Paz, compartilhado com Frederik Willem de Klerk, pelo trabalho em favor do encerramento pacífico do regime e pela construção das bases de uma nova África do Sul democrática.
Estar na África do Sul significou, para mim, aproximar-me dessa história de uma maneira que os livros, as pesquisas e os registros históricos, embora fundamentais, não conseguem proporcionar sozinhos.
Durante a viagem, visitei o Museu do Apartheid, em Joanesburgo. Foi uma experiência profundamente emocionante. Percorrer aquele espaço significou entrar em contato com a materialidade de uma história que tantas vezes estudamos, discutimos e utilizamos como referência para tentarmos compreender o racismo em diferentes partes do mundo.
O museu apresenta as leis que sustentaram a segregação racial, os mecanismos de controle da população, os deslocamentos forçados, as perseguições e as violências cometidas pelo regime. Fotografias, documentos e relatos ajudam a dimensionar os impactos do apartheid sobre a vida das pessoas e das comunidades atingidas. Também evidenciam a resistência daqueles e daquelas que se organizaram para enfrentar as injustiças.
Como educadora antirracista, estar naquele lugar provocou em mim reflexões que ultrapassam a experiência individual. A memória preservada pelo museu nos convida a compreender que o racismo não se sustenta apenas em atitudes individuais: ele também se organiza por meio de leis, instituições e estruturas de poder.
Ao mesmo tempo, aquela visita me fez pensar na importância de reconhecer as pessoas e os movimentos coletivos que lutaram contra o regime. Nelson Mandela ocupa um lugar fundamental nessa história, mas sua trajetória também nos remete a tantas outras pessoas que resistiram, muitas vezes sem receber o mesmo reconhecimento público.
Saí daquele espaço com a certeza de que conhecer essa história não é apenas recordar o passado. É também refletir sobre as formas pelas quais as desigualdades raciais se manifestam no presente e sobre a responsabilidade que temos, como educadoras e educadores, na construção de uma sociedade comprometida com a justiça racial.

Nos lugares por onde andei, a Educação estava presente…
“A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.” — Nelson Mandela
Como educadora antirracista, percebi que, em praticamente todos os espaços que visitei — como o Museu do Apartheid, a Mandela Square e os Union Buildings, sede do governo sul-africano, onde Nelson Mandela tomou posse como presidente em 1994 —, havia crianças uniformizadas realizando visitas escolares, fazendo anotações e conhecendo um pouco mais da própria história. Conhecer a própria história é fundamental para o desenvolvimento de uma identidade racial positiva.
Em um país cuja população é majoritariamente negra — aproximadamente 81,4%, segundo dados do Censo de 2022 divulgados pelo governo sul-africano —, a história da segregação racial e suas consequências continuam presentes na sociedade. O legado do apartheid e do colonialismo ainda se manifesta nas profundas desigualdades no mercado de trabalho e no acesso à Educação, sendo a raça apontada como um dos fatores que contribuem significativamente para a desigualdade de renda no país.
Ao longo dos meus 14 dias na África do Sul, passando pela Cidade do Cabo, por Joanesburgo e pela região do Kruger, encontrei ruas bonitas, pessoas atenciosas, trabalhadoras e acolhedoras. Apesar das desigualdades que também conhecemos tão bem aqui no Brasil, pude apreciar arquiteturas modernas, encontrar pessoas alegres e experimentar a hospitalidade de quem nos recebeu nos diferentes lugares que visitamos.
Ir à África do Sul foi, para mim, um movimento de resgate da minha ancestralidade, da minha identidade e das minhas raízes. Ver pessoas negras ocupando majoritariamente os espaços públicos me proporcionou uma sensação indescritível de pertencimento. Perceber que o legado de Nelson Mandela continua vivo naquele país também renovou em mim a esperança de um mundo mais justo.
Sei que um dia voltarei à África do Sul. Dessa vez, quero levar minha filha, Alice Mahin, para que ela também possa vivenciar tudo de maravilhoso que vivi. Quero que conheça essa história, reconheça a força de nossos ancestrais e compreenda que nossas raízes são parte fundamental de quem somos.
Como nos alerta Chimamanda Ngozi Adichie (2019), precisamos romper com o perigo de uma história única. O continente africano é plural, diverso e repleto de histórias, culturas, línguas e identidades. Conheci apenas um dos 54 países do continente — e nem sequer tive a oportunidade de conhecer todo esse país. Essa experiência me fez compreender ainda mais a importância de ampliar nossos olhares, questionar estereótipos e reconhecer a diversidade africana para além das narrativas que historicamente nos foram apresentadas.
Minha experiência na África do Sul me trouxe aprendizados, ideias e novas perspectivas, além de fortalecer uma convicção que me acompanha na vida e na profissão: a Educação é fundamental para transformar realidades, ampliar horizontes e construir possibilidades para as novas gerações.
Volto dessa viagem com a ancestralidade fortalecida, o olhar ampliado e a certeza de que conhecer nossa história também é uma forma de construir o futuro.
Madiba vive!
Referências
ADICHIE, Chimamanda Ngozi. O perigo de uma história única. Tradução de Julia Romeu. São Paulo: Companhia das Letras, 2019.
MANDELA, Nelson. Longo caminho para a liberdade: a autobiografia de Nelson Mandela. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.
STATISTICS SOUTH AFRICA. Census 2022: Statistical Release. Pretoria: Stats SA, 2023. Disponível em: https://census.statssa.gov.za/. Acesso em: 14 out. 2026.







