Em tempos de desafios globais, a Educação surge como um dos maiores campos de batalha para a construção de um futuro mais humano. É nesse cenário que dois pactos diametralmente opostos se colocam diante de nós: o Pacto Educativo Global, um chamado transformador do Papa Francisco, e o pacto da mediocridade, denunciado por Darcy Ribeiro. Qual deles guia nossas escolhas cotidianas?
Em um mundo em constante transformação, onde as crises sociais, ambientais e educacionais desafiam nossa capacidade de resposta, a Educação se apresenta como uma das principais ferramentas para moldar um futuro mais justo e mais sustentável.
É nesse contexto que emerge o Pacto Educativo Global, convocado pelo Papa Francisco, um chamado ético e espiritual para colocar a pessoa humana no centro da Educação, promovendo a inclusão, o diálogo e o cuidado com a “casa comum”. Contudo, para que esse pacto não seja apenas mais um discurso inspirador perdido na prática, precisamos confrontar o espectro do que Darcy Ribeiro denominou de “pacto da mediocridade”.
Darcy Ribeiro, em sua análise crítica do sistema educacional brasileiro, afirmou que “a crise da Educação no Brasil não é uma crise; é um projeto” (RIBEIRO, 1995, p. 14). Por meio dessa afirmação, o antropólogo denunciou a perpetuação de um modelo educacional que, longe de promover o desenvolvimento integral dos estudantes, está fundamentado na baixa expectativa, na complacência e na falta de compromisso real com a transformação. No “pacto da mediocridade”, professores fingem que ensinam, estudantes fingem que aprendem e instituições educacionais fingem que oferecem qualidade.
Agora, vejamos o contraste: o Papa Francisco não propõe apenas uma reflexão sobre a Educação, mas um convite ao compromisso revolucionário. Ele afirma que é necessário unir forças em uma ampla aliança educativa para formar indivíduos maduros, capazes de viver em sociedade e para a sociedade. É um chamado a sair da zona de conforto, romper com paradigmas ultrapassados e encarar a Educação como um processo dinâmico e integral. Segundo Papa Francisco, é imprescindível que “colocar a pessoa no centro significa valorizar sua dignidade e promover seu desenvolvimento integral” (FRANCISCO, 2019, p. 2).
Se o “pacto da mediocridade” representa a perpetuação de um ciclo vicioso de baixa qualidade e fingimento coletivo, o Pacto Educativo Global surge como a antítese: um apelo à autêntica transformação. Contudo, esse ideal também carrega um risco real. Se as propostas do Papa Francisco não forem traduzidas em práticas concretas no dia a dia das escolas — públicas e privadas, urbanas e rurais, nas escolas das águas e das florestas —, corremos o sério perigo de transformar o pacto em apenas mais um discurso vazio.
O convite real e desafiador do Papa
O Papa Francisco não apenas convoca educadores e gestores; ele desafia todos os atores da Educação a assumirem uma postura de protagonismo e responsabilidade. Seu convite é, ao mesmo tempo, um ato de coragem e humildade. Ele reconhece que o mundo da Educação está atravessado por interesses políticos e econômicos que muitas vezes colocam o lucro acima do bem comum. Nesse sentido, sua proposta é revolucionária: repensar a Educação como um ato de amor e humanização.
Mas aceitar esse convite requer romper com a inércia da mediocridade. Significa repensar currículos, metodologias e relações dentro das escolas. Para que isso aconteça, é necessário:
- Colocar a pessoa no centro do processo educativo, promovendo o desenvolvimento integral do ser humano.
- Resgatar o papel das famílias como educadoras primordiais e criar espaços de acolhimento e diálogo entre pais, professores e estudantes.
- Fomentar a escuta ativa e o diálogo construtivo, reconhecendo a pluralidade de vozes e perspectivas dentro do ambiente escolar.
- Educar para o cuidado com a casa comum, incorporando princípios de sustentabilidade e responsabilidade ambiental nos projetos pedagógicos.
- Superar a fragmentação e promover a interdisciplinaridade, abordando questões complexas de forma integrada e colaborativa.
Esses desafios exigem coragem para romper com práticas enraizadas e assumir uma Educação verdadeiramente transformadora. Contudo, o risco de cair na mediocridade é constante. Como evitar que as palavras do Papa Francisco se tornem apenas uma inspiração passageira?
Mediocridade: Um espelho inconveniente
No “pacto da mediocridade”, todos os atores da Educação se acomodam em um jogo de aparências. Professores, por falta de apoio ou motivação, repetem práticas que já não funcionam; estudantes buscam apenas aprovação sem real aprendizado; gestores se concentram mais em indicadores quantitativos do que na qualidade efetiva do ensino. Esse pacto, como apontou Darcy Ribeiro, perpetua-se porque é mais cômodo aceitar a superficialidade do que enfrentar as transformações necessárias.
Em contraste, o Papa Francisco convida a uma revolução moral e prática. “Educar é sempre um ato de esperança”, disse ele em uma de suas mensagens (FRANCISCO, 2020, p. 3). Contudo, se essa esperança não for alimentada por ações concretas, corremos o risco de transformar o Pacto Educativo Global em mais um “pacto da mediocridade”, disfarçado sob palavras bonitas e encontros “inspiradores”.
Do discurso à ação: até que ponto estamos realmente dispostos a nos comprometer?
Transformar as escolas é uma tarefa que começa no cotidiano. Não se trata apenas de adotar novas metodologias ou reformular currículos, mas de criar uma cultura de comprometimento. Isso exige:
- Professores comprometidos: Que não apenas ensinem conteúdo, mas mobilizem os estudantes a se tornarem agentes de transformação.
- Gestores visionários: Que coloquem a qualidade da Educação acima de interesses políticos ou financeiros.
- Estudantes protagonistas: Que sejam incentivados a pensar criticamente, participar ativamente, sonhar com um mundo melhor e tenham espaços seguros para isso onde sejam de fato acolhidos.
- Famílias engajadas: Que compreendam seu papel essencial na construção do percurso educativo, participando ativamente da vida escolar, estabelecendo vínculos de confiança e colaborando com a escola para formar cidadãos críticos e responsáveis.
Como educadores e educadoras, temos a responsabilidade de fazer escolhas que rompam com o círculo da mediocridade e assumam o compromisso com uma Educação transformadora. O Pacto Educativo Global do Papa Francisco é um convite poderoso, mas ele só terá impacto real se for assumido como um compromisso cotidiano, traduzido em ações concretas nas salas de aula, nos corredores das escolas e nas relações entre todos os envolvidos no processo educativo.
Como Darcy Ribeiro nos lembrou, o que está em jogo não é apenas a qualidade da Educação, mas o futuro da sociedade. O convite do Papa Francisco é uma oportunidade de romper com o “pacto da mediocridade” e construir, juntos, um novo paradigma moral e educacional.
A pergunta que fica é: estamos dispostos a assumir esse compromisso?
Referências
FRANCISCO. Mensagem para o lançamento do Pacto Educativo Global. Vaticano, 2019. Disponível em: https://www.vatican.va. Acesso em: 7 jan. 2025.
FRANCISCO. Educar é sempre um ato de esperança. Vaticano, 2020. Disponível em: https://www.vatican.va. Acesso em: 7 jan. 2025.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.







