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saeb
Educador Gestão Escolar

Entendendo a Escala de Proficiência do Saeb: uma ferramenta para diagnósticos da aprendizagem  

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 9min 23seg

4 de dezembro de 2024

A escala de proficiência do Sistema de Avaliação da Educação Básica (Saeb) é uma ferramenta essencial para compreender os níveis de aprendizado dos estudantes brasileiros em escala nacional.

Desenvolvida pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), essa escala oferece um panorama detalhado sobre as competências e habilidades dos alunos, contribuindo para que professores, gestores escolares e consultores educacionais planejem ações pedagógicas mais eficazes.

Este texto sintetiza um panorama detalhado sobre sua importância, apresentando características, particularidades e usos, considerando aspectos técnicos importantes para professores, gestores escolares e consultores pedagógicos. 

O que é a escala de proficiência do Saeb? 

A escala de proficiência do Saeb é uma linha contínua e crescente que organiza o desempenho dos alunos com base na metodologia da Teoria de Resposta ao Item (TRI), levando em consideração não somente a quantidade de acertos, mas também quais questões o aluno acertou, quais errou e quais possivelmente acertou no chute, além de outros fatores.

Com essa escala construída, os estudantes e itens posicionados (sim, as questões também podem ser posicionadas nessa escala!), é possível categorizar as competências e habilidades avaliadas em níveis de proficiência. Essa organização permite identificar o que os alunos conseguem realizar em termos de habilidades cognitivas, desde as mais simples até as mais complexas.

Diferentemente de uma pontuação bruta, que contabiliza apenas o número de acertos, a Teoria de Resposta ao Item (TRI) garante maior precisão e comparabilidade. 

A partir das provas padronizadas em Língua Portuguesa e Matemática, no Saeb, são construídas quatro escalas diferentes (e não comparáveis entre si). São elas: 

  • Escala de proficiência de Língua Portuguesa para o 2º ano do Ensino Fundamental; 
  • Escala de proficiência de Matemática para o 2º ano do Ensino Fundamental; 
  • Escala de proficiência de Matemática para 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio; 
  • Escala de proficiência de Língua Portuguesa para 5º e 9º anos do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio. 

Com essas construções, é possível realizar análises comparativas dentro de cada escala. Ou seja, o 5º e o 9º ano do Ensino Fundamental e a 3ª série do Ensino Médio podem ser comparados dentro de cada componente. Vale ressaltar que, por serem escalas diferentes, não se podem comparar proficiências de Matemática com Língua Portuguesa, por exemplo. 

Como citado, as escalas do 2º ano não acompanham as escalas das outras séries. Isso ocorre pelo fato da prova do 2º ano possuir uma estrutura e uma matriz muito distintas das restantes, respeitando a faixa etária e a etapa de alfabetização/letramento matemático dos estudantes. 

Por que a TRI é importante? 

A TRI é uma metodologia estatística que considera três parâmetros para cada questão das provas: 

  • Dificuldade: quão desafiadora é a questão; 
  • Discriminação: a capacidade da questão de diferenciar estudantes com maior e menor domínio da habilidade; 
  • Probabilidade de acerto ao acaso: a chance de o aluno acertar sem dominar o conteúdo (chute). 

Esse modelo permite atribuir escores mais precisos, baseados não apenas no total de respostas corretas, mas também na qualidade das questões respondidas. Assim, um aluno que acerta itens mais difíceis pode receber uma pontuação maior do que outro com a mesma quantidade de acertos, mas em itens mais fáceis. 

Além do Saeb, há outras avaliações nacionais importantes que usam a TRI como método de correção, como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) o Encceja (Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos). 

Como a escala é construída? 

Os testes do Saeb são elaborados com base em matrizes de referência, que especificam as competências e habilidades a serem avaliadas em cada etapa da Educação Básica. Após a aplicação das provas, aplica-se metodologia da Teoria da Resposta ao Item (TRI), que determina os parâmetros numéricos de dificuldade, discriminação e probabilidade de acerto ao acaso de cada questão. A partir desses parâmetros, calculam-se as proficiências de cada estudante. 

Particularidades técnicas da escala de proficiência 

Ao contrário de escalas tradicionais, a escala do Saeb não tem um limite máximo ou mínimo absoluto. Os valores geralmente variam entre 0 e 500 pontos, mas, na prática, os intervalos observados dependem das competências avaliadas e do nível de dificuldade das provas. Por exemplo, alunos do 5º ano raramente alcançam escores acima de 350 pontos, mas não há um teto matemático que impeça tal pontuação. 

Como a escala é baseada na TRI, ela permite comparações entre diferentes edições do Saeb, mesmo que as provas tenham itens distintos. Isso é possível porque os itens são previamente calibrados, garantindo que o nível de dificuldade seja consistente ao longo dos anos. Por exemplo, um aluno que atinge 250 pontos em 2021 apresenta, teoricamente, o mesmo nível de proficiência que outro aluno com 250 pontos em 2019. 

A escala é dividida em níveis de proficiência, que descrevem qualitativamente o que os estudantes conseguem fazer em termos de habilidades cognitivas. Por exemplo: 

  • Níveis básicos: Habilidades mais básicas, como identificar informações explícitas em textos curtos ou reconhecer figuras geométricas simples. 
  • Níveis intermediários: Envolvem análise e interpretação de informações ou resolução de problemas com múltiplas etapas. 
  • Níveis avançados: Incluem habilidades complexas, como elaborar inferências ou resolver problemas abstratos em matemática. 

Comparações possíveis na escala de proficiência 

Uma das principais vantagens da escala de proficiência do Saeb é a possibilidade de comparar diferentes grupos, o que oferece insights valiosos para análise pedagógica e gestão educacional. Essas comparações podem ser feitas em diversas dimensões: 

  • Entre alunos: A escala permite avaliar o desempenho individual de cada estudante em relação à média da turma, da escola ou da rede de ensino. Isso ajuda a identificar quais alunos precisam de apoio pedagógico adicional e quais apresentam potencial para desafios mais complexos. 
  • Entre turmas: Comparar turmas de uma mesma escola pode revelar variações no aprendizado que podem estar associadas a práticas pedagógicas, organização do tempo de aula ou até mesmo formação dos professores. Essa análise pode ajudar gestores a identificar e disseminar boas práticas entre os docentes. 
  • Entre escolas: Quando aplicada a diferentes escolas de uma mesma rede, a escala evidencia variações no desempenho que podem estar relacionadas a fatores como infraestrutura, acesso a recursos, formação docente ou perfil socioeconômico dos estudantes. Essa análise permite alocar recursos e direcionar políticas públicas com maior precisão. 
  • Entre redes de ensino (municipais, estaduais ou privadas): Ao comparar redes, é possível monitorar o impacto de políticas educacionais e identificar desigualdades regionais ou setoriais. Por exemplo, redes que investem mais em formação continuada de professores podem apresentar escores médios mais altos, sugerindo a eficácia dessa estratégia. 
  • Entre estados ou regiões do país: A escala permite avaliar como fatores contextuais, como renda média, políticas públicas ou características culturais influenciam os resultados educacionais. Comparações entre regiões ajudam a orientar políticas nacionais para combater desigualdades e promover maior equidade educacional. 
  • Entre grupos demográficos: A análise pode incluir variáveis como gênero, raça/cor, zona urbana/rural ou nível socioeconômico dos estudantes. Isso é fundamental para monitorar desigualdades educacionais e planejar políticas que garantam igualdade de oportunidades para todos os alunos. 
  • Entre períodos de tempo: Por ser calibrada de maneira contínua, a escala possibilita comparações ao longo dos anos, permitindo avaliar se houve progresso ou retrocesso no aprendizado em diferentes contextos. Essa análise é essencial para verificar a eficácia de programas educacionais e políticas públicas.  

Usos e aplicações da escala 

A escala de proficiência do Saeb é usada para diferentes finalidades: 

  • Monitoramento de políticas públicas: A escala serve como base para o cálculo do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), combinando os resultados com taxas de aprovação para medir a qualidade da educação. 
  • Diagnóstico do aprendizado: Gestores e professores podem identificar padrões de desempenho em suas redes, escolas e turmas. Por exemplo, ao perceber que muitos alunos estão concentrados nos níveis mais baixos, pode-se planejar intervenções pedagógicas mais direcionadas. 
  • Planejamento de ensino: Professores podem usar os resultados da escala para alinhar seu planejamento às habilidades mais desafiadoras para os alunos, priorizando o desenvolvimento progressivo dessas competências. 
  • Monitoramento de desigualdades educacionais: A escala permite comparar o desempenho de diferentes grupos, como regiões, estados, redes públicas e privadas, além de mapear diferenças de aprendizado entre alunos em situação de vulnerabilidade social. 

Limitações 

Apesar de sua ampla aplicabilidade, é importante reconhecer as limitações da escala: 

  • Foco restrito: A escala avalia competências específicas definidas pelas matrizes de referência. Não mede todas as dimensões do aprendizado, como criatividade, habilidades socioemocionais ou competências práticas. 
  • Interpretação cuidadosa: Comparar resultados sem considerar o contexto pode levar a conclusões inadequadas. Por exemplo, diferenças de proficiência entre redes de ensino podem estar associadas a fatores socioeconômicos, não apenas à qualidade pedagógica. 

A escala de proficiência do Saeb representa uma poderosa ferramenta para compreender e analisar o aprendizado em larga escala no Brasil, oferecendo uma base sólida para a reflexão e a tomada de decisões pedagógicas.

Com sua estrutura técnica baseada na Teoria da Resposta ao Item, permite comparações precisas entre diferentes grupos de estudantes, turmas, escolas, redes e regiões, além de possibilitar a avaliação do progresso educacional ao longo do tempo. Essas comparações são fundamentais para identificar desigualdades, monitorar políticas públicas e promover uma gestão educacional mais eficiente e equitativa.

Apesar de suas limitações – como o foco restrito às competências das matrizes de referência e a necessidade de interpretar resultados com cautela –, a escala é insubstituível como instrumento diagnóstico e prospectivo.

Ao traduzir números em significados pedagógicos concretos, ela apoia professores, gestores e consultores no desafio de transformar dados em ações que impactem positivamente a aprendizagem dos estudantes. Assim, a escala do Saeb reafirma sua relevância como aliada indispensável na busca pela melhoria contínua da qualidade educacional no Brasil. 

*Este artigo foi desenvolvido pela equipe de Avaliação Educacional da FTD Educação.

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