Entre a poeira das estradas sertanejas e as cores vivas das feiras nordestinas, ecoa uma voz que não se cala: a da literatura de cordel. Ela nasce no compasso da vida cotidiana, no ritmo do verso que denuncia e encanta, na voz de um povo que transforma dor em poesia e memória em arte.
Muito mais que folheto pendurado em corda, o cordel é uma forma de ver e narrar o mundo com graça, crítica e criatividade. Seus versos rimados não pedem licença para existir — eles simplesmente existem, palpitam, provocam e sobrevivem ao tempo. São livros de papel simples, mas com alma profunda. São cantos de resistência que revelam a beleza da oralidade, da sátira, da fé e da luta pela dignidade.
Neste texto, você vai entender por que o cordel é literatura. Vai descobrir sua origem popular, suas características marcantes, os principais nomes que marcaram o gênero e, ainda, como usá-lo em sala de aula para formar leitores, criadores e cidadãos.
O que é a literatura de cordel?
A literatura de cordel é uma forma poética de resistência e expressão popular que transcende o suporte em que circula. Muito além dos folhetos pendurados em cordas nas feiras nordestinas — de onde vem o nome “cordel” —, ela é uma manifestação artística enraizada na oralidade, na memória coletiva e na sensibilidade estética das classes populares.
Escrita em versos rimados, geralmente em sextilhas, a literatura de cordel mistura narrativa, música e performance, fazendo da palavra uma ponte entre o cotidiano e o imaginário.
É literatura, sim. Não uma versão “menor” ou “folclórica” da literatura, mas uma forma legítima de construção do simbólico e do poético, que nasce da escuta da realidade social e se projeta como ferramenta de crítica, denúncia, humor e encantamento. O cordel é o livro do povo. É crônica rimada da vida brasileira, escrita com engenho e alma por aqueles que muitas vezes foram excluídos dos espaços oficiais da cultura.
Origem da literatura de cordel
A origem da literatura de cordel no Brasil é frequentemente ligada à tradição dos folhetos portugueses dos séculos XVII e XVIII, que chegaram ao território brasileiro por meio do comércio editorial entre metrópole e colônia.
No entanto, é reducionista tratar o cordel nordestino como uma simples continuidade dessa prática europeia.
Os folhetos lusitanos, em sua maioria, eram narrativas em prosa ou peças teatrais de cunho religioso ou moralizante. Já os folhetos nordestinos, nascidos entre o final do século XIX e o início do XX, constituem uma criação cultural autêntica, profundamente marcada pelas condições sociais e históricas do Brasil rural e periférico.
Com o crescimento das tipografias regionais e o barateamento dos impressos, surgem os primeiros folhetos brasileiros com métrica e rima próprias, dando forma ao que se tornaria o cordel nordestino. Trata-se de um processo de invenção coletiva, em que os poetas populares se apropriaram dos meios de produção e criaram um gênero com identidade própria — mesclando a musicalidade da fala sertaneja, os arquétipos do herói popular, as tensões sociais vividas na caatinga e os ecos do catolicismo popular com elementos míticos e fabulares.
O que nasce aí não é um apêndice da tradição europeia, mas um organismo autônomo e pulsante da cultura brasileira. A relação com Portugal existe, mas não determina: o cordel nordestino tem pai e mãe no sertão, na oralidade, na fome, na fé e na esperança de quem sempre viveu à margem dos centros de poder e, ainda assim, inventou uma forma de contar o mundo com beleza e crítica.

Quais são as características da literatura de cordel?
A literatura de cordel possui uma estrutura formal reconhecível, mas sua força não está apenas na forma: está na capacidade de fazer com que a forma sirva à vida. Suas características principais são:
1. Estrutura poética fixa
A maioria dos cordéis é escrita em sextilhas (estrofes de seis versos), com rimas alternadas ou emparelhadas. A métrica é geralmente heptassílaba (sete sílabas poéticas por verso), garantindo ritmo fluente e musicalidade oral. Existem também cordéis em setilhas e décimas, dependendo do estilo e da intenção do autor.
2. Rima e oralidade
A rima de cordel não é apenas uma exigência técnica: é o que permite a recitação, a memorização, o canto. O cordel nasce para ser lido em voz alta, para ser vivido em roda, para ecoar em feiras e praças. Essa musicalidade conecta o texto ao corpo e à coletividade.
3. Linguagem popular e crítica social
O vocabulário da literatura de cordel é direto, repleto de regionalismos, trocadilhos e expressões locais. Mesmo quando aborda temas universais — como o amor, a morte, o bem contra o mal —, o faz com os pés no chão da realidade nordestina. O humor, a sátira e a crítica política são comuns, tornando o cordel um veículo de conscientização e resistência.
4. Temática ampla e atual
A literatura de cordel trata de tudo: fatos históricos, lendas, folclore, política, religião, pandemia, futebol, astrologia, feminismo, fake news. O cordel folclore, por exemplo, é um subgênero importante, onde personagens como o Saci, o Lobisomem, a Mula-sem-cabeça e o Curupira ganham vida nos versos.
5. Estética visual
Tradicionalmente, os folhetos são ilustrados com xilogravuras — gravuras esculpidas em madeira, que também constituem uma arte popular por excelência. A capa em xilogravura se tornou um ícone do cordel, unindo texto e imagem em uma estética singular.
Principais cordelistas brasileiros
A literatura de cordel brasileira é marcada por uma genealogia rica de poetas populares que ajudaram a moldar e expandir o gênero. Entre os principais cordelistas brasileiros, destacam-se:
1. Leandro Gomes de Barros (1865–1918)
Considerado o primeiro grande cordelista do Brasil, Leandro escreveu mais de 200 títulos e é tido como o “pai do cordel brasileiro”. Seus temas transitam entre o fantástico e o político, com grande domínio técnico e humor satírico. Seu legado influenciou autores como Ariano Suassuna.
2. João Martins de Athayde (1880–1959)
Editor e poeta, foi o principal responsável pela consolidação editorial do cordel. Sua gráfica, em Recife, foi o centro da produção de folhetos durante décadas. Sua atuação permitiu que o cordel ganhasse abrangência nacional.
3. Patativa do Assaré (1909–2002)
Poeta, compositor e cantor, Patativa uniu o cordel à música e à militância social. Seus versos dialogam com a luta camponesa, a fé popular e a dignidade do sertanejo. É uma das vozes mais respeitadas da poesia nordestina.
4. Mestre Azulão, Gonçalo Ferreira da Silva, Rouxinol do Rinaré e Klévisson Viana
Esses e outros nomes representam a vitalidade contemporânea do cordel. Muitos atuam como editores, ilustradores e declamadores, mantendo viva a tradição e renovando o gênero para as novas gerações.
5 Propostas de atividades com literatura de cordel
1. Português – Produção textual e oralidade
Atividade: Criação de um cordel autoral
Objetivo: Desenvolver habilidades de escrita criativa, métrica, rima e coesão textual.
Etapas:
- Apresentar a estrutura da sextilha (6 versos com 7 sílabas poéticas cada);
- Ler e analisar cordéis clássicos com temas variados;
- Escolher um tema atual (fake news, meio ambiente, bullying, internet, etc.);
- Produzir um cordel coletivo ou individual;
- Organizar uma roda de leitura ou recital em sala.
Dica: Incentive o uso de gravuras ou colagens para ilustrar os cordéis, retomando o valor estético das capas tradicionais.
2. História – Cultura popular e resistência
Atividade: Linha do tempo da literatura de cordel
Objetivo: Compreender o contexto histórico do surgimento e evolução do cordel.
Etapas:
- Pesquisar os marcos históricos da literatura de cordel (surgimento, tipografias, autores importantes, transformações);
- Relacionar o cordel com momentos sociais do Brasil (seca, migração, coronelismo, movimentos populares);
- Criar uma linha do tempo ilustrada (em cartaz, mural ou digital).
Dica: Estimule a identificação de temáticas sociais abordadas pelos cordelistas, como desigualdade, religiosidade e justiça.
3. Artes – Xilogravura e ilustração
Atividade: Oficina de xilogravura ou ilustração inspirada no cordel
Objetivo: Trabalhar a expressividade visual e o diálogo entre texto e imagem.
Etapas:
- Apresentar o processo da xilogravura e sua relação com o cordel;
- Produzir gravuras em EVA, isopor ou linóleo (adaptações seguras para escolas);
- Ilustrar trechos de cordéis clássicos ou criações dos próprios alunos.
Dica: A atividade pode culminar em uma exposição chamada “Galeria do Cordel”.
4. Geografia – Cordel e o Nordeste
Atividade: Mapa poético do cordel nordestino
Objetivo: Relacionar o cordel às identidades culturais e regionais do Brasil.
Etapas:
- Criar um mapa do Brasil destacando os estados nordestinos;
- Associar cada estado a cordelistas locais e temáticas frequentes;
- Produzir mini-cordéis inspirados nas paisagens, sotaques e tradições locais.
Dica: Explore o conceito de “Brasil profundo” a partir da literatura popular.
5. Projeto interdisciplinar – Cordel na era digital
Atividade: Podcast ou vídeo de cordel recitado
Objetivo: Estimular multiletramentos, oralidade e criatividade com tecnologias.
Etapas:
- Adaptar cordéis para podcast ou vídeo;
- Treinar entonação, ritmo e expressão vocal;
- Gravar episódios curtos com fundo musical ou efeitos sonoros regionais;
- Divulgar em plataformas da escola ou redes sociais com autorização.
Dica: Trabalhe a ética no uso da internet e os cuidados com fake news — temáticas que já apareceram em cordéis contemporâneos.
Conheça alguns livros de cordel
1. Desafios de Cordel
Autor(a): César Obeid

Um panorama da literatura de cordel e do repente de viola são apresentados, com humor, os ciclos do reconto, jornalístico, biográfico e diversos desafios, inspirados nas famosas pelejas entre cantadores repentistas. Os poemas são enriquecidos por ilustrações feitas em técnica mista, incluindo a xilogravura, técnica típica das capas dos folhetos tradicionais.
2. Cordel adolescente, ó xente!
Autor(a): Sylvia Orthof

Doralice é uma garota de 13 anos que vive de contar histórias nas páginas de seus cordéis, que expõe nas feiras do Nordeste. Ela narra a desventura de Bertulina, uma garota que conheceu um cangaceiro, que tinha olhos de lonjura e estrelas faiscantes nos dentes do seu sorriso, por quem se apaixonou perdidamente.
3. O riso da melancia
Autor(a): Maria Augusta de Medeiros

Este livro traz poesias em cordel tendo diversas frutas e árvores frutíferas como tema. São elas: jabuticaba, amora, melancia, carambola, manga, açaí, graviola, melão, goiaba, abacaxi, mamão, seriguela e, para finalizar, salada de frutas. Cada fruta é apresentada em diferentes formas poéticas do cordel: sextilha, setilha, oitava e décima.
Conclusão
A literatura de cordel segue viva porque nasce do povo e com ele caminha. É palavra que não pede permissão para existir. Não depende da chancela acadêmica, nem do verniz editorial: sua legitimidade está na escuta, na emoção, na crítica e na arte de transformar a dureza da vida em poesia.
Em cada estrofe, o cordel afirma que a cultura brasileira não é apenas aquilo que se consagra nos livros caros, mas também aquilo que se constrói nas feiras, nas praças e nas mãos calejadas de quem, com pouca escolaridade, tem muita sabedoria.







