Entender como estresse, atenção, emoções, relações sociais e experiências de aprendizagem afetam o cérebro pode ajudar escolas a criar ambientes mais saudáveis para estudantes e educadores. Conheça seis estratégias apoiadas por pesquisas científicas.
Falar de saúde mental na escola não significa transformar professores em psicólogos nem reduzir questões complexas de sofrimento emocional a algumas atividades em sala de aula. Significa reconhecer que aprendizagem, emoções, relações sociais e funcionamento cognitivo estão profundamente relacionados.
A neurociência tem contribuído para ampliar essa compreensão. Pesquisas sobre estresse, atenção, regulação emocional, aprendizagem por reforço e plasticidade cerebral mostram que aquilo que acontece no ambiente escolar pode interferir tanto no bem-estar quanto nas condições cognitivas necessárias para aprender.
Mas o que as pesquisas realmente dizem sobre essas estratégias? E como aplicá-las sem transformar achados científicos em neuromitos?
O que a neurociência tem a ver com a saúde mental na escola?
O cérebro não aprende de maneira isolada do restante da experiência humana. Atenção, memória, motivação e tomada de decisão são influenciadas pelo contexto, pelas emoções e pelo nível de estresse experimentado pelo estudante.
Uma revisão publicada na revista Mind, Brain, and Education, por exemplo, mostrou que o estresse pode afetar de maneiras diferentes a atenção e a aprendizagem infantil. Em níveis mais elevados, crianças podem se tornar mais suscetíveis a distrações e apresentar maior dificuldade em processos como planejamento e controle voluntário da atenção.
Isso ajuda a compreender por que promover saúde mental não deve aparecer apenas como uma ação paralela ao currículo. Criar condições para que estudantes consigam regular emoções, estabelecer vínculos, concentrar-se e enfrentar desafios também significa cuidar das condições nas quais a aprendizagem acontece.
É importante, porém, evitar simplificações. Não existe uma atividade capaz de “ativar a parte certa do cérebro” ou uma fórmula neurocientífica universal para fazer alguém aprender melhor. O que temos são evidências que ajudam a compreender processos cognitivos e socioemocionais e, a partir deles, orientar práticas educacionais mais consistentes.
1. Incorporar práticas de atenção plena com intencionalidade
1. Práticas de mindfulness para redução do estresse
Práticas de mindfulness podem contribuir para a atenção e para a redução do estresse. Em um estudo randomizado com estudantes do 6º ano, oito semanas de treinamento de mindfulness ajudaram a preservar a atenção sustentada e foram associadas a mudanças na conectividade entre redes cerebrais relacionadas ao controle cognitivo. Uma meta-análise com mais de 20 mil crianças e adolescentes também encontrou efeitos pequenos sobre estresse, ansiedade, atenção e funções executivas.
Como levar para a escola: comece com práticas breves, de 5 a 10 minutos, no início das aulas. Elas podem ser conduzidas por áudios guiados ou por exercícios simples de respiração. Esses momentos ajudam os estudantes a desacelerar, direcionar a atenção e se preparar para as atividades seguintes. Com a prática regular, podem contribuir para melhorar o foco, reduzir o estresse e favorecer a autorregulação emocional. O mais importante é que tenham objetivos claros, sejam adequados à faixa etária e não substituam atendimento especializado quando necessário.
2. Construir segurança, pertencimento e relações de apoio
As relações vividas na escola também estão associadas ao desenvolvimento socioemocional e cerebral dos adolescentes. Um estudo longitudinal acompanhou 71 estudantes, com idade média de 15 anos no início da pesquisa, utilizando questionários sobre pertencimento e exclusão escolar e exames de ressonância magnética em dois momentos. Os pesquisadores observaram que uma maior percepção de exclusão social esteve associada a diferenças na trajetória do volume de substância cinzenta da ínsula anterior esquerda, região envolvida no processamento de experiências sociais e emocionais. O estudo não encontrou a mesma associação para o sentimento de pertencimento e, por ter uma amostra pequena, deve ser interpretado com cautela. Ainda assim, reforça que as experiências sociais vividas na escola estão relacionadas ao desenvolvimento durante a adolescência.
Como aplicar na escola: invista em escuta ativa, prevenção ao bullying, mediação de conflitos e vínculos positivos entre professores e estudantes. Crie também regras claras de convivência e espaços em que os alunos se sintam seguros para falar sobre dificuldades e pedir ajuda.
3. Oferecer estímulos cognitivos variados
O cérebro em desenvolvimento apresenta plasticidade e pode se modificar em resposta às experiências e aprendizagens. Uma revisão de 71 estudos com neuroimagem identificou alterações na ativação, estrutura e conectividade cerebral após diferentes tipos de treinamento. Outra meta-análise, com 90 estudos e 8.925 crianças, mostrou que intervenções podem favorecer habilidades das funções executivas, embora os efeitos variem conforme a atividade.
Como aplicar na escola: proponha atividades que envolvam resolução de problemas, planejamento, criatividade e flexibilidade cognitiva, como jogos estratégicos, projetos, debates e desafios investigativos.
4. Valorizar o esforço e oferecer feedback positivo
O cérebro utiliza informações sobre recompensas e resultados para ajustar comportamentos e aprendizagens. Um estudo de 2025 com adolescentes mostrou que recompensas maiores favoreceram a aprendizagem, especialmente em tarefas que exigiam maior esforço, e identificou participação do córtex cingulado anterior dorsal nesse processo.
Entretanto, o tipo de reconhecimento importa. Pesquisas mostram que elogiar apenas a “inteligência” pode reduzir a persistência diante das dificuldades, enquanto o reconhecimento do esforço e das estratégias tende a favorecer uma postura mais orientada à aprendizagem.
Como aplicar na escola: ofereça feedback específico sobre o processo: reconheça estratégias, persistência e avanços concretos, em vez de limitar o elogio a características como “ser inteligente”.
5. Desenvolver habilidades socioemocionais
Habilidades como autorregulação, empatia, tomada de decisão e resolução de conflitos também podem ser desenvolvidas no ambiente escolar. Uma meta-análise reuniu 424 estudos de 53 países, envolvendo mais de 575 mil estudantes, e encontrou benefícios de programas de aprendizagem socioemocional para habilidades, comportamentos, relações entre pares, clima escolar e desempenho acadêmico.
Como aplicar na escola: utilize rodas de conversa, situações-problema, dramatizações e atividades colaborativas para trabalhar identificação de emoções, empatia, resolução de conflitos e tomada de decisões.
6. Cuidar da saúde mental dos educadores
O bem-estar dos professores também faz parte de um ambiente escolar saudável. Um estudo com 406 estudantes encontrou associação entre maiores níveis de burnout dos professores e níveis mais elevados de cortisol matinal dos alunos, indicando uma relação entre o estresse ocupacional docente e a resposta fisiológica ao estresse dos estudantes.
Além disso, uma revisão de 88 estudos encontrou efeitos positivos de intervenções destinadas a professores sobre estresse, ansiedade, burnout e bem-estar, embora os pesquisadores destaquem diferenças importantes na qualidade dos estudos.
Como aplicar na escola: estabeleça pausas, organize melhor as demandas, incentive limites entre trabalho e descanso e crie espaços de apoio e escuta para os profissionais.








