Quando eu era criança, havia um espaço no armário da cozinha de casa carinhosamente chamado de “gaveta da bagunça”. Lá encontrava tudo o que uma criança de cinco anos precisava para se divertir: barbantes, cola, tesoura, papel, tinta, lápis de cor, pedaços de papelão e plástico de todas as formas e tamanhos. Minha mãe me ajudou a criar esse espaço, e o incentivo do Daniel Azulay (1947-2020), famoso artista e apresentador de programas infantis da década de 1980, também teve um papel importante. Eu não fazia ideia de como sua arte iria influenciar minha vida.
Eu era extremamente curioso e criativo. Comecei com desenhos e colagens, depois passei a criar carrinhos de papelão, modelos de avião, cenários complexos para as missões dos meus bonecos de brinquedo. Na adolescência, cheguei a construir uma bateria musical caseira usando uma caixa de papelão, pedaços de madeira, um elástico, potes plásticos (alguns “adquiridos” sem autorização da minha mãe) e um antigo paliteiro de metal de minha avó, o qual produzia sons metálicos ao bater nele. Passava tardes inteiras escutando músicas e aprimorando habilidades que posteriormente me permitiram dar aulas de bateria.

Reprodução Giphy
Com o tempo, percebi o quanto as mesmas habilidades que foram incentivadas e desenvolvidas em mim na infância são úteis para o meu trabalho como autor de livros didáticos de Ciências da Natureza. Essas habilidades são a curiosidade e a criatividade, os dois “C’s” fundamentais para uma Educação Científica de sucesso. Embora diferentes autores possam classificá-las de diversas maneiras, tais como habilidades, qualidades ou traços da personalidade ou do caráter, o mais importante não é a nomenclatura, mas sim o fato de que ambas são características que podem ser aprimoradas e estão intrinsecamente ligadas.
A criatividade e a curiosidade são habilidades de extrema importância para a formação dos estudantes. Além de serem essenciais para o êxito no processo de ensino e aprendizagem, elas são fundamentais para o futuro profissional das crianças e adolescentes. Em uma escala maior, são habilidades cruciais para enfrentar os atuais e futuros desafios da humanidade, que estão cada vez mais complexos. Além disso, as habilidades socioemocionais impulsionam as capacidades cognitivas, razões pelas quais devem ser estimuladas a ponto de estarem no mesmo patamar de importância de disciplinas como Ciências ou Matemática.
O primeiro sinal de criatividade é a frustração de não encontrar resposta a um problema.
Ser criativo exige coragem, pois implica pensar de forma diferente. A coragem, por sua vez, é uma qualidade do caráter* que nos permite agir apesar do medo ou da incerteza. Para reduzir o medo de cair, podemos nos manter próximos ao chão, mas assim não teremos a oportunidade de voar. No contexto profissional, o empreendedorismo é um exemplo de coragem. Um empreendedor que combina ciência com humanidade aumenta suas chances de sucesso. Outro exemplo é o professor que identifica o interesse de um estudante e o incentiva até que ele revele seu talento. Para isso, este profissional precisa pensar e agir de maneira diferente, guiando seus estudantes pelo mesmo caminho, e facilitando o processo de ensino e aprendizagem.

Professor incentivando estudantes em uma atividade prática. Reprodução: Shutterstock
Um estudante que tem sua criatividade incentivada amplia em 18% as chances de progredir nos estudos e reduz em 10% a probabilidade de ficar desempregado.**
Quando adicionamos o fator tecnologia, percebe-se de maneira ainda mais nítida o papel crucial da criatividade e da curiosidade. Essas habilidades são difíceis de serem replicadas pela inteligência artificial, tornando-se indispensáveis à medida que a automação se torna mais presente em nosso mundo. Além disso, a falta de recursos tecnológicos não impede o exercício da curiosidade e da criatividade. Pelo contrário, é a falta de estímulo para as potencializar que limita o desenvolvimento da tecnologia.
Recentemente, estudos sobre a curiosidade e a criatividade trouxeram resultados preocupantes. Uma pesquisa da OCDE (Organização para a Cooperação de Desenvolvimento Econômico) realizada em 2021, sobre Habilidades Sociais e Emocionais***, demonstrou que adolescentes estão menos criativos e curiosos, e, como consequência, estão menos persistentes e responsáveis. Os resultados do estudo apontam algumas questões importantes:
>> A autopercepção da criatividade diminui à medida que os estudantes entram na adolescência, e isso é confirmado pelos pais e professores.
>> Existem diferenças de criatividade e curiosidade em crianças de diferentes realidades sociais. Quanto maior o nível socioeconômico, mais expressivas são essas habilidades.
No entanto, o estudo também apresentou pontos otimistas.
>>> Estudantes com 15 anos de idade que se consideram mais criativos, também descrevem maior persistência e vontade para aprender coisas novas.
>>> Adolescentes que se descrevem mais curiosos possuem maior tendência para trabalhar em ocupações relacionadas às ciências, enquanto os mais criativos tendem a se interessar por jornalismo ou artes.
Mas quais podem ser os motivos para a queda de criatividade e curiosidade? Em primeiro lugar, devemos considerar as intensas alterações hormonais que acontecem na adolescência, e que levam a mudanças físicas e psicológicas. Neste período, surgem novas formas de percepção de si e do mundo, o que pode gerar uma sensação de exposição, constrangimento e insegurança. No entanto, também devemos considerar a falta de incentivo dos sistemas educacionais na promoção dessas e de outras habilidades socioemocionais. Justamente quando as crianças mais precisam, não encontram um ambiente seguro, onde possam ser curiosas e criativas, sem medo de se expor.
Devemos considerar também que a maneira como os adolescentes se veem refletirá em suas escolhas futuras. Se um adolescente não se percebe curioso nem criativo, isso afetará diretamente sua persistência e responsabilidade. Portanto, um ambiente escolar que estimule essas habilidades socioemocionais, juntamente com outras competências cognitivas, é essencial para ajudar os estudantes a construírem seu futuro. Neste sentido, os materiais didáticos podem desempenhar um papel importante. Livros que proporcionam ao estudante e ao professor oportunidades de explorar a curiosidade e a criatividade, seja pela escolha de assuntos instigantes ou de projetos em grupo, seja pelo desenvolvimento de produtos, ou atividades práticas de observação, verificação e investigação, destacam-se neste contexto.

Estudantes interessados na leitura de um livro. Reprodução: Shutterstock
Nas minhas coleções de livros didáticos, tenho priorizado o desenvolvimento de atividades que despertem a criatividade e a curiosidade dos estudantes. Na mais recente coleção direcionada para os anos finais do Ensino Fundamental, elaborei uma seção especialmente dedicada à investigação, reflexão, análise crítica, curiosidade, criatividade, liderança e comunicação dos estudantes. Nessa seção, um grupo de estudantes é desafiado a propor soluções para uma situação-problema instigante. Ao término dessa etapa, o grupo é novamente desafiado a desenvolver um produto resultante das soluções propostas.
Além dos materiais didáticos, o papel do docente também se faz essencial nesse cenário. Existem muitos professores comprometidos em estimular a curiosidade e criatividade de seus alunos, como uma professora de Ciências que conheci, e adorava trabalhar com projetos. Ela me contou que, ao conversar com o estudante, procurava identificar o que despertava o brilho em seus olhos. Quando percebia este brilho, sabia que o significado estava presente, e que a curiosidade estava cumprindo seu papel de abrir espaço para a aprendizagem, que seria construída com base na criatividade.
Como educadores, devemos ter esta sensibilidade de enxergar além do conteúdo a ser ensinado e olhar para a criança que precisa ter sua curiosidade preservada e incentivada. Assim, podemos superar uma das frases dita pelo astrofísico Carl Sagan (1934-1996): “Toda criança começa como uma cientista nata, e então nós arrancamos isso delas. Umas poucas resistem ao sistema com sua admiração e entusiasmo pela ciência intactos”.
* Educação em Quatro Dimensões: As competências que os estudantes devem ter para atingir o sucesso. Fadel, C e outros. Center of Curriculum Redesign, Boston, 2015. Trad. Instituto Península e Instituto Ayrton Senna.
** ¡Buenos días creatividad! Hacia una educación que despierte la capacidad de crear. INFORME FUNDACIÓN BOTÍN. 2012. Disponível em: https://fundacionbotin.org/89dguuytdfr276ed_uploads/EDUCACION/creatividad/buenosdiascreatividad.pdf. Acesso em 14 ju. 2023.
*** Beyond Academic Learning: First Results from the Survey of Social and Emotional Skills, OECD Publishing, Paris. 2021. Disponível em: https://doi.org/10.1787/92a11084-en. Acesso 14 jun. 2023.








