Os melhores caminhos no processo seletivo de professores e gestores para reduzir o turnover.
A escola contrata o profissional por seus atributos técnicos, mas tempos depois o demite por conta das questões socioemocionais. Se você já ouviu essa frase, saiba que ela compõe uma realidade que vai
além da sua instituição de ensino. De acordo com a headhunter Ana Paula Souza, da consultoria Spaço, essa não é uma situação específica da área educacional, mas inerente às relações humanas.
“As pessoas podem ser muito boas tecnicamente, mas a rotina, os relacionamentos, os desgastes
ou o próprio comportamento do indivíduo podem revelar aspectos que dificultam as relações”, explica.

A psicóloga Maria Inez Naletto, coordenadora de processos seletivos na Maiêutica RH Educacional,
concorda com essa abordagem.
“Hoje, as competências comportamentais, as soft skills, são tão importantes quanto as técnicas, hard skills, especialmente na área educacional onde a maior parte do trabalho acontece na interação entre pessoas, na relação professor-aluno, professor-coordenação, família-equipe escolar”, cita.
Essa constatação mostra um cenário do que pode ser considerado uma dor registrada na área educacional. Há dificuldade de realizar contratações assertivas para posições em sala de aula,
coordenação e gestão.
Dar Match
A expressão que mistura português e inglês, muito comum nos tempos de internet, signifi ca que
duas partes combinam e faz parte de uma ocorrência primordial na hora de buscar um colaborador.
“O principal desafi o de qualquer processo seletivo é fazer com que ‘as pessoas certas se encontrem’, realizando uma ponte entre talentos e oportunidades em um momento propício para ambos”,
explica Naletto. A escolha adequada que também vai incidir em outro ponto importante nessa relação é a retenção desse indivíduo, reduzindo o índice do que pode ser um grave problema, que é a rotatividade
de profi ssionais, podendo impactar diretamente o dia a dia dos estudantes e da operação, o chamado turnover.
“Quando a instituição se preocupa com um bom processo de seleção, costumamos dizer que para acontecer um bom ‘casamento’, não só a contratante escolhe o candidato, mas o candidato também precisa escolher onde vai trabalhar”, exemplifica, ressaltando que os participantes não podem ser considerados como objetos em uma prateleira. “Eles são ativos no processo e precisam fazer escolhas”, cita.
Tamanho do município
Uma palavra que combina bem com as características da rede privada de educação no Brasil é pulverização. Apesar de as 50 maiores cidades do país concentrarem quase metade das matrículas, as
demais unidades se espalham por mais de 3 mil municípios, de acordo com o Censo Escolar.
Essas características implicam, também, obstáculos e peculiaridades na contratação de bons
profissionais para essas instituições de ensino.
ssa problemática, ressalta Souza, apresenta uma estrutura que é comum para todas as realidades,
que ela enumera: o perfil aceito pela comunidade escolar, as questões técnicas, idade, tempo
de experiência, disponibilidade e a logística (distância, locomoção, eventual mudança).
“Em uma grande cidade temos mais possibilidades de encontrar candidatos, já em municípios menores é necessário ampliar o raio de busca e considerar que esses candidatos possam vir de outras
localidades, o que nem sempre é desejado pelo contratante devido ao custo social de adaptação e
aceitação da comunidade local”, aponta Souza.
Sobre os municípios menores, Naletto esclarece que a dificuldade pode estar nas diferenças
salariais e oportunidades de capacitação oferecidas nos grandes centros urbanos. Por outro lado,
há a atratividade de uma vivência interiorana, mais tranquila.
“Costumamos pensar que a política de remuneração não é composta só de salário, mas de todas
as condições que envolvem aquele trabalho: qualidade de vida, carga horária, projeto pedagógico,
benefícios, clima organizacional, posição a ser ocupada”, cita.
Coordenação pedagógica e direção
A busca por profissionais adequados às necessidades da escola para a vaga de coordenação
pedagógica tem se tornado mais trabalhosa, afirma Souza, pois são funções que costumam agregar
uma carreira longa, de intensa dedicação a uma única instituição. “Já aconteceu conosco, em processos de hunting, com oferta generosa de salários, de o profissional recusar por ter um sentimento de ligação muito forte à escola onde estava”, relata. Isso não quer dizer que não há profissional disponível, mas que a busca tem sido desafiadora, em especial se a exigência para a posição for bilíngue.
Existe também uma outra abordagem que nem sempre está no radar das unidades de ensino, que é mais voltada ao corpo funcional interno, como ressalta a psicóloga Naletto. “Há muitos bons professores
esperando novas oportunidades em cargos que eles ainda não desempenharam, como a gestão
pedagógica, direção, supervisão técnica, mas a exigência de grande experiência na posição reduz muito
o número de candidatos”, diz.

Para os cargos de direção, a especialista enxerga um desafio ainda maior, diante da existência muito pequena de um plano estruturado pensado para construir uma sucessão adequada.
“Muitas escolas são familiares e a mudança de lideranças segue caminhos de parentesco.
Outras não se preparam para isso e acabam sendo surpreendidas com a saída de um diretor, que é
uma posição extremamente estratégica”, pontua.
Para Souza, além do foco em competências e olhar integral para o participante, a realização
das fases deve criar uma jornada para o candidato, o que vai gerar respeito e desejo pela
instituição de ensino, mesmo que não seja contratado.
Tecnologia nos processos
As consultoras entrevistadas afirmam que, apesar de não serem desenhadas exclusivamente para o segmento educacional, há ferramentas tecnológicas no mercado de RH como um todo que, feitas as devidas adaptações, podem dar certo suporte em partes dessa jornada. São elas: LinkedIn, Indeed, Gupy e Google for Jobs. No entanto, existem plataformas digitais próprias onde essas consultorias gerenciam processos e mantêm bancos de talentos atualizados com dezenas de milhares de currículos.
Esta matéria foi publicada originalmente na Revista Mundo Escolar ed.18. Acesse a revista completa aqui.








