Família

O que nós podemos aprender com o filme “Ó Paí, Ó!”?

Por Caroline Lina

Estimativa de leitura: 10min 14seg

23 de novembro de 2023

O clássico do cinema nacional volta às telinhas para coroar a história que consagrou um pedaço da Bahia para o mundo.

Eu sou baiana, nascida e criada no sertão, e muito provavelmente você não sabia disso. Quem também é baiano é o ator hollywoodiano Wagner Moura (de Narcos, na Netflix; Iluminadas, da Apple TV) e Lázaro Ramos, que sim, dispensa apresentações.

Outra coisa que provavelmente você, meu leitor fora do eixo norte-nordeste, não saiba é que eles estrelaram o filme “Ó Paí, Ó!”, lá em meados de 2007, gravado na capital baiana, Salvador, e dividiram a cena com vários outros artistas nascidos pela Bahia. Digo isso, pois, talvez se você não é baiano ou nordestino, esse filme não tenha o mesmo valor e significado que tem para nós.

E por que estou falando disso? Representatividade. Mesmo que seja por um pedaço bem pequeno de nós. Ou talvez porque eu ame o filme e pense que todo mundo merece dar umas boas risadas com ele.

E aqui, peço licença, mas me atrevo a dizer que “Ó Paí, Ó!” faz parte da cultura baiana tal qual Caetano Veloso, Gilberto Gil e a Axé Music.

Cena do primeiro filme de “Ó paí, Ó!” | Foto: reprodução

Prelúdio – o que contam os filmes

Dirigido por Monique Gardenberg e lançado em 2007, o começo da história de “Ó paí ó!” se passa no Pelourinho, no centro histórico de Salvador e retrata a vida de vários moradores de um cortiço decadente, onde eles compartilham a paixão pelo carnaval, problemas, e a antipatia pela síndica do prédio, uma religiosa intransigente que se incomoda com os festejos dos condôminos. Apesar do tom cômico e musical alegre, o longa traz o contraste social da cidade, apresentando assuntos como violência, drogas, preconceito e racismo.

Trailer de “Ó paí ó! 2”

Dezesseis anos após Roque (Lázaro Ramos), Dona Joana (Luciana Souza), Neuzão (Tânia Tôko) e muitos outros personagens exibirem para o Brasil as dores e as alegrias dos soteropolitanos pelas ruas de Salvador, a sequência traz novas histórias, sorrisos, gírias e mais reflexões. Em entrevista ao G1, Lázaro diz: “A gente fala de mães que perderam seus filhos assassinados e fala de saúde mental também, que é um tema importante para a nossa população hoje. A gente fala sobre criação de adolescentes e de jovens e das preocupações, mas também das soluções que eles estão oferecendo para o mundo”.

Trailer do “Ó paí ó! 2” – em exibição nos cinemas em novembro de 2023

Não muito diferente de outras crianças baianas, cresci assistindo ao filme e acompanhando a minissérie global (depois do sucesso do longa, a Globo produziu mais duas temporadas de um seriado que ia ao ar nas sextas-feiras após o Globo Repórter). Lembro que pouco tempo depois da estreia nos cinemas (que na minha cidade nem tinha um), Mainha comprou uma versão (pirata) do DVD do filme (você, xóvem, que me lê, sabe o que é um DVD??? rsrsrsrs) e vira e mexe a gente assistia num domingo à tarde. Era um evento!

Eu sou do interior, de uma cidade chamada Vitória da Conquista – que está mais próxima de Minas Gerais do que de Salvador. E como somos de um estado plural, minha baianidade pode até ser um pouco diferente da baianidade de quem nasce em Salvador – a representada no filme – ou de quem nasce em Bom Jesus da Lapa, por exemplo. Mas falarei sobre isso muito em breve.

Sobre história – Tudo começou com o Bando de Teatro Olodum

O filme, que posteriormente originou uma minissérie, foi baseado na peça homônima de Márcio Meirelles, criador do Bando de Teatro Olodum e diretor do Teatro Vila Velha, lançada em 1992, em Salvador.

O longa traz as atuações brilhantes não só de grandes nomes da mídia (tem Érico Braz, Emanuelle Araújo e outros poucos não-baianos como Dira Paes, Stênio Garcia e Matheus Nachtergaele), e conta com outros atores do Bando de Teatro Olodum. Foi lá, nesse grupo de teatro, que Lázaro Ramos iniciou sua carreira de ator com apenas 15 anos.

Bando em cena no espetáculo “Ó Paí ,Ó!” nos anos 1990 | Foto: Cedoc A TARDE

O projeto, que é poético-político, nasceu em 1990 e segue firme na proposta de retratar a vida cotidiana da comunidade negra, combatendo o racismo e promovendo a valorização da cultura negra. Até hoje, as peças do grupo têm como foco fortalecer a presença dos negros na sociedade, construindo identidades e capacitando artistas, sempre com os traços marcantes da sua própria linguagem cênica.

Com 33 anos ininterruptos, o Bando de Teatro Olodum é o grupo de teatro negro de maior longevidade da América Latina.

Cena do espetáculo “Ó Paí, Ó!”, no projeto Domingo no TCA, já nos anos 2010 | Foto: Divulgação

Sobre Racismo – “Você é negro!” – uma das cenas mais épicas do primeiro filme

No primeiro filme (2007), Lázaro Ramos (Roque) e Wagner Moura (Boca) protagonizam uma cena de discussão emblemática que se tornou um grande símbolo contra o racismo. O discurso de Roque, traduzido pela maestria de interpretação de Lázaro, é uma adaptação de um trecho da peça “O Mercador de Veneza”, de Wiliam Shakespeare.

Esse ato não estava previsto no roteiro, mas foi incluído por sugestão do ator, que lia a obra na época das gravações. O que era apenas uma cena de discussão entre dois antagônicos, virou um grito contra a discriminação racial e se tornou um marco épico no cinema nacional.

A Bahia é o estado que concentra o maior número de pessoas pretas no Brasil, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), publicada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Salvador, a cidade com mais negros fora do continente africano. E nosso país já é um lugar de maioria negra: somos 56,1% da população.

Mas esses números não escondem a nossa realidade: o racismo é praticado de forma escancarada, especialmente considerando os aspectos estruturais e institucionais. Sabemos que as oportunidades no mercado de trabalho, a distribuição de renda, o percentual da população carcerária e as condições desiguais de moradia sobressaltam a diferença entre brancos e pretos por aqui. 

E é tão desconcertante pensar que, uma peça escrita há mais de quatro séculos, fez sentido para um filme em 2007, e hoje, 16 anos depois, infelizmente ainda traz muito da nossa realidade. Esse diálogo de “Ó Paí, Ó!” é um discurso poderoso sobre como negros e brancos são seres humanos iguais que inspirou até o cantor Emicida a criar uma música.

Sobre a Bahia e seu pluralismo – o que precisa ficar atento

“Ó Paí, Ó!” apresenta para o Brasil um pequeno pedaço da Bahia, isso é fato. Não digo que o filme estereotipa o baiano, mas mostra, com segurança, apenas a faceta soteropolitana.

Claro que quando falamos sobre o estado, a primeira lembrança de qualquer pessoa de fora é pensar em Salvador e, talvez, no Recôncavo da Baía de Todos os Santos. Essa visão caracteriza uma Bahia apequenada, ou idealizada, reduzindo as demais “baianidades” do estado. E sim, os costumes, a cultura, a comida e os trejeitos da capital nem sempre são os mesmos das demais cidades do interior.

O filme apresenta com maestria como funciona a capital, sua diversidade, seu sotaque, mostrando a convivência de diferentes grupos étnicos e culturais. Mas elas diferem – e muito – do restante da Bahia. Comentei, no começo desse artigo, que sou nascida e criada em uma cidade que fica há 510km da capital baiana e posso dizer como nossos costumes são muito distantes dos soteropolitanos – e olha que eu morei por mais de 5 anos em Salvador, então vivi a diferença das duas cidades.

Começamos pelo sotaque. Na minha terra, por ser mais próxima de Minas Gerais, nosso acento é diferente, com um “s” mais puxado. Indo mais para o norte, um acento mais ditado, com um “dí” e “tí” bem forte nas palavras. Já na capital, você deve se lembrar, é um acento “cantado”. Quem nunca ouvir falar que baiano não fala, canta? Dizem por aí, que é um dos sotaques mais cativantes.

Tabuleiro da baiana em “Ó Paí, Ó!” | Foto: Acervo/Globo Filmes

A comida também é outro ponto de diferença muito relevante. Em Salvador, as típicas são acarajé, moqueca e outras comidas com azeite de dendê, que são até autointituladas pelos soteropolitanos de “comida baiana” – como se as comidas de outras cidades também não fossem, rsrsrs. Tem até um dia específico para essas iguarias no buffet de todo restaurante da capital, as sextas-feiras.

Guisado de bode, comida típica de Juazeiro e redondezas | Foto: Patrícia Ecave/ Gazeta do Povo.

Se afastando de São Salvador dá para encontrar diversas outras comidas típicas, como em Juazeiro, às margens do Rio São Francisco, que fica o multiverso da carne de bode (tem de um tudo que você possa imaginar feito a partir da matéria-prima dos caprinos, juro!!!); em Conquista, a diversidade magnífica do que chamamos de biscoito – e não, não aceitamos você falar bolacha, no máximo, um sequilho – onde se fabrica mais de 4,6 mil toneladas por ano.

Os famosos biscoitos – tem doce, salgado, agridoce, de frutas, especiarias, etc. | Foto: Renato Santana/Correio 24 horas

A temperatura. Você sabia que também faz muito frio na Bahia? Para se ter ideia, três das cidades mais frias do Nordeste são baianas: Piatã, na Chapada Diamantina, que é a cidade mais fria da do nordeste, chegando a registar 4º graus (1.200 metros acima do nível do mar); Morro do Chapéu (1.100m), também na Chapada; e Vitória da Conquista (1.100 metros), que no último inverno atingiu a mínima de 7º de temperatura, com sensação térmica de 0º devido às rajadas de vento – não é à toa que lá tem até um Festival de Inverno Bahia.

A listagem de diferenças entre as microrregiões da Bahia é grande e eu poderia descrever por horas as peculiaridades de cada povo. Mas o meu ponto aqui é: mesmo com a genialidade de “Ó Paí, Ó!”, não podemos restringir a uma cultura só como dominante ou como a voz de um povo. Inclusive, temos outras produções cinematográficas que exploram bem essa diversidade, mesmo que tipificada, do povo baiano, veja só:

>> Café com Canela (2018), de Ary Rosa e Glenda Nicácio rodado no Recôncavo baiano;
>> Alice dos Anjos (2021), de Daniel Leite Almeida, gravado na zona rural de Vitória da Conquista e Anagé;
>> Filho de Boi (2019), de Haroldo Borges, filmado em Curaçá, norte da Bahia.

E sobre dialetos – Mas, para encerrar o assunto, o que significa “Ó paí, ó”?

Primeiro, vou esclarecer que essa é uma dialética soteropolitana (que é de Salvador) e o resto da Bahia não usa tanto como os moradores da capital usam. Mas “Ó pai, ó” é uma aglutinação fonológica que abrevia a expressão “Olha pra isso, olha!”.

Então, quando chegar à Bahia e alguém lhe disser “Ó pai, ó”, você já sabe que é para prestar mais atenção em algo/ser mais atento (Ó paí, ó, a entrada é por ali), ou que quem está conversando com você está indignado com algo paí, ó, o quanto a passagem de ônibus aumentou), ou um xingamento (e não preciso exemplificar aqui, mas se você ouvir alguém dizendo com essa intenção, vai perceber, rsrs).


Caso queria embarcar nessa e entender mais do que eu estou falando, o primeiro filme e a minissérie estão disponíveis no Globoplay.

E veja a continuação dessa história nos cinemas, vamos valorizar as produções nacionais e regionais da sétima arte!

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