Professor

A Educação Musical e suas infinitas portas: entrevista com André Rosa 

Por Marcello Miyake

Estimativa de leitura: 10min 3seg

20 de fevereiro de 2024

A música está presente em toda nossa vida, mas poderia ser ainda mais presente no contexto acadêmico. O músico e professor André Rosa nos conta sobre sua jornada como Educador Musical e sobre sua visão sobre as inúmeras possibilidades que a música pode abrir para um estudante.  

Quando conheci André Rosa, imediatamente vi a afinidade que compartilhávamos, não só musical, mas sobre nossa perspectiva sobre o mundo. Depois de algumas horas de conversa, debatendo sobre os inúmeros mestres e mestras que a música nos apresentou, percebi que ainda concordávamos em mais um assunto: o papel da música na Educação e na formação dos indivíduos. 

Por isso, o convidei para uma conversa na qual essa visão fosse compartilhada e pudesse ser lida por quaisquer profissionais da Educação, estudantes e/ou amantes de música. 

André é professor, compositor, formado em licenciatura em Música, na faculdade Santa Marcelina, e pós-graduado em Canção Popular. Dá aula pelo Programa Einstein da Comunidade Paraisópolis. 

André Rosa 

P: Para começar a conversa, conte um pouco sobre seu caminho até se tornar educador. 

R: Sempre fui professor. Acho que se formos falar sobre Educação Musical, acho legal levantar o ponto de que alguns músicos tocam, e precisam das aulinhas para ganhar dinheiro. Comigo foi o contrário: sempre quis fazer música para Educação, acompanhar aquele menino de treze, quatorze anos e passar a mesma paixão que tive quando tive a mesma idade.  

P: Você disse dar aula de violão pelo Programa Einstein da Comunidade Paraisópolis, conte um pouco sobre o programa e como ele impacta na comunidade na qual está inserido.  

R: O programa surgiu nos anos 90, uma época na qual Paraisópolis sofria de diversos problemas estruturais, como saneamento básico, que acabavam por trazer doenças para a população. Doenças que algumas vezes até haviam sido erradicadas. Foi-se criado um centro médico na comunidade, mas percebeu que não era apenas isso que solucionaria os problemas. A fim de atender às doenças psiquiátricas também, os Centros de Psicologia e Psiquiatria também foram criados. Mas indo além, perceberam que a saúde não parava por aí, mas também tinha muito a ver com Cultura e Educação. A partir disso, foram criadas as aulas de esportes e música, e recentemente fui chamado para dar aula de violão, mas existem outros cursos, como dança brasileira, canto coral, musicalização, outros instrumentos… Por ser do Einstein, há bastante recurso, instrumentos e estrutura. Além disso, é muito acessível: as pessoas chegam lá sem nunca ter tocado um violão na vida e conseguem aprender.  

P: Como você viu a relação dessas pessoas com a música gerando algum tipo de impacto na vida delas? 

R: Essa pergunta é muito legal, pois me lembra algo que sempre digo: entrar numa sala de aula e falar “olha, a posição do Ré Maior é aqui”, qualquer pessoa que toca violão pode entrar e fazer. Mas para entrar em uma comunidade, conhecer os jovens, a realidade deles, que muitas vezes não é fácil, é preciso ter uma visão de educador e de professor com aquela pessoa. Não é chegar lá, dar aula e voltar para a casa. Você passa a conviver com essas pessoas e as coisas que você viu e aprendeu com eles.  

P: Há algum exemplo que se lembre? 

R: Tem um caso de um aluno que chegou sem dormir, pois estava trabalhando antes da aula. Eu vi que ele estava cansado e não ia conseguir aprender. Liguei para meu chefe, pegamos um cobertor e ele descansou. Poderia ter dado a aula ou dispensado pelo cansaço, mas vi que ele tinha outras necessidades ali. Ele dormiu, acordou e agradeceu, e depois dei a aula. Mas para alguém que trabalha, estuda, tem que cuidar de dois irmãos e ainda quer aprender a tocar violão… É interessante como isso te dá visão e jogo de cintura para lidar com as situações que às vezes um estudante está passando em casa. Se em uma aula a pessoa é superfalante e na próxima ela está super-reclusa, muito provavelmente tem algo ali invisível aos olhos.  

P: Onde você acredita que a música, ou um instrumento como o violão, pode entrar nisso? 

R: Acredito que vivemos em um país onde a música impera. A música brasileira é extremamente rica, é uma linguagem única e somos privilegiados pelos músicos e compositores do Brasil. Eu vejo a canção como um dos caminhos da Educação. Sem dúvidas, ela me ajuda no meu papel como educador.  

P: A teoria musical pode ser muito distante, na percepção das pessoas, da música que ouvimos no dia a dia. Como você aproxima o material a ser ensinado dos estudantes, pensando neles como consumidores de música? 

R: Vou falar sobre como eu faço, e que pode ser completamente diferente do que outros educadores musicais fazem. Eu, André, não consigo trabalhar se não conheço o estudante que está na minha frente. Primeiro, ele precisa confiar em mim antes de qualquer coisa. Posso chegar lá, começar a falar sobre teoria, Dó Maior, Clave de Sol, e provavelmente ele vai achar desinteressante, complicado, cheio de nome difícil, e não vai entender nada. Para conhecê-los, primeiro chego e pergunto o que aquela pessoa escuta, e vamos ouvir aquilo juntos. Pronto, ela já ouviu o que gosta na sala de aula. Aí, começo a conversar. Pergunto, por exemplo, se a pessoa sabe contar até seis, e que se sabe, ela já sabe tocar violão. Falo isso, pois o violão tem seis cordas, e é uma forma de começar a seguir um passo de cada vez.  

P: Conseguiria citar algum exemplo de artista que seus estudantes levaram e te marcaram? 

R: Tem uma menina que era muito fã de Marília Mendonça. Eu gosto das músicas dela, mas nunca foi da minha área, o sertanejo universitário e tudo mais. Mas ela adorava e pensei “vou ter que ouvir para ensiná-la”. Ela queria aprender uma música e eu disse que ela não tinha nível ainda para aprender a tocá-la, mas que se ela quisesse encará-la, faríamos isso juntos. Com isso, já estabelecemos uma relação pessoal, mais do que musical ou educativa. Eu conto que ela vai se dedicar e ela conta que eu vou ensiná-la. É um jogo de trocas e eu só consigo ensinar a técnica do violão se a pessoa confia em mim.  

P: Como você vê esses estudantes reagindo à parte técnica do aprendizado? 

R: Todo mundo ouve música. Ele ouve o “Dó Maior” nas músicas dele, coisas como “tensão e relaxamento”, “dominante e tônica”. Tudo isso está nas músicas do nosso dia a dia. Técnica é dar nome para as coisas que a gente já escuta. Se for para ser puxado e difícil, vai ser. Do mesmo jeito que pode ser legal e interessante.  

P: E esse gosto pessoal deixa os estudantes mais interessados? 

R: Sim, com certeza. Havia um estudante que queria aprender a tocar rap no violão, em músicas que nem tinham. Mas vamos lá, vamos encarar. E é isso que é ser um profissional da música, não é tocar o mesmo repertório de sempre, mas adaptar àquilo que o estudante quer aprender. E daí vem a parte da troca, não é só ficar no mundo do aluno. Se pegarmos um funk carioca, que possuí batida muito próxima ao Maculelê, que vem da Capoeira, e que essa métrica e ritmo podem ser encontradas muito na obra de Baden (Powell) e muitos outros artistas, por exemplo. É uma forma de criar associações para o estudante, mas é muito difícil mostrar algo para ele se você não o ouviu antes. Acredito que o gosto musical do estudante é um grande ponto de partida, é um presente que ele te dá. Meu trabalho, além de tudo, é mostrar a riqueza musical daquilo que ele já ouve e como as coisas se interligam.  

P: E sobre os professores que você teve na música? 

R: Não há como não falar sobre o professor de música que tive quando criança, Luís Fernando Scutari. Lembro que ele sempre contava uma história sobre uma reunião de professores em que diziam que eu não prestava atenção em Português, Matemática, mas que nas aulas de Música chegava lá e sabia tocar os instrumentos. Há um professor na faculdade que não posso deixar de citar também, Sérgio Molina, autor do projeto Música de Montagem. E claro, os grandes mestres, Chico Buarque, Caetano Veloso, Milton Nascimento, Arnaldo Baptista e Sérgio Sampaio são alguns. Os discos no geral, que são por si só educativos. Você pode aprender muito, por exemplo, escutando Refazenda, do Gilberto Gil. Não posso deixar de citar também meus alunos, que sempre me instigam e trazem coisas diferentes, novas propostas e me apresentam muitas coisas que normalmente não chegaria tanto em mim. 

P: Como você citou outras matérias, como você enxerga que a música pode ajudar na interdisciplinaridade? 

R: A palavra interdisciplinaridade é interessante, mas faz parecer que a música está a serviço de outra matéria, quando muitas vezes pode ser o contrário. Aprendemos história por meio da música, entendemos como era o cotidiano de um carioca comum do começo do século XX ouvindo as canções do Noel Rosa. Entender um determinado ritmo é entender o seu povo, si mesmo e, consequentemente, sua história. O que eu sinto falta na Educação hoje é enxergar a música como um conhecimento intrínseco, não apenas como um complemento a determinada matéria ou assunto.  

P: Para finalizar, como você acredita que a música deveria estar presente na vida de um estudante? 

R: Do Ensino Infantil ao Ensino Médio, sem dúvidas. Claro, faixas etárias diferentes exigem abordagens diferentes. Mas a música é uma área do conhecimento como qualquer outra. Acho curioso como a criança brasileira é extremamente musical, sabe cantar ritmos complicados com muita naturalidade. A brincadeira como “Ciranda, cirandinha” pode ensinar muito para uma criança, uma vez que ela está “jogando”. Essa palavra também é interessante, pois falamos “jogar” no português, mas no inglês é “play”, o mesmo verbo utilizado para tocar um instrumento. Play the guitar, play the piano. Existe uma educadora musical, Teca Alencar de Brito, que defende que a música é uma brincadeira de criança, e gosto de pensar assim. Na música, você encontra uma “brincadeira”, mesmo que mais “adulta”, mas que nos ensina a ser pessoas melhores. E isso, nada nem ninguém pode nos tirar. 

Depois dessa conversa com André, concluo que, além de “dar muito pano para manga”, a música é uma linguagem universal, que transcende barreiras culturais e conecta pessoas de forma única, independente de suas origens.  

A Educação Musical desempenha um papel crucial no desenvolvimento integral de indivíduos, contribuindo não apenas para o aprimoramento de habilidades cognitivas, mas para nossa formação como ser humano, para nosso entendimento como indivíduo e de nossos respectivos contextos. Investir na Educação Musical é investir no potencial humano, cultivando habilidades que transcendem os limites do conhecimento musical e se estendem para toda a vida. 

Marcello Miyake
Mineiro de nascimento e coração. Formado em Comunicação Social, atua há 6 anos como redator e roteirista.
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