Entre as inúmeras criaturas do folclore brasileiro, poucas despertam tanto fascínio e temor quanto o Mapinguari — uma entidade lendária que, há séculos, é descrita como a protetora da Amazônia contra invasores e caçadores, ainda que por meios violentos...
Nas profundezas da floresta, esconde-se essa figura mitológica, meio humana, meio animal, coberta por longos pelos tão duros que seriam à prova de balas. Alguns relatam seu odor como insuportável, que a criatura possui apenas um olho, e que sua boca é rasgada do nariz até o estômago. Se não bastasse a figura tenebrosa que já se formou, há ainda quem diga que seu grito é estrondoso, seus pés são virados para trás (assim como o Curupira) e que suas mãos possuem longas garras, capazes de causar grandes danos. É claro que estamos falando da criatura mais famosa do folclore amazônico: o Mapinguari.
Além da aparência assustadora, o Mapinguari é considerado por muitos como o maior inimigo do homem. Seu apetite é insaciável e, de acordo com o livro Abecedário dos personagens do Folclore Brasileiro e suas histórias maravilhosas, da FTD Educação, o Mapinguari:
“… mata para comer, pois sua fome nunca acaba… Quando pega algum caçador, coloca-o embaixo do braço e mete a cabeça do homem dentro de sua barriga para ir mastigando-a aos poucos (aliás, o Mapinguari só devora a cabeça das pessoas, nunca seu corpo inteiro). Ninguém consegue sobreviver a um encontro com esse animal e, se isso ocorrer, a pessoa ficará aleijada ou com marcas terríveis no corpo.”
Imagem do Mapinguari no livro “Abecedário dos personagens do Folclore Brasileiro e suas histórias maravilhosas” | Ilustração: Cezar Berje

A origem dessa lenda se perde na tradição oral dos povos indígenas amazônicos. Uma das versões afirma que o Mapinguari teria surgido da metamorfose de um caçador ou lenhador que desrespeitou as leis da floresta, destruindo o meio ambiente — e, como punição, foi transformado em uma criatura monstruosa. Outra narrativa conta que ele teria sido um pajé que descobriu o segredo da imortalidade e, como castigo, foi condenado a viver eternamente como um ser horrível e fétido.
Independente da origem dada ao Mapinguari, fato é que ele inspirou inúmeros contos e lendas transmitidas de geração em geração. A criatura é muitas vezes associada a uma figura protetora da floresta, punindo aqueles que causam danos ao ecossistema e garantindo o equilíbrio natural. A lenda do Mapinguari também é vista como um alerta sobre os perigos e as consequências da exploração desenfreada dos recursos naturais, destacando a importância da preservação ambiental.

O Mapinguari também se faz presente em diversas obras artísticas que exploram a riqueza do folclore brasileiro. Na literatura, autores renomados como Milton Hatoum e Márcio Souza abordam a lenda do Mapinguari em suas obras, trazendo-a para o contexto contemporâneo e enriquecendo ainda mais o imaginário popular.
A criatura também dá título à HQ lançada pela WWF-Brasil em parceria com a FTD Educação, dos autores Gabriel Góes e André Miranda. No romance gráfico, apesar de carregar o título, o Mapinguari “aparece” para permear a discussão sobre as origens, o folclore e os perigos que a cultura extrativista causa para a floresta. No audiovisual, há expectativa de que o Mapinguari seja uma das criaturas a aparecerem na cultuada série brasileira “Cidades Invisíveis”, da Netflix.
Mais do que um monstro do folclore, o Mapinguari é um guardião lendário e um símbolo da resistência da floresta amazônica. Sua história, transmitida de geração em geração, seguirá despertando curiosidade, inspirando obras e, sobretudo, lembrando-nos de que a preservação ambiental é um dever de todos.
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