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Parentalidade e pai presente: quais são os impactos da participação paterna na primeira infância? 

Por Bianca Freire

Estimativa de leitura: 8min 53seg

6 de agosto de 2026

Entenda o que é parentalidade e como a presença do pai impacta o desenvolvimento infantil. 

A biologia nos ensina a importância igualitária de dois indivíduos para a geração de uma nova vida: precisa-se de um útero, mas, sozinho, ele não será suficiente. Precisa-se, também, de um complemento masculino. Se o nascimento de uma criança já se inicia dependente dessas duas partes, por que (principalmente em relações heterossexuais) é tão comum a naturalização do abandono paterno? E qual é o papel e a importância dessa figura do pai na vida de um filho? 

Neste artigo, você vai entender o que é parentalidade, por que a participação paterna é tão determinante para o desenvolvimento infantil, como funciona a licença-paternidade no Brasil depois da recente ampliação aprovada pelo Congresso, e quais desafios ainda precisam ser superados para que a paternidade ativa deixe de ser exceção e torne-se regra. 

O que é parentalidade? 

Parentalidade é o conjunto de funções, cuidados e vínculos afetivos exercidos por quem cria uma criança, mas ela não se limita ao papel biológico de pai ou mãe. Para ilustrar de forma mais clara, vamos começar com aquele ditado: pai é quem cria

O criar envolve nutrição, proteção, estímulo cognitivo e, sobretudo, presença emocional constante. Quando falamos em parentalidade positiva, nos referimos a uma forma de cuidado baseada em afeto, escuta, limites claros e corresponsabilidade entre os adultos envolvidos na criação da criança. 

Por muito tempo, a parentalidade foi tratada como sinônimo de maternidade, como se o cuidado cotidiano fosse naturalmente uma tarefa feminina. Hoje, esse conceito vem sendo ampliado: paternidade e maternidade são reconhecidas como funções complementares e igualmente essenciais, e não como papéis hierarquizados. 

Mas vamos além: o que é o “ser pai”?  

Para responder a essa pergunta, convidamos o Wagner Ribeiro, head de design da FTD Educação e pai de primeira viagem, para compartilhar alguns insights sobre o seu processo paterno: 

“Ser pai já esteve nos meus planos no passado, mas com o tempo fui pensando em como o mundo anda hoje em dia, custo financeiro, mil coisas para colocar na balança, então fui deixando para trás… Tem outro fator importante: se tivesse condições, queria ser pai jovem e isso não aconteceu, e nesse caso, ainda bem! 
Ser pai exige mais do que condições físicas e financeiras, exige preparo psicológico, provavelmente não tinha esse pré-requisito quando mais jovem. 

Hoje posso dizer que ser pai é doar-se por completo para um serzinho que é dependente e que cresce a cada dia mais um pouquinho e ensina-me como o tempo de qualidade e presença é extremamente importante. […] 

Cada dia é uma surpresa nova, um movimento, uma expressão, um balbucio, um fio de cabelo maior, aquela roupinha que já não cabe mais, a brincadeira que ontem provocava muitas risadas e hoje já não tem mais graça nenhuma.  
 
[…] Ser pai não é sobre mim, e sim sobre estar inteiro para alguém. Não é um plano que se realiza, é um plano que se refaz todos os dias, no ritmo de quem cresce rápido demais para quem fica de fora, e devagar o suficiente para quem escolhe estar por perto.” 

Para aprofundar ainda mais essa reflexão, vale ouvir o episódio sobre Parentalidade, no Podcast Conteúdo Aberto, com Thiago Queiroz, outro pai fantástico e o criador do Paizinho, Vírgula. Esse é uma conversa aberta em que ele discute justamente quando nasce, na prática, um pai. 

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Os benefícios da presença paterna para o desenvolvimento infantil 

A ciência já reúne evidências consistentes sobre o impacto da participação paterna no desenvolvimento cognitivo, emocional e social das crianças. O envolvimento paterno também reduz o estresse infantil, dando à criança mais segurança para explorar o mundo ao redor. 

Entre os principais benefícios da presença paterna estão: 

  • Desenvolvimento cognitivo e de linguagem: leituras, brincadeiras e estímulo verbal por parte do pai estão associados a melhores resultados em leitura, matemática e linguagem. 
  • Regulação emocional: a criança aprende a lidar com frustrações e limites com mais segurança. 
  • Vínculo afetivo e confiança: o toque, a fala e o olhar constroem uma relação de confiança essencial para a exploração do mundo. 
  • Socialização e senso de limites: a figura paterna costuma ter papel relevante na introdução de regras e na percepção do outro. 
  • Equilíbrio emocional da mãe: ao dividir tarefas e responsabilidades, o pai contribui diretamente para o bem-estar materno, o que também beneficia a criança. 

A presença ativa do pai é parte fundamental da rede de cuidados. O vínculo paterno pode e deve ser construído muito antes do nascimento, inclusive na pré-gestação e no pós-gestação. 

O papel do pai na parentalidade positiva, mesmo durante a gestação 

papel do pai vai muito além de ser provedor financeiro. Nesta reportagem, o psicólogo Bruno Jardini Mäder fala sobre a função central de ser pai: garantir que a mãe, ou quem exerce essa função, sinta-se apoiada em todas as necessidades, não apenas materiais, mas também nos cuidados cotidianos com o bebê: trocar fraldas, dar banho, ajudar na introdução alimentar e garantir momentos de descanso. 

É importante destacar que essa função paterna não está restrita a uma pessoa do gênero masculino, nem exige vínculo biológico. O que realmente importa é que exista uma estrutura de apoio ativa e afetiva ao redor da criança. Isso também vale para famílias homoafetivas, monoparentais ou adotivas, cada vez mais reconhecidas pela legislação brasileira. 

Na prática, a relação pai e filho se fortalece em gestos simples e repetidos: 

  1. Participação nos cuidados diários (troca de fraldas, banho, alimentação, sono). 
  1. Interação por meio de brincadeiras, jogos e músicas. 
  1. Comunicação constante para conversar, cantar, contar histórias desde cedo. 
  1. Apoio emocional e paciência nos momentos difíceis. 
  1. Apoio ativo à mãe, permitindo que ela também ocupe outros papéis na vida e desenvolva-se nos campos profissional, pessoal e social. 
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­Como funciona a licença-paternidade no Brasil hoje 

Historicamente, a licença-paternidade no Brasil era uma das mais curtas do mundo: apenas 5 dias, conforme previsto pela Constituição Federal de 1988. Com o Programa Empresa Cidadã, empresas que aderem voluntariamente podem estender esse período para até 20 dias, mas a adesão não é obrigatória, o que limitava o alcance do benefício. 

Esse cenário mudou completamente em março de 2026, quando o Senado Federal aprovou o Projeto de Lei 5811/2025, que amplia gradualmente a licença-paternidade de 5 para até 20 dias. O projeto já foi aprovado também pela Câmara dos Deputados. Além das mudanças, foi instituído o salário-paternidade como benefício previdenciário e a garantia de estabilidade no emprego durante o período de afastamento. 

A ampliação será implementada de forma gradual até 2029: 

  • 10 dias a partir de 2027. 
  • 15 dias a partir de 2028. 
  • 20 dias a partir de 2029. 

Para bebês com deficiência, a licença será ampliada em mais 1/3 do tempo previsto. O direito vale tanto para pais biológicos quanto adotivos, e abrange diferentes configurações familiares, incluindo pais solo, casais em união estável, casados ou homoafetivos. 

Os desafios que ainda existem 

Apesar do avanço, especialistas apontam que o caminho para uma paternidade verdadeiramente ativa ainda enfrenta obstáculos. A CoPai – Coalizão Licença Paternidade, movimento da sociedade civil que lidera esse debate, defendia um mínimo de 30 dias, ou seja, dez dias a mais do que o texto finalmente aprovado. 

Outro desafio importante é a informalidade no mercado de trabalho brasileiro. O novo direito alcança trabalhadores com carteira assinada, autônomos contribuintes do INSS e microempreendedores individuais (MEI). Entretanto, diante do alto índice de trabalho informal no país, uma parcela significativa dos pais brasileiros pode continuar fora dessa proteção. 

Por outro lado, existe também um desafio cultural, pois papéis masculinos e femininos ainda são fortemente marcados no Brasil, especialmente no mercado de trabalho: as mulheres seguem associadas ao cuidado das crianças, enquanto os homens são vistos como voltados às atividades públicas, como trabalho e política.  

Mudar a lei é um passo necessário, mas a transformação cultural sobre o que significa ser pai é um processo mais lento, que passa por escolas, famílias e também pela forma como meninos crescem observando o comportamento dos adultos ao redor. 

Quer aprofundar o tema e levar essas reflexões para a prática, seja em casa, seja na escola? A Unicef preparou a cartilha O Cuidado Integral e a Parentalidade Positiva na Primeira Infância, com orientações baseadas em evidências sobre como apoiar o desenvolvimento pleno de bebês e crianças pequenas. 

 

Podemos concluir que a paternidade ativa não se constrói em grandes gestos, mas na soma de pequenas presenças no dia a dia. No colo, na brincadeira, na paciência e na parceria com a mãe ou com quem mais cuida da criança.  

A ampliação da licença-paternidade marca um avanço importante na história das famílias, mas o verdadeiro impacto dos cuidados na primeira infância ainda depende de uma mudança mais profunda: reconhecer que cuidar de uma criança é responsabilidade compartilhada. O famoso provérbio africano diz que “É preciso de uma aldeia inteira para criar uma criança”, mas podemos acreditar que, no mínimo, é preciso da responsabilidade igualitária de ambos os pais. 

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