Depressão infantil: o que é e como lidar
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Quando a infância perde a cor: o silêncio da depressão infantil 

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 10min 38seg

15 de julho de 2025

Uma reflexão sobre os sinais invisíveis da depressão infantil e o papel dos adultos na escuta e no acolhimento emocional. 

Durante muito tempo, acreditou-se que a infância era uma fase protegida das angústias mais profundas da vida adulta.  

No entanto, o crescente número de diagnósticos de depressão infantil mostra que essa suposição está equivocada. Crianças, sim, podem adoecer emocionalmente — e isso exige de nós uma escuta atenta, um olhar sensível e ações efetivas.  

A depressão infantil não é “manha”, “frescura” ou “falta do que fazer”. É uma condição clínica real, séria e muitas vezes silenciosa, uma vez que as crianças não conseguem nomear os sentimentos. 

Ao contrário dos adultos, crianças nem sempre conseguem expressar com clareza o que sentem. Muitas vezes, os sinais da depressão infantil se camuflam em comportamentos como agressividade, apatia, dificuldade de concentração ou problemas com o sono e a alimentação. Vamos entender um pouco mais a seguir! 

O que é depressão infantil? 

Segundo o DSM-5, a depressão infantil é classificada como transtorno depressivo maior, sem uma categoria específica para crianças, mas com manifestações adaptadas à infância.  

Para o diagnóstico, a criança deve apresentar pelo menos cinco sintomas durante um período mínimo de duas semanas, sendo um deles obrigatoriamente humor deprimido (que, em crianças, pode aparecer como irritabilidade) ou perda de interesse por atividades antes prazerosas.  

Outros sintomas incluem alterações de sono e apetite, fadiga, agitação, dificuldade de concentração, sentimento de culpa ou inutilidade, e pensamentos sobre morte. Em crianças, os sinais podem ser mais comportamentais ou físicos, como dores sem causa clínica, isolamento e queda no desempenho escolar.  

Cabe destacar que, o diagnóstico deve considerar o estágio do desenvolvimento e ser feito por um profissional especializado. 

Nesta entrevista, a psicóloga Tatiane Zan aponta sinais sutis, mas importantes, da depressão infantil e discute como família, escola e sociedade podem agir para acolher e cuidar das crianças que sofrem em silêncio.  

1. Quais são os sinais menos óbvios da depressão infantil que pais e educadores tendem a ignorar?  

    “Como as crianças ainda têm dificuldades para reconhecer e expressar seus sentimentos, muitas vezes sofrem em silêncio, sem conseguir comunicar aos cuidadores o que sentem. Por isso, é essencial estar atento a mudanças de comportamento — que podem surgir de forma abrupta ou se manifestar lentamente, de maneira sutil e quase imperceptível”, afirma Tatiane Zan. 

    Segundo a psicóloga, os sinais menos óbvios da depressão infantil podem incluir: 

    • Dores no corpo sem causa aparente; 
    • Manchas na pele de origem desconhecida; 
    • Febres recorrentes sem explicação médica; 
    • Dores de cabeça frequentes; 
    • Coceiras sem motivo claro; 
    • Alterações no apetite e no paladar; 
    • Apatia e desinteresse pelas atividades favoritas; 
    • Preferência por ficar em silêncio ou isolado; 
    • Pavor noturno; 
    • Dificuldade para dormir ou acordar; 
    • Mudanças repentinas ou sutis de humor; 
    • Irritabilidade aumentada; 
    • Crises de choro frequentes. 

    Tatiane Zan destaca que outro sinal de alerta pode ser a compulsão por compras. Segundo ela, algumas crianças tentam aliviar o sofrimento emocional por meio do consumo, demonstrando um desejo constante de adquirir coisas que, pouco depois, perdem o encanto. Esse comportamento merece atenção, especialmente quando surge de forma repentina em crianças que antes não apresentavam traços consumistas. 

    2. De que forma o contexto familiar contribui para o surgimento ou o agravamento da depressão em crianças, mesmo em lares aparentemente estáveis?  

    Conforme a psicóloga, “o contexto familiar tem grande influência tanto no surgimento quanto no agravamento da depressão infantil. Quando os vínculos familiares são fortalecidos e a criança recebe cuidados básicos como segurança, amor, afeto, espaço para criatividade, pertencimento, lazer e autonomia, ela tende a enfrentar com mais equilíbrio os desafios da vida. Um ambiente familiar saudável funciona como um fator de proteção contra os impactos emocionais negativos.”  

    Ela reforça ainda que, “quanto menor a criança, mais intensamente ela está inserida no contexto familiar, sendo profundamente influenciada por esse ambiente — ainda mais do que pelo mundo externo. Quando a família não oferece os recursos básicos para uma formação emocional saudável, a criança se torna mais vulnerável às influências externas e aos ambientes que frequenta. Por isso, é responsabilidade da família proporcionar um ambiente seguro, acolhedor e estruturado, no qual a criança tenha acesso ao afeto, à escuta, à autonomia e ao pertencimento necessários para desenvolver um self equilibrado e resiliente. 

    Além disso, é fundamental que o relacionamento entre os pais seja pautado pelo respeito, pela clareza na comunicação e pelo cuidado mútuo — mesmo em casos de separação conjugal. Afinal, marido e mulher podem se separar, mas pai e mãe continuam sendo figuras indispensáveis na vida dos filhos, devendo manter um vínculo cooperativo, respeitoso e empático em prol do bem-estar da criança.” 

    3. Existe uma faixa etária em que os sintomas de depressão infantil tendem a ser mais comuns ou mais fáceis de serem diagnosticados? 

    “Na minha prática clínica, já atendi bebês com sinais de ansiedade, que é um transtorno mais facilmente perceptível nessa fase devido à agitação e à inquietação. A depressão, por outro lado, tende a ser mais silenciosa, o que torna seu diagnóstico mais difícil nos primeiros anos de vida. A partir dos 7 anos, quando a criança desenvolve maior consciência de si e do mundo ao seu redor, passa a compreender melhor seus sentimentos e frustrações, tornando-se mais suscetível a manifestar quadros depressivos. Na adolescência, esse risco aumenta significativamente devido às intensas transformações físicas, emocionais e sociais, além das frequentes quebras de expectativa — é nessa fase, geralmente entre os 10 e 11 anos, que observamos um número maior de diagnósticos. Vale destacar ainda que, em famílias com histórico de depressão, especialmente quando um dos pais é afetado, a probabilidade de a criança desenvolver o transtorno ao longo da vida é maior, especialmente em períodos de transição entre ciclos do desenvolvimento”, explica Tatiane Zan. 

    4. Como a pandemia e o aumento do uso de telas afetaram emocionalmente as crianças nos últimos anos?  

    “Somos constituídos por meio dos relacionamentos sociais e, na pandemia, devido à necessidade de distanciamento, muitas crianças tiveram uma quebra importante de contatos sociais que influenciariam tanto a formação do self quanto o aprendizado de lidarem com as diferenças advindas da multiplicidade de contatos, que são adquiridos por meio das brincadeiras em espaços sociais como escolas, parques, shoppings, cinemas — e, nestes espaços, seus próprios comportamentos são modulados. Em todas as fases do desenvolvimento, os relacionamentos são importantes para a nossa formação como pessoa; saber lidar com o outro é fundamental para nosso amadurecimento”, destaca a psicóloga. 

    Conforme ela, na privação que ocorreu na pandemia, todos foram prejudicados nesse contato social, mas principalmente as crianças, que ainda não tinham inscrições internas desse ser social, que se adquire exatamente nas trocas do cotidiano. “Consequentemente, como forma de manter esse status social e atender à nossa necessidade sine qua non de contato com o outro, cresceu o advento das telas — nas quais os relacionamentos se dão, nessa faixa etária, muito mais por avatares do que por seres humanos reais, manifestando sua forma mais pura de ser, de existir. Nas telas, podemos ser personagens, o que dificulta — e muito — a relação pessoa/pessoa, a qual é fundamental para o nosso existir de forma estrutural adequada”, explica. 

    5. Qual o papel da escola na prevenção e no acompanhamento da depressão infantil? Como os educadores podem agir sem invadir o espaço clínico, mas sendo apoio real para as crianças? 

    Tatiane Zan explica que, “muitas vezes o papel dos pais e da escola se confundem, deixando muitas vezes o cuidado com as crianças aquém do necessário. Acredito que isso é algo que precisa ser pauta de discussão na sociedade, para o bem das nossas crianças e dos nossos adolescentes principalmente, mas que refletirá de forma benéfica em toda sociedade. Cabe aos pais educarem as crianças, imprimir nelas valores e virtudes sociais, ensinarem a lidar com o outro que lhes são diferentes em muitos sentidos e significados. À escola cabe o dever de ensinar conteúdo e ser um laboratório para o desenvolvimento relacional, reforçando os valores e os princípios gerais para a convivência social saudável, das crianças com os pares e com a hierarquia que é formada por todos os adultos que compõe o ambiente escola.

    Muitas vezes os professores vão ter um nicho maior de comparação do que os próprios pais, onde perceberão de forma mais fácil e rápido, comportamentos que destoam do esperado para as crianças as quais eles assistem diariamente no ambiente escolar, podendo ser eles os primeiros a observarem que algo não vai bem e fazer com que esta informação chegue aos pais para que eles procurem ajuda terapêutica. Além de serem muitas vezes estes primeiros observadores de que algo não está bem, podem atuar como uma escuta ativa e no acolhimento do sentir daquela criança, ajudando no entendimento e na nomeação do que se passa com ela. Em casos de problemas familiares graves, onde não há espaço seguro para a criança manifestar seus sentimentos perante a família, os professores serão seus baluartes”.  

    Ainda conforme a psicóloga, uma das formas de a escola contribuir para a prevenção da depressão infantil é abordar o tema de maneira intencional, por meio de palestras educativas e oficinas conduzidas por psicólogos. Nessas ações, os profissionais podem explicar o que é a depressão, como identificá-la e quais caminhos existem para o tratamento.  

    Além disso, a escola pode disponibilizar em seu ambiente físico um espaço acolhedor, com um profissional capacitado para oferecer escuta ativa, orientação e aconselhamento às crianças. Essa estrutura contribui para aliviar o sofrimento emocional, promove a saúde mental e favorece o bem-estar integral dos estudantes — que ainda estão em formação e dependem do cuidado atento dos adultos ao seu redor. 

    Conclusão 

    A depressão infantil é um chamado silencioso que exige de nós, adultos, escuta, presença e responsabilidade. Não se trata apenas de reconhecer sinais clínicos, mas de olhar para as crianças com atenção verdadeira — para além do desempenho escolar ou do comportamento social esperado. É entender que o sofrimento psíquico pode se esconder nos detalhes, nas mudanças sutis de humor, nas dores sem explicação, no brincar que perde a graça. 

     Como vimos ao longo desta reflexão, a depressão infantil não surge do nada. Ela é moldada por contextos familiares frágeis, vínculos rompidos, ausência de escuta, pressões precoces e, muitas vezes, por uma sociedade que ainda insiste em minimizar as emoções da infância. Ignorar esse sofrimento é perpetuar o silêncio que adoece — e que pode comprometer o desenvolvimento emocional, afetivo e até espiritual dessas crianças. 

    O enfrentamento da depressão infantil é uma tarefa coletiva. Pais, educadores, profissionais da saúde e a sociedade como um todo precisam atuar juntos, oferecendo ambientes seguros, acolhedores e afetivos onde a criança possa ser, sentir e se expressar sem medo. É preciso romper com a ideia de que a infância é sinônimo automático de alegria, e assumir, com maturidade e compaixão, que há crianças sofrendo — e que elas precisam de ajuda. 

    Falar sobre depressão infantil é também uma forma de proteger o futuro. Crianças emocionalmente saudáveis tornam-se adultos mais conscientes, relacionais e resilientes. E todo investimento feito na escuta, no cuidado e no acolhimento hoje, reflete diretamente na construção de uma sociedade mais humana amanhã. 

    Que este texto não seja apenas uma leitura informativa, mas um convite à ação — e à escuta sensível de cada criança que cruza o nosso caminho. Porque nenhuma dor infantil merece ser ignorada. E nenhuma infância deve ser vivida em silêncio. 

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