Compreender os sinais de alerta é o primeiro passo para acolher, cuidar e proteger a saúde emocional dos jovens.
A depressão em adolescente é um tema sensível, urgente e que ainda gera muitas dúvidas entre pais e educadores.
Para ajudar a compreender melhor esse cenário, seus sinais de alerta e as formas adequadas de acolhimento, realizamos uma entrevista com a psicóloga Tatiane Zan, que compartilha orientações fundamentais a partir de sua experiência clínica.
Ao longo da conversa, a especialista explica como a depressão se manifesta na adolescência, quais comportamentos não devem ser ignorados e quando buscar ajuda profissional.
Falar sobre depressão em adolescente com informação, empatia e responsabilidade é essencial para fortalecer vínculos, prevenir agravamentos e cuidar da saúde emocional dos jovens.

1. O que é a depressão em adolescentes e como ela se manifesta?
A depressão é um transtorno de saúde mental que apresenta as mesmas características em qualquer faixa etária. Ela traz prejuízos na vida social e pessoal, afetando principalmente aspectos do pensamento, do comportamento e do humor. Em adolescentes, uma das principais mudanças que percebemos é o desinteresse por coisas comuns da idade, principalmente no âmbito social e de lazer.
2. Quais são os principais sinais que diferenciam a “tristeza passageira” de um quadro depressivo em adolescentes?
A tristeza passageira se manifesta frente a uma situação real vivenciada. Na adolescência pode ser por uma frustração de relacionamento amoroso ou mesmo de amizade, principalmente por conta da relação que eles têm com o tempo e sua finitude, sendo muito mais intensos nas vivências do que os adultos. Uma nota baixa também pode causar uma tristeza passageira, uma negativa dos pais diante de um desejo que eles gostariam muito de realizar, enfim, situações assim podem causar uma tristeza nos adolescentes, que, no decorrer de semanas, tende a desaparecer. Porém, quando os pais identificam uma tristeza sem um motivo causal e que não passa em poucos dias, principalmente a tristeza vinda acompanhada de perda de interesses que aquele adolescente demonstrava ter, é preciso imediatamente ligar o sinal de alerta e procurar por ajuda profissional.
3. Existem mudanças específicas de comportamento (como isolamento, queda no desempenho escolar, distúrbios alimentares) que devem chamar atenção?
Todos estes comportamentos citados são sinais de alerta para os pais/cuidadores, assim como alterações no sono, no apetite e no humor. Também são sinais identificáveis o adolescente estar muito irritado ou muito sensível, com choro fácil, e apresentar labilidade afetiva, que são as oscilações sem causa aparente.
4. Quais sinais emocionais, físicos e sociais os pais e educadores precisam observar?
Acredito que um dos principais sinais de alerta seja a mudança no padrão de comportamento do adolescente. Se antes ele era sociável, brigava com os pais para sair ou para estar com os amigos — ainda que em jogos on-line — e, de repente, passa a perder o interesse por atividades que antes lhe davam prazer, essa mudança não deve ser encarada pelos pais como algo normal. Também são sinais se o adolescente começa a dormir muito ou pouco, comer muito ou pouco, alterações de emagrecimento ou de engorda demais. A queda de rendimento escolar, a falta de atenção, o fato de dormir ou brigar em sala de aula podem ser sinais de alerta. O adolescente passa a se distanciar das pessoas, emudece, fica muito tempo sozinho — muitas vezes isolado em ambientes escuros — e perde o interesse em sair de casa, inclusive para atividades de que antes gostava.
Também é importante observar a ocorrência de automutilações. Pais e educadores devem ficar atentos às roupas usadas, como mangas e calças compridas, especialmente em épocas de calor, pois esse comportamento pode indicar a necessidade de atenção e cuidado.
5. Quando procurar ajuda profissional? Qual é o momento certo para buscar um psicólogo ou psiquiatra?
Eu costumo dizer que prevenir é melhor que remediar, ao primeiro sinal de mudança significativa, percebeu que algo mudou, não espere agravar para procurar um profissional da saúde mental. Agendar uma consulta com um psicólogo é um passo fundamental para avaliar o quadro. Quando os sintomas ainda estão em fase inicial, mais leves e com menores prejuízos, muitas vezes é possível conter o adoecimento por meio de ajustes no ambiente, na rotina e no cuidado emocional, evitando ou postergando o uso de medicação.
É importante destacar que não há nenhum problema em utilizar medicação quando ela é necessária e indicada por um profissional de saúde. No entanto, sempre que for possível promover melhora sem esse recurso, por que não priorizar intervenções que fortaleçam o cuidado integral e preventivo?
6. O que os pais devem esperar da primeira consulta?
Na primeira consulta com o profissional da saúde mental, será feita uma anamnese completa, que deve ser checada desde o nascimento do adolescente. Esta anamnese é de suma importância para entender o quadro, fazer o diagnóstico e traçar o tratamento de forma correta. Devem ser avaliados os aspectos comportamentais, sociais e situacionais da vida do adolescente.
7. A escola pode ter um papel no reconhecimento precoce da depressão? Como?
Eu sempre penso que se a escola foi a primeira a ver as mudanças no comportamento do filho, algo de muito sério se mostra no comportamento dos pais. Infelizmente, com a rotina pesada dos adultos, muitos pais não conseguem tirar um tempo de qualidade para estar com os filhos de forma genuína, e quando estão com os filhos apenas cumprem as responsabilidades triviais, botam comida na mesa e checam raramente uma coisa ou outra da vida dos filhos. Todos entretidos em seus aparelhos celulares, pouco olho no olho, e não percebem mudanças importantes no olhar dos filhos e no próprio comportamento deles. Em algumas situações, a escola é escola é o lugar onde o adolescente mais passa seu tempo, por isso, diante de mudanças comportamentais e cognitivas, a escola pode perceber de forma precoce que algo não está bem na vida daquele adolescente e acionar os pais. O adolescente pode se tornar agressivo, desinteressado nas propostas sociais do ambiente escolar, ter perdas de notas, dificuldade de aprendizagem e atenção, pode apresentar apatia e muita sonolência durante as aulas, isolamento nos momentos de socialização e até mesmo choro fácil em situações de frustração.
8. Como abordar um adolescente sobre a possibilidade de estar com depressão sem que ele se sinta julgado ou pressionado?
A conversa franca e amorosa é sempre o melhor caminho, e a forma do adolescente não se sentir julgado ou pressionado, é não julgar. Infelizmente, muitos pais usam frases, como: “Você tem tudo na vida, está reclamando do quê?”; “Deixa de frescura, você não tem motivos para ficar assim!”; “Na sua idade, eu blá, blá, blá…”, no entanto, não disso deve ser dito aos adolescentes em nenhuma hipótese. Os pais precisam saber reconhecer que existem situações na vida dos adolescentes que eles precisam de ajuda, acolhimento e orientação de um adulto, pois eles não são “miniadultos” nem têm o conhecimento e a maturidade de vida que muitos pais esperam que eles tenham. O próprio córtex frontal, responsável pela formação de pensamentos complexos, análises profundas para tomada de decisão mais assertiva e com maior análise de riscos, fica pronta no cérebro apenas lá pelos 25 anos, então de fato o adolescente, na maioria das vezes, age muito mais pelo que sente do que pelo analisa. E o que eles sentem deve ser levado a sério, os pais devem ter a intenção de ajudá-los a nomear o que sentem e o que fazer com o que estão sentindo. Portanto, os pais devem dizer aos adolescentes que estão percebendo mudanças em seu comportamento e que devem ir a um profissional para que possam ser ajudados a avaliar o que está acontecendo e obter ajuda para entender e resolver a situação. Os pais devem se envolver como parte também do problema e, portanto, da solução!
9. O que os pais devem evitar dizer ou fazer nessas situações?
Os pais devem evitar a todo custo criticar, julgar, zombar, não validar o que os adolescentes estão sentido, compará-los a outros adolescentes, e por fim, não levarem seus filhos e o que eles estão demonstrando sentir e fazer a sério, achando que é algo da idade, frescura ou algo passageiro e sem importância.
10. Quais estratégias ajudam a criar um ambiente seguro para o adolescente falar sobre seus sentimentos?
O exemplo. Pais que falam sobre sentimentos, que validam o campo emocional, que cuidam da saúde mental, desenvolvendo hábitos saudáveis, além de um ambiente saudável, promovem mais saúde mental também aos adolescentes. Lugares onde a comunicação é validada e os membros da família são acolhidos sem críticas nem julgamentos dão ao adolescente segurança para falar e pedir ajuda sempre que necessitar. Então os pais devem falar de si e do que sentem, contar experiências boas e ruins que tiveram na idade dos seus filhos, contar como sentiram e o que fizeram, perguntar aos filhos como estão e saber ouvir as respostas de forma respeitosa e genuína, promovendo uma escuta ativa, acolhedora e amorosa. Orientando de forma afetuosa sempre que se fizer necessário diante da demanda que o adolescente está apresentando. Isso faz com que o adolescente se sinta visto, pertencente e importante para aquele sistema familiar.
11. Quais são as opções de tratamento mais comuns? Quando a medicação é necessária?
Processo terapêutico e uso de medicação quando o quadro clínico já está mais agravado.
12. Qual é a importância da rede de apoio (família, amigos, escola) durante o tratamento?
Total! O apoio da família, dos amigos, parentes, vizinhos e da escola faz toda diferença durante o tratamento. Muitas vezes, a saúde mental não recebe a importância que deveria receber, pois não conseguimos visualizar as marcas na pele, por exemplo, como é possível perceber na maioria das doenças. Mas há feridas na alma, e estas doem de verdade, portanto, todo apoio para o enfrentamento da dor que a depressão causa é importante e faz toda diferença no resultado do tratamento. O acolhimento salva vidas!
13. Há atividades ou práticas que auxiliam no processo de recuperação (ex.: esportes, terapia em grupo, religião, arte)?
Todas estas partes são importantes, mas, dependendo do quadro em que o paciente estiver, ele não terá força para praticar esportes, atividades em grupo, ou mesmo arte. No entanto, à medida que o adolescente for recuperando minimamente suas forças, autonomia e brilho para a vida, os pais devem insistir para que ele participe de atividades em grupo, esportes, artes e até mesmo aulas de instrumento. Existem pesquisas que mostram que o desenvolvimento espiritual auxilia muito no enfrentamento da depressão, pessoas que buscam conexão com o que transcende a matéria são menos propensas inclusive a desenvolver depressão, portanto o desenvolvimento espiritual, que muitas vezes é negligenciado, principalmente no período da adolescência, pode auxiliar e muito no tratamento da depressão.
14. Que mensagem você deixaria para os pais que sentem que “perderam a conexão” com seus filhos adolescentes?
Que ainda há tempo para se conectarem! Os pais também estão aprendendo a ser pais, e esse aprendizado se desenvolve na relação. Se conectar com o filho é se permitir ser também vulnerável. Portanto, se abrir e contar o que sente e o que pensa aos filhos traz conexão, pedir ajuda a eles para que construam um bom caminho juntos, de descoberta, de soluções e de troca de afetos é muito rico. Enquanto há vida há tempo para viver!
15. Que sinais nunca devem ser ignorados?
Todos os que são considerados atípicos à fase do desenvolvimento da adolescência.
16. Como os pais podem cuidar da própria saúde emocional enquanto apoiam seus filhos?
Fazendo terapia, com certeza. Pais terapeutizados são melhores pais para seus filhos, pois, ao tratarem seus próprios traumas, evitam de repassar suas dores para seus descendentes. Moldam comportamentos mais saudáveis, bem como desenvolvem relacionamentos mais saudáveis com seus filhos, dando a eles nutrientes suficientes para lidarem com as adversidades da vida. No caso de adoecimento dos filhos, é importante que os pais também estejam se cuidando, uma vez que eles precisam permanecer saudáveis para ajudar seus filhos a sair do processo de adoecimento. Buscar grupos terapêuticos para dar e receber ajuda de pais que passam pelo mesmo problema que eles costumam trazer muito alívio para a alma e a sensação de não estarem sozinhos no enfrentamento das dificuldades que aparecem com a depressão e todo o sofrimento que ela traz.








