Entrevistando

Entrevista com a Escritora africana Ruby Goka, publicada no Brasil 

Por Juliana Piccoli

Estimativa de leitura: 4min 59seg

10 de agosto de 2023

A FTD Educação acaba de lançar a obra Mesmo quando sua voz falhar, primeira publicação da escritora africana Ruby Goka no Brasil, com tradução da paulista Nina Rizzi.  

A obra se passa em Acra, capital de Gana, que foi escolhida pela Unesco como a Capital Mundial do Livro em 2023.  A história é sobre a vida de Amerley, uma garota de 16 anos que vive com a mãe e as três irmãs mais novas em situação de extrema pobreza e vulnerabilidade social. Ela precisa deixar os estudos e passa a ser a responsável por toda a família, tendo que assim, viver e trabalhar na casa de uma família rica em outra cidade. 

A partir daí, uma narrativa sobre abusos e medo se desenvolve e é sobre essa trama que a autora fala nessa entrevista. Confira na íntegra: 

1. Qual foi a sua inspiração para escrever o livro, contando a história desafiadora da jovem Amerley? 
 
A ideia da história nasceu de uma reportagem que ouvi no rádio há alguns anos. Na reportagem, uma mãe denunciou à polícia um homem mais velho que havia abusado sexualmente da sua filha. O pai da menina, que não estava por perto no momento do incidente, retirou o caso da polícia e pediu que o assunto fosse “resolvido em casa”. A injustiça do caso ficou comigo por muito tempo. Minha forma de buscar justiça para a criança foi escrevendo esse livro. 

2. A personagem de 16 anos se vê numa situação de vulnerabilidade e aceita trabalhar na casa de uma família, mesmo sofrendo com a nova condição. Esta é uma situação comum entre jovens mulheres em Gana e em outras partes da África? 
 
Só posso falar por Gana, mas é bastante comum que familiares distantes (tanto homens quanto mulheres) fiquem com um parente mais rico para diminuir os gastos dos pais da criança. Em alguns casos as crianças são colocadas na escola apenas para estudar ou como aprendizes para desenvolverem alguma habilidade. Outra opção é que essas crianças ajudem nas tarefas domésticas e suas famílias sejam remuneradas pelo serviço prestado. 

3. Durante a trama, a jovem se depara com a citação: “Fale a verdade, mesmo quando sua voz falhar”, de onde vem o título do livro. Esta frase também tem significado para a sua própria história de vida? 
 
Eu acho que é uma máxima importante para viver, não apenas para mim, mas para todos. Espero que o título dê às pessoas a coragem de falar a verdade mesmo quando estão com medo. 

4. Como a voz da protagonista se torna importante para trazer à tona problemas sociais, como a violência sexual, física e psicológica contra a mulher, e fazer um alerta sobre eles? 
 
Quando Amerley e sua mãe relatam o crime, essa ação dá coragem a muitos outros jovens que sofreram crimes semelhantes para denunciar seus agressores. Nos últimos tempos, isso pode ser comparado ao movimento #MeToo, no qual outras pessoas foram encorajadas a falar sobre os abusos sofridos por elas depois que outras pessoas denunciaram seus abusadores. 

5. A verdade fez Amerley mudar seu destino. Você acredita que a história pode inspirar outras garotas a ter coragem diante de violências sofridas e contarem suas verdades? 
 
Eu sinceramente espero que sim. Minha esperança com esse livro é criar consciência sobre o abuso sexual e iniciar uma conversa sobre abuso entre os adolescentes. Espero que a história de Amerley ajude as vítimas de abuso sexual a denunciarem os agressores. 

6. Você escolheu Acra, capital de Gana e sua cidade natal, como espaço da narrativa. Como foi essa definição? 
 
Escolhi Acra como cenário para a história devido à preponderância da migração rural-urbana na cidade. Em decorrência aos altos índices de desemprego juvenil no país, muitos jovens das áreas rurais se deslocam para as cidades em busca de trabalho. A história de Amerley poderia facilmente ser qualquer um desses jovens. (Observação: Acra não é minha cidade natal) 

7. Acra foi eleita pela Unesco a Capital Mundial do Livro em 2023, devido a seu foco na juventude e potencial para contribuir com a cultura e a riqueza de Gana. Como você enxerga essa escolha? Como isso tem repercutido na vida cultural e literária da cidade, do país e de outros países africanos? 
 
É uma grande honra para Acra ser eleita a Capital Mundial do Livro. Foram criadas muitas atividades com foco nos jovens. Algumas também foram direcionadas aos migrantes das áreas rurais, o que tem sido muito inclusivo. Uma importante contribuição é a cobertura e o envolvimento da mídia nas atividades e leituras promovidas pelo governo, o que despertou o interesse coletivo pela leitura. 

8. Qual é a sensação de ter seu primeiro livro publicado no Brasil, com o trabalho de outras mulheres negras (a tradutora Nina Rizzi e a designer e capista Leticia Quintilhano)? 
 
Tem sido incrível e sou grata pela oportunidade. Trabalhar com Nina Rizzi na tradução do livro abriu meus olhos para as muitas nuances da linguagem, especialmente os dialetos locais. Leticia Quintilhano fez um trabalho brilhante na capa do livro. 

9. O que você achou da capa brasileira? 
 
Eu simplesmente amei a capa do livro! Ela retrata perfeitamente o tema do livro. 
 

10. Que mensagem você gostaria de deixar aos leitores sobre a literatura, a arte e a cultura de Gana? 
 
Espero ter conseguido mostrar aos leitores brasileiros um trecho do estilo de vida, comidas típicas e cultura de Gana. Espero que as pessoas gostem tanto do livro que queiram visitar Gana. 

Até a próxima entrevista!  

Juliana Piccoli 
Publicitária com 20 anos de experiência em Comunicação. Redatora por amor. Apaixonada por livros, cultura e muitas viagens por esse mundão à fora.
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