Entrevistando

Entrevista com André Miranda, um dos autores do livro Mapinguari

Por FTD Educação

Estimativa de leitura: 6min 37seg

5 de dezembro de 2022

Entrevista com André Miranda, um dos autores do livro Mapinguari 

Antes de chegar às escolas públicas por meio do PNLD Literário, a obra Mapinguari percorreu um longo caminho de muito estudo e dedicação. André Miranda, um dos autores, conta quais foram os principais desafios enfrentados e a importância dessa obra para nossa cultura e folclore. Além disso, ele ressalta as parcerias com a FTD Educação e a WWF-Brasil. Esperamos que goste dessa conversa tão inspiradora. 

Quais os desafios e cuidados com o projeto editorial da obra? 

Apesar de conhecer a floresta amazônica, eu não conhecia o Acre, então, meu maior desafio foi ser fiel às pessoas que vivem lá, às suas histórias, representá-las de forma respeitosa e verossímil. Produzir uma obra na qual eles se reconheçam. Nesse sentido foi fundamental a ajuda que tive do WWF-Brasil e do editor do livro, o Guilherme Noronha, que morou muito tempo no Acre. Eles trouxeram questões de ambiência, contexto, vocabulário… Além disso, fizemos muita pesquisa visual e histórica da região, cultura, crenças e hábitos locais. Foi daí, que veio a figura do Mapinguari, que é uma lenda folclórica muito popular por lá e que eu nem conhecia. Devido à restrição orçamentária para desenvolver o livro, não foi possível fazer uma pesquisa in loco no Acre. E justamente por isso nos esforçamos em dobro para não falharmos em retratar a região. O WWF-Brasil apontou aspectos temáticos que gostariam que fossem abordados, como a destruição da floresta com a chegada da pecuária que ameaça o modo de vida dos seringueiros e a floresta em si. A partir daí desenvolvemos livremente o livro. 

Tivemos uma recepção maravilhosa dos alunos de escolas apoiadas pelo WWF-Brasil na região, que foram os primeiros a receber a primeira edição do livro. Muitos se reconheceram nos personagens e na história, e até mesmo na forma como falam. Ficamos extremamente contentes. Acho que foi o momento mais gratificante de todo esse processo, saber que acertamos nisso, que eles gostaram do livro. 

Em sua primeira edição, pelo WWF-Brasil, Mapinguari foi publicado em preto e branco. Como se estabeleceu a parceria inédita entre a entidade e a FTD Educação para o lançamento de Mapinguari colorizado? A coedição sofreu muitas alterações? 

A primeira edição saiu em preto e branco e uma tiragem limitada, com intenção de ser distribuída gratuitamente em escolas e bibliotecas que fazem parte dos projetos do WWF-Brasil no Acre. Gostei muito de como ficou o livro, do processo de criação com o Gabriel Góes e da relação que criamos com o WWF-Brasil. Mas, muita gente que viu ou ouviu falar do livro me perguntava onde conseguiria uma cópia. Era necessário uma tiragem maior. 

Daí surgiu esse contato com a FTD pelo Gabriel Góes. A editora estava interessada em publicar a obra. Falamos com a ONG, que também gostou da ideia, então a parceria se estabeleceu. Daí veio a proposta da FTD que o livro fosse maior e em cores. O próprio Gabriel Góes fez a colorização do livro, o que acrescentou dinamismo na leitura e uma atmosfera mais cinematográfica e emotiva. Não houve mudança significativa, nem alteração na narrativa, apenas algumas suavizações para alcançar o público da faixa etária e uma correção histórica. 

Mapinguari trata de um tema ambiental importante, que é a vida dos seringueiros na Amazônia. Por que apresentar este tema em uma HQ e como o formato aproxima o assunto do público jovem? 

Desde que Art Spiegelman publicou Maus, que trata do holocausto, e ganhou o prêmio Pulitzer, foi estabelecido por definitivo que é possível abordar temas complexos com quadrinhos. Acredito que é um meio que se comunica bem com todos. O quadrinho é uma linguagem fácil e universal tão efetiva quanto o cinema ou a literatura. 

É preciso facilitar aos jovens o acesso à história do nosso país. Conhecer o drama daqueles que passaram por tanto sofrimento no segundo ciclo da borracha. Conhecer histórias absurdas e pouco divulgadas como a dos “Soldados da Borracha”, levados para a floresta para ajudar no esforço de guerra e depois esquecidos pelas autoridades. Gente que sofreu anos a escravidão, foi abandonada, mas resolveu não abandonar a floresta. É legal que os jovens conheçam de onde se originou a luta da geração de Chico Mendes, de preservação da natureza. Até porque às vezes parece que esses mártires da preservação ambiental estão sendo cada vez mais forçados ao esquecimento por um revisionismo histórico surreal que algumas correntes políticas defendem hoje em dia. 

Agora a gente vê um movimento abertamente a favor da destruição da floresta, da destruição de políticas ambientais. Um governo que explicitamente defende acabar com aquilo ali para ganhar dinheiro rápido, fácil, vendendo a falsa ideia de que a destruição é progresso. É importante relembrar a história e lembrar aos jovens que o estilo de vida do seringueiro não é incompatível com a vida moderna. Ele é um estilo de vida próprio, uma forma de ganhar sua vida com dignidade, produzindo um produto de suma importância e sem destruir a natureza. 

Quais outros temas ambientais estão embutidos no livro e que precisam ser denunciados, defendidos ou destacados? 

Há vários temas ambientais tratados ali, mas tem também questões sociais importantes. E acredito que não dá para discutir ambientalismo sem discutir desigualdade social. É sempre o poder do dinheiro que força a pessoa a fazer uma coisa que intimamente ela não quer, como abandonar o lugar onde vive para uma vida muitas vezes miserável na cidade grande. E não digo miserável financeiramente apenas, mas também uma miséria psicológica. É a ganância que move o grileiro, mas ao mesmo tempo é a vontade de ter uma vida melhor que move o pequeno produtor a comprar uma terra em área desmatada para criar gado. Porque o grande produtor sabe que a produtividade do pasto de área desmatada é baixa. Então acaba que quem ganha dinheiro mesmo é o cara que compra a terra do seringueiro e desmata para vender. E esse comprar nem mesmo é legal, na maioria das vezes, uma vez que são terras cujo uso é concedido ao seringueiro. Eles não são propriamente donos da terra. O que os coloca numa situação juridicamente muito frágil. Daí um dia aparece alguém oferecendo dinheiro para ele por aquela terra e ele se vê compelido a aceitar, porque ele está aceitando a grana em troca de uma área que ele sequer sabe se um dia vai ter a posse definitiva. Apesar de viver ali há gerações. Então acaba que são coisas muito complexas, mas nos esforçamos para deixar tudo o mais claro possível, porque é importante que mais gente conheça essas histórias. 

Sobre os autores: 

André Miranda é diretor de cena, diretor de fotografia e roteirista em cinema e em publicidade. No cinema, escreveu, dirigiu e fotografou diversos curtas-metragens e videoclipes, tendo recebido vários prêmios por esses trabalhos. Atualmente, dedica-se a seu primeiro projeto de longa-metragem de ficção, chamado Mike. 

Gabriel Góes é ilustrador, quadrinista e artista plástico. Nascido em Brasília, em 1980, adaptou, em parceria com o quadrinista Arnaldo Branco, as obras O beijo no asfalto e Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues. Também é autor da graphic novel Flores e criador do personagem Billy Soco. 

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