A pergunta que esquecemos de fazer aos professores
Conteúdo formativo Educador

A pergunta que esquecemos de fazer aos professores

Por Diego Ribeiro dos Santos

Estimativa de leitura: 9min 17seg

14 de outubro de 2026

Quantas vidas podem caber dentro de uma sala de aula? A pergunta parece simples, mas talvez esconda uma das maiores complexidades da Educação.

Quando pensamos em uma sala de aula, costumamos enxergar carteiras, livros, cadernos, telas, atividades e avaliações. Raramente, porém, conseguimos perceber aquilo que realmente acontece naquele espaço: o encontro de pessoas que chegam carregando histórias diferentes, expectativas, medos, sonhos e possibilidades.

Por isso, às vésperas de mais um Dia dos Professores, talvez seja necessário fazer uma pergunta que ultrapasse relatórios, indicadores e resultados e que quase nunca fazemos com profundidade intencional: como está o professor? 

Não o professor retratado nas avaliações de desempenho, nos planejamentos ou nos números de uma escola, mas a pessoa que existe por trás da função. O homem ou a mulher que atravessa diariamente os portões da escola levando consigo conhecimentos, experiências, preocupações e sonhos que nem sempre são visíveis.

Aquele que prepara uma aula, acolhe um estudante, orienta uma família, administra conflitos e, muitas vezes, termina o expediente levando para casa inquietações que não cabem em nenhum planejamento pedagógico. Existe uma dimensão humana da docência que dificilmente aparece nos relatórios: o professor também se cansa, também duvida, também precisa ser escutado e também necessita de alguém que, de vez em quando, pergunte sinceramente: “Como você está?” 

Talvez a história da Educação seja, em essência, a história de uma geração tentando entregar à seguinte aquilo que aprendeu sobre a vida. Muito antes das escolas, universidades e sistemas educacionais, já havia alguém ensinando alguém: os mais velhos transmitindo experiências, conhecimentos e valores aos mais jovens.

Ao longo dos séculos, mudaram as sociedades, as tecnologias, as profissões e as formas de aprender, mas permaneceu uma responsabilidade fundamental: preparar aqueles que chegam para compreender o mundo que receberam e, ao mesmo tempo, encontrar caminhos para transformá-lo. Nesse sentido, ensinar nunca foi apenas transmitir informações. É participar da continuidade da cultura, da memória e da própria experiência humana. 

Talvez seja por isso que os professores permaneçam tanto tempo em nossa memória. Poucos conseguem recordar todas as fórmulas, datas e conceitos estudados ao longo da vida, mas quase todos conseguem lembrar de algum educador que deixou uma marca.

Pode ser a professora que percebeu uma dificuldade antes que alguém a percebesse, o professor que insistiu quando o estudante queria desistir ou aquele que pronunciou uma palavra de confiança justamente quando ninguém mais parecia acreditar. Rubem Alves compreendeu essa dimensão ao falar do ensino como uma forma de permanência.

O professor não permanece apenas pelo conteúdo que ensinou, mas pelas possibilidades que ajudou a despertar.

Há palavras que duram segundos para quem as pronuncia, mas podem permanecer décadas dentro de quem as escuta. 

Entretanto, existe uma contradição que precisamos enfrentar. Embora reconheçamos a importância social da docência, muitas vezes construímos uma imagem do professor como alguém que deve suportar tudo. Admiramos sua capacidade de improvisar, adaptar-se, acolher, trabalhar além do horário e continuar mesmo diante das dificuldades.

O problema começa quando a capacidade de resistência passa a ser confundida com obrigação de resistir sempre. Quando chamamos alguém de incansável, precisamos tomar cuidado para não transformar o seu cansaço em invisibilidade. Professores não deveriam precisar adoecer para que percebêssemos o quanto trabalham, nem ultrapassar continuamente seus próprios limites para provar compromisso com a Educação. 

O cotidiano docente revela uma dimensão dessa realidade que raramente aparece nos indicadores. Está na sala que permanece iluminada depois que os estudantes foram embora, na atividade corrigida à noite, no planejamento refeito durante o fim de semana porque a estratégia anterior não funcionou, na mensagem recebida fora do horário porque alguém precisava conversar. Está também na conversa reservada com um estudante que atravessa um sofrimento que não aparece em seu boletim. São situações discretas, muitas vezes invisíveis, mas que revelam uma verdade essencial: ensinar é lidar não apenas com aquilo que o estudante sabe, mas também com aquilo que ele ainda não consegue dizer. 

Edgar Morin nos ajuda a compreender que educar significa lidar com a complexidade humana. Nenhum estudante chega à escola dividido em disciplinas. Cada pessoa carrega uma história, uma família, experiências, ausências, expectativas, medos e desejos. O professor também.

Por isso, talvez seja impossível pensar uma Educação verdadeiramente humana sem reconhecer que ensinar é, antes de tudo, um encontro entre pessoas. Na Educação, isso significa compreender que o estudante não é apenas alguém que precisa aprender, assim como o professor não é apenas alguém que precisa ensinar.

Ninguém educa apenas com aquilo que sabe; educa também com aquilo que é

Essa realidade torna a profissão ainda mais exigente. O professor contemporâneo precisa ensinar em uma sociedade marcada pela velocidade, pela complexidade e pela transformação permanente. Precisa lidar com novas tecnologias, diferentes realidades familiares, conflitos, dificuldades de aprendizagem, demandas emocionais e mudanças constantes no próprio campo educacional.

Nunca se exigiu tão pouco tempo de preparação para tantas responsabilidades. Por isso, talvez seja necessário inverter uma pergunta recorrente: em vez de perguntar apenas o que o professor ainda precisa oferecer, deveríamos perguntar o que estamos oferecendo a quem dedica sua vida a educar? 

Paulo Freire compreendia a esperança como uma atitude comprometida com a possibilidade de transformação. Não uma espera passiva, mas uma disposição para continuar construindo apesar das dificuldades. A docência exige exatamente esse tipo de esperança.

O professor entra diariamente em uma sala sem saber exatamente o resultado de seu trabalho, porque formação humana não acontece de maneira imediata. Algumas sementes germinam rapidamente. Outras precisam de anos. Há estudantes que só compreenderão muito depois o significado de uma orientação recebida na escola. Por isso, educar exige acreditar em futuros que ainda não podem ser comprovados. 

Essa talvez seja uma das dimensões mais bonitas e mais difíceis da profissão: o professor trabalha com aquilo que ainda não existe. Trabalha com possibilidades. Uma criança que hoje apresenta dificuldades pode amanhã descobrir uma habilidade que ninguém percebia. Um adolescente inseguro pode encontrar coragem para seguir uma profissão. Um estudante desacreditado pode, em algum momento, compreender que sua história não precisa ser determinada pelas circunstâncias que encontrou. O professor nem sempre verá o resultado completo de seu trabalho. Muitas vezes, sequer saberá que participou dele. 

Hannah Arendt, ao refletir sobre Educação, chama nossa atenção para a responsabilidade que temos diante do mundo que entregamos às novas gerações. Talvez essa seja uma das tarefas mais profundas da escola: apresentar o mundo aos que chegam sem determinar completamente aquilo que farão com ele. Ensinar é transmitir uma herança, mas também preparar alguém para recriá-la. É dizer, de certa forma: “Este é o mundo que recebemos; agora aprenda a compreendê-lo para decidir o que fará com ele”. 

Por isso, o Dia dos Professores não deveria ser apenas uma data de homenagens. Poderia ser também uma oportunidade de reflexão sobre a forma como tratamos aqueles que sustentam cotidianamente a experiência educativa. Presentes são bem-vindos, palavras de carinho são necessárias e homenagens têm seu valor. Mas nenhuma delas substitui respeito, escuta, condições adequadas de trabalho e reconhecimento cotidiano.

Valorizar o professor não significa apenas agradecer pelo que ele faz. Significa cuidar das condições para que ele possa continuar fazendo bem aquilo que escolheu fazer. 

Talvez a homenagem mais sincera seja, portanto, uma forma de presença. Presença para escutar o professor antes que ele precise gritar. Presença para reconhecer seu trabalho antes que o cansaço se transforme em desistência. Presença para lembrar que aqueles que dedicam a vida a formar pessoas também são pessoas que precisam de cuidado, esperança e reconhecimento. Porque, por trás de cada planejamento, existe alguém tentando fazer o seu melhor. Por trás de cada aula, existe uma história. E por trás de cada estudante que aprende, existe um professor que, em algum momento, decidiu acreditar que aquela aprendizagem era possível. 

Talvez por isso, depois de tantos anos, ainda sintamos vontade de procurar um antigo professor. Não necessariamente para falar sobre o conteúdo que ele ensinou, mas para contar onde a vida nos levou. Talvez para dizer que aquela frase ficou. Que aquela conversa fez diferença. Que aquela confiança chegou a um lugar que ele jamais imaginou. Talvez para simplesmente dizer: “Todos os dias eu me lembro de você e sou grato!” 

E talvez essa seja uma das formas mais profundas de compreender o legado de quem ensina. O professor não permanece apenas naquilo que seus estudantes sabem, mas naquilo que eles se tornam. Sua influência pode atravessar profissões, famílias, escolhas e décadas sem que seu nome apareça em lugar algum. Há legados que não precisam de monumentos porque foram construídos dentro de pessoas. 

Por isso, neste Dia dos Professores, talvez devêssemos oferecer mais do que presentes. Ofereçamos presença. Que não faltem reconhecimento, respeito, escuta e cuidado àqueles que diariamente ajudam novas gerações a encontrar seu lugar no mundo. Afinal, o tempo pode apagar uma aula, uma prova ou uma página do caderno; mas dificilmente apaga a memória de alguém que, em algum momento da vida, nos fez acreditar que éramos capazes de ir além.

Porque o que realmente permanece não é apenas aquilo que um professor ensinou, mas aquilo que, depois de aprendido, passou a viver dentro de nós. 

Referências

 
ALVES, Rubem. A alegria de ensinar. 14. ed. Campinas, SP: Papirus, 2014. 

ARENDT, Hannah. Entre o passado e o futuro. 8. ed. São Paulo: Perspectiva, 2016. 

BUBER, Martin. Eu e Tu. 10. ed. São Paulo: Centauro, 2001. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2011. 

FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. 57. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2018. 

FRANKL, Viktor E. Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. 42. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017. 

MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. 2. ed. São Paulo: Cortez; Brasília, DF: Unesco, 2011. 

NÓVOA, António. Professores: imagens do futuro presente. Lisboa: Educa, 2009. 

NÓVOA, António. Os professores e a sua formação. Lisboa: Dom Quixote, 1992. 

UNESCO. Reimaginar nossos futuros juntos: um novo contrato social para a educação. Paris: Unesco, 2022. 

Tags Relacionadas:
Diego Ribeiro dos Santos
Consultor Educacional da FTD Educação, no Rio de Janeiro. É doutorando em Humanidades, Culturas e Artes e mestre em Educação e Políticas Públicas. Pedagogo e bacharel em Teologia, professor de Geografia e Filosofia, com especializações em Gestão de Políticas Públicas, Orientação Educacional, Administração e Supervisão Escolar e Novas Tecnologias Educacionais. leia também Educador Inteligência aplicada à gestão escolar: […]
O que achou dessa matéria?

O que achou dessa matéria?

Clique nas estrelas

Média da classificação 3 / 5. Número de votos: 3

Nenhum voto até agora! Seja o primeiro a avaliar este post.

mais recentes
E-book: entrevista jobs to be done
Ebook

E-book: Guia prático – Entrevista de entrada com Jobs to be Done

E-book: entrevista jobs to be done

E-book: Guia prático – Entrevista de entrada com Jobs to be Done

bolha imobiliária: entenda os riscos
Enem e Vestibular

Resenha: Bolha imobiliária – entenda os riscos e como ela afeta o futuro da moradia 

bolha imobiliária: entenda os riscos

Resenha: Bolha imobiliária – entenda os riscos e como ela afeta o futuro da moradia 

ARTivismo - como combater a crise climática por meio da arte
Enem e Vestibular

Resenha: ARTivismo – como combater a crise climática por meio da arte 

ARTivismo - como combater a crise climática por meio da arte

Resenha: ARTivismo – como combater a crise climática por meio da arte 

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro:

Olá! Que bom ter você conosco! :)

O Conteúdo Aberto oferece gratuitamente conteúdos com curadoria pedagógica para estudantes, escolas e famílias.
Para ter acesso aos melhores conteúdos, efetue seu login ou cadastro: